Receitas de família: arroz doce

Tem receita que traz muitas lembranças à tona, essa é uma delas. Pra mim, o cheiro e o preparo do arroz-doce estão acompanhados da imagem da minha mãe mexendo calma e constantemente a colher de pau na maior panela que temos.
Eu poderia ter escolhido uma das iguarias da Tia Marina, boleira de mão cheia que representa nos doces e salgados, também fiquei pensando no incomparável e apaixonante cuscuz da Tia Marta, ou então a leve e deliciosa coxinha da minha irmã Ellen, quem sabe um dos doces de Ano Novo da Tia Sueli, eternizados por suas filhas e sobrinhas que mantêm vivo seu costume de encher a mesa de lindos pratos nas reuniões de família.

Mas é que minha mãe nunca foi daquelas que dominam as artes culinárias, pelo contrário: não é das mais indicadas pra tarefa, nem se interessa muito por isso, bem como pelos demais serviços domésticos. Aliás, em casa ela sempre foi aquela mulher que trabalha fora e bastante, dedicando horas da madrugada ao estudo e contabilidade doméstica; enquanto meu pai sempre apresentou habilidade na cozinha. Então é assim, sendo uma cozinheira de poucas receitas (são três doces, suas especialidades), acredito que isso nos torna esta ainda mais especial.

Pesquisei para escrever este texto e descobri – como já imaginava – que esta sobremesa não tem origem diretamente ligada à população negra, surgiu na Ásia e também de diferentes maneiras nos demais continentes. Mas desde criança eu sentia que ela foi ensinada pela minha avó e no dia em que comi arroz-doce no terreiro ao fim de uma gira de Pretos-Velhos, deliciosas lágrimas rolaram, se juntando ao gostinho de leite condensado e canela.

Sem mais delongas, tenho a dizer que é uma receita de esquentar o coração, que também fica gostoso se servido gelado; e de adoçar a vida ao perfumar a casa com o aroma de leite e canela sendo cozidos.

Ingredientes
1 e 1/2 litro de leite
1 xícara de arroz
1 lata de creme de leite
1 vidro de leite de côco
1 lata de leite condensado
canela em pau a gosto
opcional: côco ralado e cravo (eu não uso)

Modo de fazer
1) Lavar e escorrer o arroz
2) Levar ao fogo baixo junto com um pouco de leite e a canela, mexendo sempre. Conforme o leite vai secando, deve-se adicionar mais leite, até que fique cremoso, mas não muito. Geralmente isso acontece após ter colocado um litro de leite.
3) Acrescentar o creme de leite e o leite de côco, misturar e depois colocar o leite condensado. É importante não parar de mexer, especialmente nesta parte, se não gruda e queima no fundo.
4) Colocar mais leite para acertar a consistência, lembrando que engrossa quando esfria.
5) Servir morno ou gelado, com canela polvilhada por cima.

Bom apetite!

 

Imagem destacada: reprodução web

You May Also Like
Leia mais

Mulheres de Atenas: o reflexo do genocídio da população preta, pobre e periférica na vida das mulheres negras

Pobre, jovem e negro: esse é o perfil exemplar das vítimas de homicídio hoje no Brasil, que se por vezes não morrem através da ação da polícia à mando do Estado genocida, morrem através da guerra contra as drogas que serve como pano de fundo para culpabilizar e consequentemente exterminar os jovens com esse perfil. No Brasil hoje, cerca de 60 mil pessoas são assassinadas todos os anos, dos quais cerca de 70% são negros e pardos.
Leia mais

Eu não sou a menina cândida – racismo, servidão e relacionamentos abusivos

Libertar-se de um relacionamento abusivo vai além de terminar a relação e afastar-se do misógino em questão. Precisamos atravessar muitas fases para que se consiga reconstruir-se e entender o que se viveu. Depois de nos tocar da vida infeliz que estamos levando e nos libertar do parceiro algoz, ainda leva-se um tempo para superar o trauma, deixar de fugir do medo e encará-lo de frente, encarar o que se viveu e dar voz a si mesma.
Leia mais

Nossas crianças não sabem que são negras

Infelizmente o que ainda se perpetua é o embranquecimento de muitos que nascem, crianças recém nascidas são registradas como brancas sendo que seus país são negros, a origem daqueles bebês não é vista , mas o que é colocado a frente é um facilitador que generaliza os povos com essa cultura “do não saber de suas origens” até mesmo os pais na hora do registro não se interpõe, pois o seu filho ser registrado como branco é um orgulho.