A influência da desigualdade social na Educação

Minha percepção é que a desigualdade social influencia na Educação brasileira por razões históricas. A seu turno, isto se dá por conta de quadros socioeconômicos estruturantes: tanto na vida do aluno, quanto na do professor.

Explico melhor. Inicialmente, a educação, neste país nunca foi para todos. Esta premissa, por si só já faz a Educação, em si, ser um “fato gerador” da desigualdade social excludente. Foi assim no Brasil Colônia e Império. Só os mais abastados tinham acesso a um modelo eurocêntrico e elitista de educação.

 Até bem pouco tempo, (antes da abertura democrática de acesso às universidades públicas, promovida pelos governos de esquerda); estudar; neste país; em ensino público, gratuito e de qualidade era para um grupo específico do estrato social.

Noutro giro, uma vez tendo obtido o acesso formal ao ensino básico, quando se trata das causas estruturantes; a desigualdade social também afeta a vida do docente e do educando. Primeiro, abordando a mais óbvia: a desigualdade na vida do aluno. Pessoas em vulnerabilidade social terão mais dificuldade de permanecer na escola e de apresentar bom rendimento seja porque precisam trabalhar, porque são arrimos de família ou simplesmente porque os problemas da vida doméstica as desconcentram nos estudos.

Por exemplo, tenho uma aluna de oito anos que, durante a aula, estava preocupada com a família. Ela se indagava como o avô faria as compras do mês, compraria galões de água e ainda pagaria as contas da casa, se todos estavam desempregados e só contavam com a pensão daquele senhor.

Ou seja, era uma criança de 8 anos restando pensativa durante a aula de matemática… Daí,  em vez de absorver o conteúdo e de estar concentrada na aula; por conta de uma estrutura social, a garotinha estava preocupada com questões alheias ao estudo no horário da escola.

Além disso, outro ponto relevante, é o local onde estas crianças residem. Pessoas moradoras de comunidades e de localidades violentas terão mais dificuldade para frequentar o colégio – por razões óbvias –. Em dia de operação o CIEP pára.

Ao mesmo tempo, os responsáveis, em sua maioria, por não terem estudado –em geral– não priorizam os estudos. Logo, a tendência é que o aluno também não o considere importante porque não vislumbra ali a possibilidade de ascensão social ou de melhoria de vida através da aquisição de conhecimento.

Dessa forma, a conjuntura social e econômica influenciará no desempenho do aluno e em sua visão sobre educação; o que por sua vez corrobora a perpetuação da desigualdade social.

Por outro lado, abordando a questão do professor, os baixos salários, o sucateamento das unidades escolares e o tratamento horroroso conferido pelo Estado desestimulam a seguir a licenciatura.

Consequentemente, muitos que o fazem, não fazem porque gostam ou porque são vocacionados e sim, por ser este um caminho viável de colocação no mercado (fazendo concurso público).

Sendo assim, esse ciclo vicioso reforça a permanência de baixos salários e alimenta a desigualdade social, já que quem forma mentes pensantes está desestimulado, o faz de qualquer jeito e/ou não gosta do que faz.

Desse modo, a desigualdade social corroendo a vida do aluno e do professor, no Brasil, não é somente uma circunstância sociopolítica. Trata-se de um projeto de perpetuação de uma sociedade calcada em privilégios, de cunho senhorial, escravista e conservadora; cuja elite se afirma justamente no abismo financeiro e intelectual existentes entre esta e a classe explorada, de onde provêm seu lucro.

Imagem destacada – Pixabay

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