Ainda podemos ser vendidas, compradas, comercializadas?

Nos tempos de quarentena e muito decepcionada com o começo de um mestrado parado, decidimos o grupo de mestrandas junto a nossa orientadora fazer um grupo de estudos e nos encontramos todas as quartas para ler e discutir o livro de Grada Kilomba, Memórias da plantação- episódios de racismos cotidianos. Eu ficaria aqui até amanhã escrevendo todas as reflexões que essa leitura comentada nos trouxe.

E em uma dessas quartas nos vimos falando da solidão da mulher negra novamente, das relações monogâmicas ou não monogâmicas tanto em relações heterossexuais ou homossexuais, e afins… o que me remeteu a pensar no mercado matrimonial. Até que ponto as relações não monogâmicas se tornam uma desculpa para não assumir uma relação com uma mulher negra?

Sim…mercado matrimonial, e por mais que tentássemos pensar em um outro nome ou em uma outra lógica para se pensar o que estão se tornando as relações afetivas, não encontramos. Pois hoje quando se conhece alguém, as primeiras perguntas são; qual sua profissão? Você tem carro? Mora onde? Monogâmica ou poli amor? Qual seu tema de pesquisa?

O que é hoje o mercado matrimonial para as mulheres negras quando temos um passado onde éramos vendidas, compradas, comercializadas? Vivendo em um contexto onde ainda somos exploradas, invisíveis, desvalorizadas socialmente e violentadas, o fato é que ainda se escolhe com quem dividir ou construir uma vida pela cor da pele.

Mais que qualquer grupo de mulheres nesta sociedade, as negras têm sido consideradas “só corpo, sem mente”. A utilização de corpos femininos negros na escravidão como incubadoras para a geração de outros escravos era a exemplificação prática da ideia de que as “mulheres desregradas” deviam ser controladas. Para justificar a exploração masculina branca e o estupro das negras durante a escravidão, a cultura branca teve que produzir uma iconografia de corpos de negras que insistia em representá-las como altamente dotadas de sexo, a perfeita encarnação de um erotismo primitivo e desenfreado. (HOOKS, 1995, p. 6)

O imaginário social que se tem da negritude não só no Brasil, mas no mundo, pois assim o racismo se estrutura da forma macro para as microrregiões é de que as mulheres negras têm lugares reservados dentro da sociedade, e dentre esses lugares o matrimônio não está incluso. Não é uma verdade absoluta de que as mulheres precisem se casar para serem felizes, mas as mulheres negras que o querem encontram grande dificuldade e o fato é que “O Censo de 2010 do IBGE mostrou que 70% dos brasileiros se casam com parceiros de mesma cor. Isto é, pessoas brancas se casam com pessoas brancas. Mas, estranhamente, 52,52% das mulheres negras, principalmente aquelas de pele mais escura, ficaram sozinhas.” O que nos levaria para o debate do colorismo, mas sério, vamos deixar pra outro momento.

Enquanto mulher negra lésbica me vejo vivendo nesse mercado onde sou uma ótima amiga, debatedora, palestrante, companheira de boteco, por quem as pessoas sentem afeto, admiração, ou seja lá o nome que dão, mas assim como muitas mulheres negras me pergunto onde se encaixa em minha vida a palavra amor. Nas conversas sobre monogamia ou não monogamia historicamente me vem o sentimento de que a não monogamia é um privilégio de quem pode escolher, que enquanto mulher negra com uma história de preterimento o que a gente quer é apelido carinhoso, é andar de mãos dadas por aí, é sentir que a cor da pele não é um motivo de vergonha ou motivo para que relações se tornem segredos. “Beije sua preta em praça pública” é muito mais que a capa de um jornal.

Nesse processo onde pessoas brancas se relacionam entre si e os homens negros assim como muitas mulheres negras também se relacionam com as mulheres brancas qual o lugar reservado para mulher negra além da solidão? Infelizmente por muitas vezes o lugar reservado é uma relação abusiva, relações essas onde se passa pela violência sexual, física, patrimonial ou psicológica, e que por vezes terminam em um feminicídio, e por aí precisamos pensar em o que significa o aumento do feminicídio das mulheres negras nos últimos anos. Relações essas das quais são difíceis reconhecer onde se está e como sair, pois, por muitas vezes somente assim se encontra uma migalha do que chamam amor.

Portanto precisamos pensar em como não só as relações abusivas, mas como também o celibato estrutural abala a saúde mental das mulheres negras quando nesse país a cada 10 suicídios 6 são de pessoas negras. A cartilha Óbitos por Suicídio entre Adolescentes e Jovens Negros, lançada pelo MS, mostra que entre 2012 e 2016 o número de casos com pessoas brancas permaneceu estável, enquanto o das negras aumentou 12%.

E quando pergunto se ainda podemos ser vendidas, compradas ou comercializadas estou dizendo que hoje a barganha não se resume a dinheiro, ela vem também em formas de migalhas de amor, de meias relações, Precisamos urgentemente trabalhar o que é o empoderamento para nós mulheres negras, empoderamento financeiro, político, crítico, emocional, estético, psicológico para que nenhuma mulher negra aceite menos do que merece.

O que não podemos é continuar a pagar o preço da solidão com nossas vidas.

Referências

HOOKS, bell. Intelectuais Negras. Revista Estudos Feministas, v. 3, n. 2, p.6. 1995.
https://www.geledes.org.br/por-que-as-mulheres-negras-sao-minoria-no-mercado-matrimonial/ Por que as mulheres negras são minoria no mercado matrimonial.
https://vejameumundo.com/porque-mulheres-negras-estao-vivendo-sozinhas/ Por que as mulheres negras estão vivendo sozinhas.
https://www.cartacapital.com.br/sociedade/jovens-negros-sao-maioria-em-casos-de-suicidio-no-brasil/ Jovens negros são maioria em casos de suicídio no Brasil.

Imagem destacada – Elijah O’Donnell no Pexels

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