Aquela mulher

 

– Tomá no cuuu!!!

A frase rompeu os sons do cotidiano. De repente quem estava passando andou mais rápido, alguns se espantaram e foram para as janelas depois do repentino rasgar do silêncio.

– Ontem eu li aquela mulher… aquela que gosta de mulher… ela me disse que o meu silêncio pode me sufocar, que ele não pode me livrar de nada!

E ninguém entendia.

Muitos a conheciam, passava sempre por ali: andar apressado, cabeça baixa, “uma boa moça” alguns concordavam. Mas o que acontecia?

– Não vou ficar calada. Eu quase me matei segurando essa dor de não ser.

A audiência apavorada já concluía: era depressão, provavelmente a moça já andava em tratamento e deveria ter misturado algo aos medicamentos. Quem sabe álcool ou mesmo alguma droga ilícita?

E assim a pequena aglomeração via a jovem despejar de uma veizada só os silêncios que a impregnavam.

– Foi a Audre! Isso! Audre quem me disse que os meus silêncios não podem me proteger. Por isso, eu grito.

O pai da jovem negra desesperado apontava na esquina e praguejava as culpadas pelos delírios da filha:

– Eu sabia que não ia dar certo. É influência daquele bando de pretas de cabelo pro alto. Não ia dar certo, eu disse pra ela: desde que o mundo é mundo as coisas pra preto são assim, nunca vai mudar.

A frase caiu como sentença sobre Sofia, pois o pai  confirmava as palavras de Audre Lorde: era por causa da preocupação e do cuidado de outras mulheres pretas que a força e a essência de Sofia enfim explodiam para o mundo.

– “Que tiranias vocês engolem cada dia e tentam torná-las suas, até asfixiar-se e morrer por elas, sempre em silêncio?” – indagava Audre e repetia Sofia.

Eram o racismo e o machismo fraturando a emocionalidade, o espírito, a capacidade de perceber e vivenciar o próprio corpo, os sonhos, as perspectivas da preta mulher Sofia.

Enfim, Sônia a mãe de Sofia chega. Ela sabe quem é a mulher que brada. Ao ver Sônia a pequena aglomeração instintivamente se afasta. Ali está uma mulher com quem não se pode brincar, “uma verdadeira barraqueira”. Seu olhar é de furor para com aqueles que riem e de afeto para a mulher que sempre defendeu.

“No silêncio, cada uma de nós desvia o olhar de seus próprios medos – medo do desprezo, da censura, do julgamento, ou do reconhecimento, do desafio, do aniquilamento”. Foi assim por muito tempo para Sofia. Para Sônia, a linguagem era um soco na boca de quem a tentava humilhar ou submeter algum dos seus.

Abraçando-a ela conforta a filha:

– Sofia, eu sei que dói essas merdas que falam da gente, mas eu já te disse: você pode falar, gritar, brigar. Eu te ajudo sempre. Eles vão dizer que somos loucas mas estamos juntas. Você vai aprender a falar apesar do medo, do mesmo jeito que a gente aprende a trabalhar apesar de cansadas. A gente foi educada pra respeitar mais o medo, mas se esperamos em silêncio que chegue a coragem, o peso do silêncio vai nos afogar.

O aglomerado logo se desfazia. Perplexos, se perguntavam quem estava mais louca.

O olhar das pretas mulheres, mergulhado em afeto extremo, revelava uma linha de transmissão de amor, lutas e resiliência. Uma linha preta e feminina a romper com todas as falas que arquitetaram o silêncio de Sofia.

Aquelas mulheres – Audre, Sofia e Sônia – ali no meio da rua, ensinavam a mim e as poucas mulheres que assistiam a cena que “quando as palavras das mulheres clamam por serem ouvidas, cada uma de nós deve reconhecer sua responsabilidade de tirar essas palavras para fora, lê-las, compartilhá-las e examiná-las em sua pertinência à vida”.

 

REFERÊNCIA
Audre Lorde. A Transformação do Silêncio em Linguagem e Ação.
Disponível em: http://www.geledes.org.br/a-transformacao-do-silencio-em-linguagem-e-acao/#gs.7tcDd6s

 

 

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