Às minhas, às suas, às nossas com amor, carinho, saudade e coragem

Minha família chegou a uma situação insustentável no dia 10 de fevereiro de 2021, quando todas as quatro pessoas que moram com vovó, em Fortaleza (CE), foram à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) buscando ajuda por causa dos sintomas da Covid-19. A situação piorou para todos e, no dia 14/2, eu cheguei ao Ceará. Levei termômetro, oxímetro, suplemento alimentar. Também carreguei amor, coragem e esperança.

Em 2020, perdemos Luiza, minha tia, em fevereiro (não foi Covid). Em maio, Renato, irmão da Luiza, passou o mês todo entubado, mas venceu. Ainda naquele mês, Lidiane, filha da Luiza, superou a Covid em casa, mesmo quando os sintomas diziam que ela devia estar internada. Em novembro, Cassiana e eu pegamos a doença. Ela, além de perder o pai, passou pela intubação e, assim como Renato, luta contra as sequelas da doença.

A viagem para Fortaleza não foi um ato heróico. Muito longe disso. Eu era a única pessoa que “podia” (com muitas aspas) viajar. Os projetos em que estou envolvida sofreriam um atraso, o que, de fato, aconteceu, mas não fui descontada ou demitida. Eu tinha menos comorbidades, tinha funções respiratórias preservadas e não apresentava sequelas em função da Covid-19.

Assim que cheguei, vi que tia Neném e Walmir, seu marido, precisavam de mais cuidados do que os que eu podia dar em casa. Levei-os à UPA Itaperi. A situação era grave, mas mantive a esperança porque eles receberam oxigênio e, só isso, era mais do que eu podia dar. Deu um aperto no coração, mas era a decisão certa.

No dia seguinte, precisei levar a vovó. Entrei na mesma UPA, com mais uma idosa. Deixei três pessoas naquela unidade de saúde e fiquei em casa com minha tia Fátima, que tinha sintomas leves da Covid. Fiquei conhecida como a garota do Rio de Janeiro, aquela da família com Covid.

Em casa, a rotina era: limpar a casa, monitorar o estado de saúde da Fátima, me cuidar, atender aos telefonemas do monitoramento das secretarias municipal e estadual de saúde, ir ao supermercado, à farmácia, levar itens de higiene e uma muda de roupas, os remédios e as receitas à UPA, assistir aulas, participar de reuniões de trabalho, receber boletins médicos sobre as pessoas internadas, repassar os boletins ao grupo da família, falar com mamãe e papai, tios, tias, primos e primas e rezar.

Do tempo em que adoeceram até a minha chegada, essas pessoas foram cuidadas pela família da minha tia-avó, tia Alzira, cuja casa fica bem ao lado. Portanto, a rotina de cuidado também envolvia conversar com minhas primas no fim da tarde para passar, ao vivo, o boletim médico.

Dois dias depois, recebemos notícias de transferência. O hospital Leonardo Da Vinci recebeu Walmir e o Hospital da Mulher, recebeu mãe e filha: vovó e tia Neném. Foi tudo muito corrido. Peguei Uber para buscar itens pessoais deixados na UPA e depois levá-los aos dois hospitais. Depois, passei no mercado, fui para casa, cozinhei alguma coisa e tentei produzir qualquer coisa. Fui para o quintal, chorei, tomei umas cervejas e desmaiei de sono e cansaço.

O coração acelerava a cada chamada telefônica. Daquela vez, a notícia era de óbito. O primeiro a atravessar a porta foi Walmir. Uma figura controversa, mas aqui só vou lembrar do que me faz bem. Era devoto de Xangô, corretor de imóveis. Trabalhava dia e noite, dia de semana e final de semana. Gostava de conversar, contar histórias e ler jornal. Antes da aposentadoria, ele me empregou. Sou grata. Quando foi vencido pela Covid, nenhum de seus três filhos pode estar lá para reconhecer e prestar as últimas homenagens. Ana, Carlinhos e eu fizemos. Rezamos e nos despedimos.

Dias depois, ficamos sem tia Alzira. Ela era uma pessoa sem igual. Minha mãe chamava a casa dela de clínica porque ela abria sua casa, hospedava e cuidava dos doentes do sertão que iam fazer algum tratamento de saúde na capital do Ceará. Tia Alzira era bem mais. Era a tia que fazia questão de apresentar o Ceará a quem quer que fosse pra lá. Ela tinha um roteiro pronto: do sertão às praias. Eu lembro que a gente ia pras praias mais distantes com o carro tão pesado, de pessoas, comida e bebidas, que a gente cantava que a ‘rural’(carro) ia atolar. O que você quisesse comprar no Ceará, tia Alzira sabia quem tinha os melhores produtos e preços: das castanhas aos bordados. Em casa, à tarde, tinha lanche com suco de fruta e boas conversas. Sempre que contava uma história engraçada, chorava de rir bem no meio do causo. Como sinto sua falta, tia.

Então, a tia que dizia que ia sentir falta dela mesma quando ela morresse, partiu. Era a única das irmãs da minha mãe que eu chamava de tia. Tia Neném era uma pessoa muito alegre, gostava de música, de Roberto Carlos a Fred Mercury. Dizia as coisas ‘na lata’ e não levava desaforo pra casa. Era uma mulher das paixões, do vermelho: roupas, boca e unhas. Era uma mulher extremamente generosa no cuidado com doentes e vulneráveis. Quem batia em seu portão, não saia de mãos vazias. Recebia um copo d’água, um prato de comida ou até um trocado. Gostava de Nossa Senhora de Fátima, festa e cerveja. Gostava de cozinhar – e como cozinhava bem! Mas era muito boa outras coisas. Cuidava bem, plantava bem, limpava bem, costurava muito bem. Era pessoa de detalhes, caprichosa. Ela me ajudou (fez, né? hehehe) a fazer minhas primeiras roupas do candomblé. Meus camisus, saias de ração e anáguas são inconfundíveis pela qualidade da costura dela. Obrigada, tia. Sinto enormemente sua falta.

Vovó resistiu e teve alta. Pudemos cuidar dela e de Fátima até a recuperação plena. Graças a Sàngó e aos Orisàs, eu não fiquei doente. Óbvio, posso não ter ficado doente em função da janela de imunidade, mas vai saber.

Voltei ao Rio de Janeiro no dia 17 de março de 2021 trazendo lembranças e atestados de óbito. Eu chorei muito quando escrevi esse texto. Talvez, porque precisei sorrir para continuar a vida. Sim, estavam com mais de 70 anos, mas não morreram de causas naturais. Morreram em decorrência da Covid-19.

No fim de março, o Brasil ultrapassou a marca dos 300 mil óbitos. Assim como eu, pelo menos, outras 300 mil pessoas choram a morte de uma pessoa querida.

No dia 22 de março de 2021, na Folha de São Paulo, leio a matéria de Fabiano Maisonnave. Conta a história da jornalista Súzan Benites, que, em oito dias, perdeu mãe, pai e irmão. “Não existe lição, compreensão ou justificativa para um sofrimento tão grande. Há 15 dias, eu tinha um lar de muito amor, parceria, cumplicidade, planos, projetos e, hoje, eu tenho nada. A única certeza que eu tenho é que fomos muito felizes juntos e seremos nós quatro para toda a eternidade. Não resta nada de mim, porque eu não existo sem vocês. Espero mesmo encontrá-los em breve. A dor é sufocante, mas meu amor é muito maior”, escreveu em seu Facebook.

No meu caso, é preciso dizer, foi um privilégio ter recursos para viajar, me locomover de Uber e não depender de transporte público, que aumentaria significativamente minhas chances de recontágio. Além disso, me sinto privilegiada por ter conseguido comprar suplemento alimentar, fraldas, material de limpeza e higiene para o cuidado comigo e com eles. Também é preciso mencionar que eles tiveram o privilégio de terem acesso a oxigênio, sedação e UTI.

Agradeço por ter sido acolhida pelas equipes de acompanhamento das secretarias de saúde municipal e estadual, por todas as assistentes sociais que dialogaram comigo, pelas psicólogas, pelas médicas e médicos que reservaram um tempinho em meio ao caos para me falar sobre cada falecimento. Agradeço às enfermeiras e às intensivistas que possibilitaram falar com Tia Neném. Agradeço ao pessoal administrativo da UPA Itapevi e dos hospitais que foram super atenciosos comigo. Agradeço ao maqueiro que percebeu que minha tia não ia conseguir andar até o ‘raio X’ e trouxe uma cadeira de rodas. Tudo isso foi um privilégio, eu sei, mas não devia ter sido.

Finalmente, agradeço à grande família, do Rio e do Ceará, que me pegou pela mão para que eu prosseguisse. Continuar é, sim, preciso.

Do início da pandemia, março de 2020 a março de 2021, o Brasil teve quatro ministros da saúde: Luiz Henrique Mandetta, Nelson Teich, Eduardo Pazuello e Marcelo Queiroga. E o governo brasileiro continua a tripudiar em cima da nossa dor e agonia. Sabemos o grande potencial das campanhas de comunicação, mas…

“Todos sabemos que muitas pessoas chegam aos hospitais, e aí, às vezes, a primeira providência é colocar o oxigênio nasal em quem não precisa de oxigênio. Então, vamos tentar economizar. Vamos fazer uma grande campanha junto aos profissionais de saúde para o uso racional do oxigênio.” (Marcelo Queiroga, em sabatina no Senado Federal. Fonte: Folha de São Paulo, 29/03/2021)

A primeira coisa que os profissionais de saúde fizeram foi colocar meus parentes no oxigênio. Lembrando, três deles morreram. Então, eu realmente não sei quem é a pessoa que está no oxigênio sem necessidade.

No dia 23 de março, a Folha de São Paulo noticiou três mortes causadas por falta de oxigênio na UPA Ermelino Matarazzo, na zona leste de São Paulo. No mesmo dia, vi o registro da tristeza e frustração de Polyena Silveira, ao lado de um paciente que foi a óbito apesar de todos os esforços da equipe para reanimá-lo, no chão de uma UPA de Teresina (PI).

Asfixia

O fato é que não podemos respirar quando acaba o oxigênio. Acabou em Manaus e o resultado foram as mortes. No dia 15 de janeiro, o pesquisador Jesem Orellana, da Fiocruz-Amazônia, recebeu diversos vídeos, áudios e relatos de pessoas da linha de frente de unidades de saúde, falando que os hospitais viraram verdadeiras câmaras de asfixia e, que os pacientes que conseguiram sobreviver devem ficar com sequelas permanentes.

No dia 25 de maio de 2020, George Floyd, homem negro, foi assassinado por policiais norte-americanos, implorando por sua vida, dizendo, mais de 20 vezes, que não conseguia respirar. No Brasil, no dia 19 de novembro, João Alberto Silveira Freitas, homem negro, foi morto por asfixia por seguranças do supermercado Carrefour. No dia 2 de junho de 2020, a morte do menino Miguel Otávio nos tomou de dor e indignação e expôs ao mundo como o Brasil trata os filhos das mulheres negras trabalhadoras domésticas. Silvio Almeida, em artigo à Folha de São Paulo, sentencia que o Brasil não é um lugar seguro para pessoas negras. Concordamos e acrescentamos que boa parte do mundo não é segura para pessoas negras. O mundo sabe disso, mas não quer fazer absolutamente nada para resolver a questão. A gente que lute!

No melhor estilo ‘nós por nós’, moradores do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, se mobilizam para fazer o teste da Covid-19 gratuitamente, graças à articulação da Voz das Comunidades, Dados do Bem e Cruz Vermelha. Projeto da Cufa (Central ùnica de Favelas), “Mães de Favela On”, que deveria ser de iniciativa ministerial ou, pensei cá com meus botões, do Comitê Gestor da Internet do Brasil, tem a ambição de conectar 2 milhões de moradores de favela à internet. Matéria extensa da Folha de São Paulo traz dados sobre acesso à Internet do Data Favela, Instituto Locomotiva, TIC Domicílios e Pnad. Para onde olham, afinal, as pesquisas e análises do CGI.br? Se não possuem dados sobre a população que vive nas localidades que são os gargalos do acesso à internet no Brasil? Pagam caro por uma internet de pouca qualidade (Shirley Ramos, que preside a Associação Criar e Transformar, em Paciência, RJ, fala sobre esse cotidiano), desenvolvem menos a tal da inteligência coletiva pela internet, não conseguem ler na tela quebrada de um celular que trava a todo instante sem memória. Pesquisas sobre internet e educação que não envolvem essas pessoas, incluindo aí os perfis dessas pessoas, não respondem aos desafios atuais. O projeto da Cufa não se chama “Mães On” à toa. São as mulheres que emprestam o celular para os filhos estudarem. Não incluí-las no desafio da conectividade é não dar respostas, mínimas, sobre os usos da internet no Brasil. Pesquisas que não apontam as desigualdades de raça/cor como parte estrutural, silenciam sobre a brecha digital e fazem o jogo do governo meritocrático. Racistas, racistas!

O Projeto Agora é a Hora de garantir o acesso das mulheres negras de seguir em frente, iniciativa da ONG Criola, Instituto Marielle Franco, Perifa Connection e Movimenta Caxias, alcançou 6.005 pessoas, de 17 municípios e 573 territórios do estado do Rio de Janeiro. O apoio veio do Instituto Unibanco, Open Society Foundations, Instituto Clima e Sociedade, Sistema Prodígio de Ensino e o Fundo Brasil de Direitos Humanos. As ações foram organizadas em Ações Humanitárias Emergenciais e Ação Política para Defesa de Direitos. Está tudo na página https://www.agoraeahora.org/.

A Frente de Mobilização da Maré está participando da campanha Rio Contra a Fome e, além da Uerj, temos diversos outros pontos de arrecadação de alimentos não perecíveis e de higiene pelo RJ. O recado é da jornalista Gizele Martins que disponibiliza uma planilha super organizada com os 20 pontos de recebimentos de doações. O link é https://t.co/7znw7PykT6. Informações sobre a Frente da Maré: @frentemare ou no site https://www.frentemare.com.

A Campanha Tem Gente com Fome, dá de Comer! está arrecadando alimentos para 222.895 famílias mapeadas em situação de vulnerabilidade em todo o país. A iniciativa Coalizão Negra por Direitos, Anistia Internacional, Oxfam Brasil, Redes da Maré, Ação Brasileira de Combate às Desigualdades, @342artes, Nossas e Instituto Ethos. Confira a página e doe! https://www.temgentecomfome.com.br/

Yane Mendes, moradora da favela do Totó, Cidicley Fágner, o Caixa, da favela do Canal do Arruda, em Recife (PE), lançaram o Laudo da Revolta em que denunciam a precariedade das periferias na pandemia. “Se dizer antirantirracista é ajudar o preto a se salvar e estamos aqui cobrando para que as pessoas que se revoltam com os absurdos que o presidente fala”. Juntos produziram comunicação sobre a pandemia diretamente pra sua área. Pá-pum. A gente, BN, produziu um podcast com o recado deles porque achamos que todo mundo tinha que ouvir isso. https://www.blogueirasnegras.org/laudo-de-revolta/ Vai lá, escute novamente a série desse podcast e ajude essas pessoas e comunidades que PRECISAM da gente.

A Voz das Comunidades, do Complexo do Alemão, mantém três serviços específicos sobre o Coronavírus. 1) Pandemia com Empatia arrecada materiais para famílias vulneráveis tenham condições de manter os cuidados recomendados pela OMS; 2) Pratos das Comunidades arrecada e transforma em quentinhas e cestas básicas; 3) Covid-19 nas favelas, que traz um acompanhamento do número dos casos de infeção nas favelas do Rio de Janeiro. Entra lá http://pratodascomunidades.com/ e https://painel.vozdascomunidades.com.br/

Aqui é importante lembrar dos fundos de apoio a projetos sociais e ações urgentes que aparecem como alternativas a serem acionadas nesse cenário, destacamos: Fundo Baobá, Instituto Ibirapitanga, Fundo Brasil de Direitos Humanos e Fundos Elas. Só para citar alguns.

Há todo um esforço feito para que a gente consiga superar não apenas a crise sanitária como outras mazelas enraizadas. Tal como a expressa pelo Sr. Enio Xavier, farmacêutico do Instituto Butantã. Ele informou, em reportagem à Folha de São Paulo, no dia 15 de janeiro de 2021, que a inspeção da vacina Coronavac é dominada por mulheres porque é um processo bem crítico e requer muita habilidade e nós somos mais criteriosas. Sr. Ênio, habilidade, cuidado e critério não nascem com as mulheres e nem deveriam ser imputadas como qualidades exclusivas das mulheres, afinal, homens também podem desenvolver essas características.

O que conhecemos?

Sobre imunidade, sabemos que há duas maneiras. Uma delas seria uma resposta completa contra a infecção, ou seja, a impossibilidade do vírus se replicar. A outra, é a produção de uma resposta diante da doença, assim, a pessoa pegaria a infecção, mas não desenvolveria a doença. Ainda não sabemos por quanto tempo seremos imunizados e também não sabemos sobre a eficácia da vacina com relação às variantes do vírus. Estudos já sugeriram que seria improvável uma reinfecção em menos de seis meses. Outras pesquisas falam em cinco meses.

A certeza que temos é a eficácia de práticas de higienização, uso de máscaras na região da boca e nariz e do isolamento sanitário, como bem diz o professor Boaventura Souza Santos, da Universidade de Coimbra, uma vez que seguimos com outras formas de socialização pela internet.

Também sabemos que não existe tratamento precoce, embora o Governo Federal insista nessa versão dos fatos. Sim, há menos ocorrência de outros vírus da gripe porque o uso de máscaras protegem as pessoas dos outros vírus que circulam no ar. Porém, já se conhece o remédio ideal para cada fase da doença e o momento em que o paciente precisa ser entubado.

Em março de 2021, oito a cada dez pacientes intubados, em consequência da Covid-19, morrem na UTI. A reportagem, de Suzana Correa, de O Globo, aponta algumas causas: pessoal sem treinamento específico em cuidados intensivos, má gestão e a longa espera por leitos de UTI.

Jovens

Reportagem de O Globo, feita por Renato Grandelle e Evelin Azevedo, em 8/10/20, traz o alerta de Paulo Perry, epidemiologista, sobre o aumento dos níveis de infecção em jovens. Em dezembro de 2020, início da segunda onda, jovens formaram 20% dos casos, mas ainda eram tratados como transmissores. Hoje, abril de 2021, a curva de jovens que manifestam os sintomas mais graves da doença e evoluem para óbito não para de crescer.

No campo profissional, também são os jovens que mais sentem os impactos da pandemia. Há 12,8 milhões de desempregados no Brasil; 29,7% é a média de desemprego entre pessoas de 18 a 24 anos; 35,3% é a média de desemprego entre pessoas de 25 a 39 anos. Para alguns, a entrada no mercado de trabalho foi adiada; outros, precisaram mudar suas perspectivas porque o panorama profissional é completamente diferente da formação que tiveram.

Informação

Já não é mais possível deixar de explicar a pandemia para a população. Tentativas de descredenciar especialistas. Manipulação dos dados emitidos pelo SUS e mudanças de metodologia. Fake News, desinformação, negacionismo. Cientistas se esforçam para explicar a pandemia e as perifas de todo o país dão show de comunicação e linguagem diante da falta de transparência.

Houve mudança da metodologia do registro de óbitos por parte do Ministério da Saúde, que até ameaçou não divulgar os dados relativos à pandemia. Coube ao Ministro do STF, Alexandre de Moraes, decidir que o governo tinha que restabelecer a divulgação dos dados nacionais agregados sobre infectados.

Ainda sobre dados, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que Deus o tenha em bom lugar, divulgou notícia sobre o aumento da expectativa de vida da população brasileira que, em 2019, subiu para 76,6. A pesquisa diz também que essa idade só não é maior porque, aos 20 anos de idade, a mortalidade masculina, causada por homicídios e acidentes, chega ao topo. Não é preciso ser um gênio da análise para saber que são as mortes da juventude negra que pesam aqui. Ou seja, são os que morrem de susto, de bala, vício ou Covid-19. Sem recursos esse ano, o que será do instituto que transformava nossas desconfianças em certezas? Como avaliar a situação da pobreza no país em 2020 e 2021 (ou quem sabe 2022?)?

Relatório da instituição já apontava que, em 2019, um em cada cinco brasileiros morava em habitações precárias, ou seja, de madeira e sem banheiro. E mais. A precariedade é mais comum nas casas de pretos e pardos. Por trabalhar com dados, em 2021, o IBGE foi largado a subnutrição, depois de corte de quase 90% em seu orçamento.

Informação não é a palavra que rege o governo federal. Começou no dia 24 de janeiro de 2019, quando Hamilton Mourão, vice-presidente, assinou decreto que modificava a Lei de Acesso à Informação. Especificamente aumentava o número de funcionários da administração pública, mesmo sem vínculos permanentes com ela, a classificar as informações do governo federal como secretas ou ultrassecretas. Qual é a parada? O ponto é que informações secretas só podem se tornar públicas depois de 15 anos de sigilo, e as ultrassecretas, com 25 anos de sigilo. Sem possibilidade de investigação, muitos crimes de corrupção prescrevem depois desses dados. Minimamente, é uma ofensa à transparência. O texto não passou na Câmara e foi revogado pela própria presidência antes de chegar ao Senado.

Mas a gente não tem um minuto de paz e logo depois, artigo de Fernando Haddad, analisa o enfraquecimento de duas empresas públicas federais: o IBGE e o INPE. O primeiro traz dados sobre a situação da população brasileira e o segundo, dentre outras coisas, monitora a situação do desmatamento na Amazônia. Elas estão na lista das privatizações.

Em carta aberta, veículos de comunicação, economistas, banqueiros e empresários, vejam bem, reforçam que a recuperação econômica será fruto da retomada da confiança e de maior previsibilidade em relação a situação da saúde no país, que, por sua vez, dependem do desenvolvimento de políticas públicas construídas com dados, informações confiáveis e evidências científicas.

Mas quando a esmola é demais, o santo desconfia, e o artigo de Flávia Oliveira, em O Globo, de 2/4/21, já anunciava a aprovação ASSOMBROSA da furada de fila de grandes empresas privadas no acesso às vacinas. “Desnecessário, uma vez que os laboratórios têm insistido em informar que só negociam com governos centrais, e somente eles. Antiético, porque o chefe da Casa do Povo não devia legislar pelo privilégio privado, especialmente numa nação desigual como o Brasil, onde a pandemia é particularmente letal para pobres, pretos, indígenas, favelados. Estúpido do ponto de vista sanitário, porque imunização de uma parte não protege o todo”, declarou a jornalista.

Escondendo-se atrás da mentira da preocupação econômica, o presidente genocida incentiva a população a aglomerar, desencoraja o lockdown e, contrariando todas as evidências, em setembro de 2020, afirmou que “estamos praticamente vencendo a pandemia”. Em 1° de abril de 2021, o presidente, em reunião com o novo Ministro da Saúde e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM), diz que não é ficando em casa que venceremos a pandemia. Hã?!

O presidente recusa o adjetivo ‘genocida’, mas vejamos: não comprou vacinas quando vários laboratórios ofertaram; incentivou aglomerações, propagou uso de cloroquina; insiste na mentira da medicação precoce, falha com o pedido do Amazonas por oxigênio, interrompe o auxílio emergencial no momento, dizem especialistas como Armínio Fraga, (eu nem gosto dele), em que o apoio era fundamental. Genocídio não é só um crime. Genocídio, diz Thiago Amparo, em artigo na Folha de São Paulo, em 22 de março de 2021, são políticas de morte em massa.

No mesmo dia e jornal, Salvador Nogueira, explica que o crime do presidente não é a preocupação com a economia e com o sustento das famílias. “É a campanha que ele faz – ativa, constante, incansável – para estimular o contágio.” Isso sim é crime.

Educação

Estudos mostram que mesmo em países que investiram em educação remota vão apresentar perdas no ensino. No Brasil, vai ser pior ainda porque a educação, que já era cambaleante, agora, então, com precário acesso à Internet em bairros e territórios de favela, morro e demais periferias, será ladeira abaixo. É com muito pesar que digo isso por acreditar numa educação pública, gratuita e de qualidade, mas o que faz uma família que só tem um computador em casa para pai e mãe trabalhando remoto e dois filhos? Qual será a urgência a ser atendida? Quem vai acompanhar a concentração da criança com cachorro latindo, gato miando, calopsita vocalizando estridentemente, irmã vendo televisão e conversando com amigos e amigas no whatsapp, numa casa um cômodo?

Colocar pessoal militar aposentado para dar aulas em colégios militares é jogar dinheiro fora. Se tá difícil para educadores da ativa lidar com os desafios da educação na virtualização da vida, imaginem só, os aposentados. Obrigada, mas a juventude não precisa desse modelo de educação “testado antes da primeira guerra mundial.”, disse a especialista em Educação, Claudia Costin em entrevista a Fernando Gabeira em novembro de 2020.

É a Síntese dos Indicadores Sociais, do IBGE, que joga na nossa cara que o jovem branco tem duas vezes mais chance de chegar à universidade. Aqui, pessoas negras fazem atividades que exigem menos instrução escolar e pagam salários mais baixos, tais como: agropecuária, construção civil e serviços domésticos. Pessoas brancas atuam na área financeira, da informação e da administração pública – com rendimentos mais elevados. É pesquisa. Não é achismo.

A PNAD-Covid, pesquisa criada pelo IBGE para apurar dados da pandemia, nos mostra que a taxa de desemprego chega a 17% entre mulheres e 16% entre negros, além de atingir jovens e nordestinos.

Eita novembro longo! Jorge Paulo Lemann foi perguntado como vê a estratégia brasileira de enfrentamento à Covid-19 e soltou a seguinte pérola: “O sistema brasileiro é mais difícil de ser disciplinado. Você tem muitas favelas aqui. Você tem muitas pessoas. É mais difícil testá-las. É mais difícil dizer que não podem sair na rua. Muitos dependem de sair para trabalhar.” Se eu disser que é esse o homem por trás da renovação política, ou seja, o investidor que está financiando formações de novos quadros para a política, você pode imaginar em quem vai recair a responsabilidade da transmissão da Covid-19?

Renda

No Brasil, desde a década de 1960, convivemos com a certeza de que o salário mínimo não é suficiente. Quem tem carteira assinada conta com alguns direitos: abono salarial, 13° salário, seguro-desemprego. Quem não tem e precisa pode ter acesso ao Bolsa-Família.

Com modelos de produção que exigem contato, como gerar emprego e renda nesse cenário?

Em setembro de 2020, Íris Cruz, moradora do Rio de Janeiro, disse que o distanciamento no Metrô não existe. E que muita gente só usa a máscara na frente dos fiscais e depois tira.

Vacinas roubadas

Duas ampolas de vacinas foram roubadas de uma unidade básica de saúde de Natal. Estavam armados e levaram o equivalente a 20 doses. Dois suspeitos foram presos, um terceiro está foragido, mas as vacinas não foram encontradas.

Em janeiro, uma imobiliária de luxo britânica pediu desculpas por tentar comprar imunizante. No Reino Unido, assim como na União Europeia, a venda de vacinas para serviços privados está condicionada à vacinação dos grupos prioritários. Em março, no Brasil, uma mulher está presa por vender e aplicar vacinas em empresários. A mulher, que se passava por enfermeira, aplicou soro no lugar de vacinas. Empresários foram lesados,isso é certo, mas eles deveriam estar presos também por receptação ou não?

Futuro

O que será de nós? Seremos obrigadas a passar por quais transformações? Curioso perceber que algumas das 20 pessoas entrevistadas por O Globo, no fim de novembro de 2020, falaram da pandemia como se ela estivesse passado. Muitos comentam que aprenderam a trabalhar com solidariedade e empatia. Também em novembro, o ministro da saúde da França disse, à Folha de São Paulo, “a Covid-19 ainda não ficou para trás”.

E não ficou mesmo! Ameaça de terceira onda com nova variante vinda dos Estados Unidos da América e brasileiros passando fome na segunda onda. No país da desigualdade, segundo o IBGE, o país é o 9° mais desigual do mundo, as doações de alimentos e material de higiene diminuem numa epidemia sanitária e o sistema de inteligência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) descobre indícios de que doadores a campanhas políticas também são beneficiários do bolsa família e do auxílio emergencial.

Como pensar num novo normal sob velhas bases? É tudo muito velho, na saúde, na política, na educação, na juventude, em casa um de nós que se cala.

Por falar nisso, passa lá nas redes sociais das campanhas que a gente informou aqui. Faça sua parte para além das tristezas do cotidiano. Pelas minhas, pelas suas, pelas nossas famílias.

Fontes:

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AMPARO, Thiago. Genocida. Folha de São Paulo, 22 de março de 2021. Saúde. p. B-6

BLUM, Barbara. Crise do coronavírus atrasa entrada de jovens no mercado de trabalho. Folha de São Paulo, 12 de setembro de 2020. Sobre Carreiras. p. C-8.

BOTTALLO, Ana e ANIZELLI, Eduardo. Inspeção da Coronavac é dominada por mulheres; produção é acelerada. Folha de São paulo, 15 de janeiro de 2021. Saúde. p. B-5

CARRANÇA, Thais. Taxa de desemprego chega a 17% entre mulheres e 16% entre negros. Folha de São Paulo, 24 de outubro de 2020. Mercado. p. 1

CORREA, Suzana. Alta mortalidade. O Globo, 29 de março de 2021. Sociedade. p. 7.

FERNANDES, Talita. Após derrota na Câmara, Bolsonaro revoga decreto que mudava lei de Acesso. Folha de São Paulo, 26 de fevereiro de 2019. Acesso online em 2/4/21 : https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/02/apos-derrota-na-camara-bolsonaro-revoga-decreto-que-mudava-lei-de-acesso.shtml

HADDAD, Fernando. Transparência e proteção de dados. Folha de São Paulo, 21 de setembro de 2019. Acesso online em 2/4/21: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/fernando-haddad/2019/09/transparencia-e-protecao-de-dados.shtml

Hospitais de Manaus ficam sem oxigênio e viram ‘câmaras de asfixia’, Jornal Folha de São Paulo, 15 de janeiro de 2021, p. B-1

GRANDELLE, Renato e AZEVDO, Evelin. Brasil chega a 5 milhões de infectados pela Covid. O Globo, 8 de outubro de 2020. Sociedade. p. 16

GABEIRA, Fernando. O processo de ensino precisa ser reinventado. Eleições 2020 – Que Rio é esse? O Globo, 8 de novembro de 2020. País. p. 17

GARCIA, Diego. Expectativa de vida no Brasil sobre para 76,6 anos antes da Covid. Folha de São Paulo, 27 de novembro de 2020. Cotidiano. p. B-6.

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SOUZA, André de. Após reunião, Bolsonaro fica isolado contra distanciamento. Globo, 1° de abril de 2021. País. p. 6

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Misoginia x Misandria

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