As mulheres negras e o seu voto na luta antirracista

O resultado das eleições na América Latina e nos Estados Unidos demonstraram que o mundo está lutando bravamente para ter mudanças decisivas nas estruturas sociais.

O resultado das eleições na América Latina e nos Estados Unidos demonstraram que o mundo está lutando bravamente para ter mudanças decisivas nas estruturas sociais. A vitória da chapa Biden/Kamala nas eleições estadunidense nos mostra que é possível inverter a lógica das tragédias anunciadas.

A vida é feita de contradições e a política nunca foi e nem será um espaço linear, talvez por isso seja necessário ampliar o olhar para o significado das vitórias e principalmente das derrotas. A derrota de Trump é a vitória da democracia, contudo John Biden está longe de ser um revolucionário e Kamala,  a reencarnação de Dandara, eles são o que de melhor o tempo histórico, dentro das circunstâncias reservou a nós.

Nas eleições americanas venceu o bom senso a partir do que estava posto: Trump e tudo o que sua figura, branca, racista, machista, misógino, lgbtfobico representa para os americanos e o restante do mundo, sua engaveta um período sombrio para os americanos, inclusive economicamente, mas a ilusão de que o governo de John Biden será de fácil diálogo para as liberdades individuais e direitosdiretos civis não existem, há como disse Ângela Davis “quem podemos pressionar para o diálogo.”

O contexto eleitoral brasileiro aconteceu numa perspectiva diferente das eleições americanas. As eleições municipais foram poucas discutidas. A exceção do horário eleitoral gratuito da TV e rádio, a cobertura das eleições pelos meio de comunicação tradicionais foi pífio. Sem a possibilidade dos debates televisionados, a possibilidade de o grande público conhecer melhor os candidate@s ficou reduzido ao boca a boca.

A pandemia foi a grande responsável pela diminuição do movimento eleitoral. O dinheiro das gráficas, os profissionais de marketing, equipes de panfletagem, toda estrutura que movimenta uma campanha eleitoral diminuiu muito por causa dos cuidados impostos pela Covid-19. Aliado a isso um silêncio gritante que encobre as expectativas da corrida àsas casas legislativas, como se isso nos colocasse a salvo das inúmeras possibilidades do pleito de 2022.

A primeira vista o panorama é desolador, no entanto se apurarmos o olhar e nos lembrarmos da frase de AngelaÂngela Davis que diz ” quando as mulheres negras se movimentam elas movimentam o mundo”, vamos perceber o quanto as mulheres negras, floriram e se enraizaram no campo das disputas eleitorais nesse pleito.

A resposta das mulheres negras nas urnas foi firme e corajosa as opressões e violência a que foram submetidas, assumindo o protagonismo de suas vidas e se colocando como opção para transformar o cenário atual. Seu olhar para as resoluções dos entraves gerados pelas desigualdades sociais se construíram a partir das lutas populares e sociais, e das suas experiências enquanto corpo que transita nessa sociedade racista e preconceituosa.

O panorama histórico do Brasil comprometeu a ascensão econômica, política e social dessas mulheres, no entanto, na medida que as ações afirmativas criaram principalmente nas universidades, essas mulheres colocaram em prática suas formulações e estratégias de organização, para hoje chegarem a um número expressivo de candidatas eleitas no pleito municipal de 2020.

Voltando a vice-presidente dos Estados Unidos, me lembrei do movimento sufragista e o longo caminho que as mulheres negras percorreram para serem aceitas e acolhidas nesse movimento como cidadãs de direito. A eleição de Kamala é um momento de remissão histórica das mulheres não negras em relação a sua presença no segundo cargo mais importante da hierarquia estadunidense.

Os corpos femininos negros são corpos políticos pelo que carregam em si. No momento em que as mulheres negras chegam as câmaras municipais, ultrapassamos as formulações do campo das ideias e materializamos os discursos de empatia e sororidade que as mulheres não negras estão acostumadas.

As estratégias para repensar os modos de produção e garantir a discussão democrática de acesso a trabalho, saúde, educação, cultura e lazer virão de quem vive as dificuldades do dia a dia e tem na luta cotidiana a preocupação de se organizar para superar os entraves do racismo.

Nossos passos vêm de longe por isso as mulheres negras estão prontas para ser instrumentos de costura e transformação do tecido social. As mulheres negras são a possibilidade de desconstruir esse sistema que nos asfixia e impede a conquista plena da cidadania.

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Imagem - Agência Apublica.
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É importante referenciarmos, que o Estado brasileiro, garante em sua constituição, o direito à vida e à saúde como inalienáveis, que não podem ser negados a ninguém, pela sua cor, raça, gênero ou orientação sexual. É dever então, do Estado Brasileiro, zelar pelo bem-estar de todos os seus cidadãos e também de suas cidadãs, atentando-se as demandas especificas de saúde possuída por cada grupo. Isto é que se chama de princípio da equidade, que a grosso modo pode ser resumido como, tratar os iguais como iguais e os diferentes como diferentes.