Até quando mulheres negras precisarão ser fortes?

Espalham se nos últimos tempos produções de documentários e filmes sobre mulheres negras, Michele Obama Minha História, Nina Simone O que Aconteceu Miss Simone? Madame Mc Walker entre outros e os comentários que leio e ouço são sempre os mesmos…Que mulheres fortes!

E me peguei pensando o quanto de força é exigido de nós mulheres negras? Força no período da gravidez e por isso menos cuidados desde o pré natal com a metade de ultrassons que fazem em mulheres brancas, força na hora do parto e por isso menos anestesias do que nas mulheres brancas, força quando se é abandonada pelos parceiros e ter de criar os filhos sozinhas, força para trabalhar em ambientes onde os chefes são sempre brancos, força para ser sempre a única aluna negra em alguns cursos nas universidades, em alguns movimentos sociais, em algumas autarquias, força pra engolir traições e permanecer em relacionamentos abusivos que muitos acabam em feminicídio, que alias aumentaram 29,9% entre mulheres negras nos últimos 10 anos. Não estaria essa força matando mulheres negras?

Não bastou ter sido forte para sobrevivermos até aqui? Ter tido todos os direitos negados enquanto mulheres escravizadas? Tendo usada sua força de trabalho em canaviais, nas casas dos senhores, na exploração do ouro, seu corpo vendido como mercadoria e usados para produção não de filhos, mas de mais corpos para serem comercializados, suas vontades subjugadas, seus corpos violados, castigados, marcados como de animais, pós escravidão ter passado pela prostituição, pela marginalidade e pelo desemprego.

Basta de ser forte para sobreviver é preciso aprender que podemos viver, é preciso ser livre, é preciso ter coragem para soltar todas as amarras e se permitir ser livre, amarras essas que nos perseguem em formas de estereótipos que nos foram impostos pela colonização e nos perseguem até os dias de hoje, livre para ser quem se quer ser, ser livre implica aprender amar e ser amada, aprender a compartilhar e a construir sem medo, aprender a confiar, a não deixar que a violência e a dor sejam constantes em nossas vidas, aprender que ser feliz é um direito e penso que esse sim, tem sido um dos maiores desafios das mulheres negras. ‘Eu sei é que você parecia tão infeliz, ver você com ele partiu meu coração, você sempre foi diferente, sempre será, então, a partir de agora, vou me afastar, chega de encontros, quero que viva sua vida como quiser, o objetivo dessa convenção, o objetivo da empresa, é dar escolhas a mulheres como nós. Liberdade.’ (C.J Walker, Madam C.J Walker).

O quanto de força é preciso para reaprender a amar? Eu amei uma mesma mulher por quase 10 anos , isso não quer dizer que ficamos juntas todo esse tempo, se quer chegamos a morar juntas e ainda assim, eu cheguei a pensar que seria para sempre, era uma ligação que transcendia o físico e pensava não ser possível ter isso com outra pessoa. Com a separação de corpos que houve depois de três anos dessa relação, os sete que se seguiram foram uma luta interna para a separação de almas. Passei um ano sem ficar com ninguém, depois foram anos de recaídas e relações incompletas e eu não entendia o que ainda me ligava a ela, o fato era que não conseguia amar mais ninguém, mas o que precisava aprender antes de tudo era a amar a mim mesma, hoje essa ligação que era muito forte permanece e vai permanecer para sempre e o amor me mostrou sua capacidade de transformação.

Identificar relações abusivas são processos dolorosos, principalmente entre mulheres pois se pensa que essas relações serão pautadas na horizontalidade, é admitir que a pessoa que se ama não presa por uma relação tracejada no cuidar e ser cuidada. ’Não podemos nos dar ao luxo de esperar que o mundo seja justo para começar a nos sentir vistas. Estamos longe disso, o tempo não vai nos permitir isso. Vocês têm que encontrar as ferramentas dentro de si para se sentirem vistas, para serem ouvidas e para ouvirem sua voz.’ Michele Obama, (Minha História).

E eu não só desacreditei no amor como também me acovardei para ele, não classificaria a palavra força para voltar a amar, classificaria como coragem, é preciso coragem para ser feliz de novo, é preciso se despir de todo o medo e de tudo que passou e digo passou e não deu errado por que deu certo o tempo que tinha para dar, coragem para se deixar ser amada, se deixar ser feliz pelo simples fato de estar na companhia de outra pessoa, coragem para acreditar, pra sentir que as batidas do seu coração seguem novamente as batidas de um outro coração e não tentar controlar isso, coragem para admitir o amor, para deixar o coração bater fora do peito e que esse sentimento reflita no seu estado de espirito e no brilho do seu olhar. ‘Liberdade é não ter medo.’ (Nina Simone, O que aconteceu Miss Simone?

Os documentários e filmes são bons? Sim, são ótimos.

Mas não são histórias de vidas de mulheres negras fortes, são histórias de vidas de mulheres negras reais, que tiveram a coragem de arriscar, acreditar, sofrer, lutar, amar, errar, sentir, se afetarem e se deixarem afetar, enfrentaram o racismo, o machismo, a violência e em meio a um mundo onde imperou e ainda impera a supremacia branca ousaram viver, e não sobreviver.

https://www.netflix.com/br/title/80202462 A vida e a história de Madam C.J Walker.

https://www.netflix.com/br/title/81122487 Minha História.

https://www.netflix.com/pt/title/70308063 What Happened, Miss Simone?

https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/relatorio_institucional/190605_atlas_da_violencia_2019.pdf Atlas da Violência 2019.


Imagem destacada: Collection of the Smithsonian National Museum of African American History and Culture

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