Com raiva e afeto

2019 foi um ano difícil. Um ano em que a população brasileira perdeu direitos rindo. Como pode isso? Um ano que a gente teve que lutar com unhas, dentes, cabelos, peitos, pés, braços, mãos, coração, cabeça. Lutamos com corpo e alma. Talvez, por isso, senti a necessidade de fazer um detox de fim de ano para renovar e reforçar o corpo, a mente e a alma para o próximo ano. Assim, levantei cedo, fiz um suco detox e liguei a televisão. Que porra de ideia foi essa de fazer detox e ligar a tv? Deu ruim. Óbvio. 

Rinha de cães. Engasguei com a imagem de um cão com a mandíbula presa na jugular do outro. Um policial tentava separá-los. Sem outros cães por perto, eram dóceis os bichinhos. Eles eram carinhosos com humanos, com gente que os criou para agressão e a violência. Chorei. Chorei mais ainda quando lembrei que nós, humanos, jogamos uns contra outros e fazemos isso muito bem.

Outra notícia. Filha se desesperou porque seu pai morreu em casa, com os pulmões cheios de sangue. No dia anterior, ela o levou ao hospital, ele passou pela emergência, mas foi liberado. MORREU. Chorei muito e soquei a parede de tanta raiva. 

Eu me lembrei das crianças e dos jovens que morreram pelas mãos do Estado. Chorei. E chorei mais ainda quando lembrei das vezes que vi Mônica Cunha chorando junto com outras mães que perderam seus filhos para forças de segurança. Segurança de quem? Chorei mais. Coração acelerado parecia que não ia caber no peito. Raiva.

Desliguei a TV. Passei pelas redes sociais. Li que uma menina de seis anos que estava sob custódia da polícia de fronteira dos Estados Unidos MORREU DE SEDE!!!! Mexicana, estava na companhia do pai que tentava atravessar a fronteira em busca de uma vida melhor. Que merda, ele tentava uma vida melhor num dos impérios responsáveis pela pobreza em diversas partes do mundo. Chorei. Raiva.

Pensei nas instâncias mundiais e continentais que ajudavam a organizar medidas de compensação e/ou responsabilização. Mas parece que elas também perderam a força diante de um mundo organizado em ‘bolhas’ que se toleram desde que integrantes da bolha A não tentem entrar na bolha B. Ademais, que medida compensaria a perda de uma vida? Chorei de novo. Raiva. 

Lembrei de Fabiana da Silva que lidera um projeto de educação no Parque das Missões, em Duque de Caxias, chamado Apadrinhe um Sorriso. Ela disse numa palestra que faz seu trabalho com muita raiva porque não era para ela se dedicar aquela atividade se o Estado cumprisse seu papel. Encontrou potência de mobilização e realização na raiva. 

Recorro ao sagrado. Agradeço a minha vida e peço força para continuar. Pelo menos, não morrer de raiva. Os Orixás me acalmaram. 

Imprimi o boleto que tinha de pagar, mas não consegui pagar com a tecnologia que tinha nas mãos. Para tirar passaporte e apresentar minha pesquisa em outros lugares. Justiça eleitoral. Biometria. Puta que pariu. Entro na página e vejo a minha situação na página do TRE. Está assinalado BIOMETRIA. Porra. Eu ainda não fiz a biometria. Nóia. Pirei nos cruzamentos dos bancos de dados, ainda mais entre órgãos do governo. Estou pirada nesse bagulho há um tempo. Vou verificar isso depois. 

Mas não é governo. É o Estado que se interessa em vigiar e controlar. Sempre ele. Outra notícia de vigilância me que chamou atenção foi da invasão de câmeras domésticas nos Estados Unidos. Hackers invadiram as câmeras instaladas dentro das residências e sacanearam quem aposta nelas para aumentar sua segurança. Eu fiquei entre a empatia com o desespero dos invadidos ao ouvir uma voz do além em suas casas e depois descobrir que a tal voz vinha da câmera de vigilância e o riso da situação que atingiu quem abriu mão da privacidade em nome da segurança. Depois, fui alfinetada a pensar: sobre que terreno esse senso de privacidade é construído? Sobre que terreno a segurança é construída? A partir de que saberes essas lógicas são construídas?

À noite, fui à Caxias para o Seminário LGBTQI+, Racismo e Segurança Pública, promovido pelo Grupo Conexão G e a iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial. Na pauta: violências sofridas pela população LGBTQI+, racismo e caminhos possíveis para construção de políticas públicas no campo da segurança pública. Fiquei impactada quando soube que a expectativa de vida de uma pessoa trans ou travesti é de 35 anos para branques, 25 anos para negres. Vocês sabiam disso? A segurança tratada no seminário não é a que busca proteger a população de roubo de celular às 4h30, quando a Baixada sai de casa para trabalhar. Quando essas pessoas são abordadas pela violência, com pedra, pau, cinto, corrente, faca e arma de fogo, geralmente, elas são assassinadas. É um outro quadro. 

Palestrantes contaram suas experiências de vida e seu compromisso com essa luta. Informaram sobre a falta de dados, de informações que possam subsidiar a construção das políticas públicas. Para se ter uma ideia, o órgão do governo do estado do Rio de Janeiro para a produção de informações sobre segurança pública, o ISP, captou somente 5 mil reais. Então, como produzir informações relevantes com esse orçamento? 

Promoveram o debate porque pessoas negras trans e travestis se envolvem pouco nas discussões sobre políticas públicas. Não é só construir uma pauta de gênero. É para construir políticas públicas de acesso a direitos, a educação, saúde, segurança, ao emprego. 

Sabem que não será fácil, mas sabem que é preciso abrir espaços debater e falar sobre as violências que atingem pessoas trans e travestis. Debater com pessoas de fora dessa bolha, mostrar a realidade a elas. É preciso dizer que essas pessoas são sujeites de direitos; sobretudo, direito à vida digna. O vídeo Forever Young, da Liniker, foi exibido. Chorei de soluçar. Vejam e sensibilizem-se. Isso precisa mudar. 

Várias ideias foram colocadas na mesa para os próximos encontros. Desde abordagens teóricas da sociologia urbana, como urbanismo subalterno e planejamento insurgente, até a desumanização dos corpos LGBTQI+, o racismo, a falta de produção de dados nos órgãos públicos ligados à segurança, a falta de investigação dos assassinatos de pessoas LGBTQI+, falta de metodologia para categorizar crimes, falta de debate para a abordagem do tema em escolas, uso estratégico da raiva, a violência em espaços conflagrados, fortalecimento de coletivos de cultura etc. 

No fim, é a luta contra opressões. É também um chamado aos movimentos da Baixada Fluminense para mudar a forma de se fazer política e movimento social, reencantando a militância com afeto e estratégia.

Os convidades que me encantaram foram Gilmara Cunha, diretora-executiva do Grupo Conexão G. e especialista na questão da população LGBTQI+ de favelas; Karol Ferreira, presidente do Grupo da Diversidade Sexual de São João do Meriti e Conselheira Estadual em políticas públicas LGBTQI+ do Estado do Rio de Janeiro; Jean dos Santos, advogado; Felipe Carvalho, vice-presidente do Conselho Estadual LGBTQI+ e Cris Lacerda, pesquisadore da UFF. Agradeço à Rayssa Pereira (@rayssa.pereyra) que me chamou para o evento e aos querides Monique Rodrigues (@monique.rodrigues.96 e @projetobengue) e Fransergio Goulart (@fransergiogoulart) que encontrei lá. 

Meu dia começou com choro e terminou com choro, mas com a certeza de que ninguém tá parado e também não tá sozinhe. 

Obrigada. 

Links e @s:
Apadrinhe um Sorriso: @apadrinheumsorrisooficial
Facebook do Direito à Memória e à Justiça Racial: https://www.facebook.com/dmjracial/ ou @dmjracial
Conexão G: https://www.facebook.com/GrupoConexaoG/ ou @grupoconexaog
Grupo da Diversidade Sexual de São João do Meriti: https://www.facebook.com/gds.sjm
Vídeo Forever Young, por Liniker: https://www.youtube.com/watch?v=5KHta5xSdys

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