Denúncia: Assédio no movimento social em Manaus

“A mulher negra é a síntese de duas opressões, de duas contradições essenciais: a opressão de gênero e a de raça. Isso resulta no tipo mais perverso de confinamento. Se a questão da mulher avança, o racismo vem e barra as negras. Se o racismo é burlado, geralmente quem se beneficia é o homem negro. Ser mulher negra é experimentar essa condição de asfixia social.”

Sueli Carneiro

       A partir dessa reflexão de Sueli Carneiro, nós iniciamos essa nota, porque é assim que nos sentimos: asfixiadas, silenciadas; silenciadas por um homem que está acostumado a silenciar, ele sabe que constrange mulheres, ele sabe que a maioria não vai denunciar, mas queremos dar um basta, queremos evitar que outras mulheres passem por isso. Fomos assediadas por esse homem e viemos por meio desta nota denunciar e expressar a voz de mulheres que ele silenciou e constrangeu mulheres que por causa de homens como ele, veem de maneira naturalizada o que ele lhes fez, a maneira como ele as tratou. O homem em questão faz parte do movimento social, da causa negra e do movimento hip hop de Manaus. Já condecorado, conhecido e que usa como nome a própria identidade racial: Negro.

Maria Moraes 2

Maria Moraes 1

Denuncia_1

Denuncia_3

Denúncia_4

Denúncia_2

Fez várias ligações para a adolescente:

Lamartine fez várias ligações pra adolescente (coloca isso na legenda dessa foto, por favor)

 

A vivência de uma mulher cis negra já é marcada por constantes violências raciais por esta não ser enxergada como mulher para casar, esta mesma mulher preta é preterida também por homens negros. Se esta condição de ser mulher negra é marcada por uma estética não querida e não aceita por um padrão imposto e construído culturalmente através dos valores eurocêntricos, tal condição entra em choque na busca de uma imagem que se aproxime desse padrão. Eis presente no capitalismo uma imposição de beleza.

Se a vivência da mulher cisgênera negra é marcada pelo racismo e pela solidão, a travesti nem como mulher será aceita. A travesti, além de ser preta é pobre, está longe de qualquer padrão de beleza imposto. Os algozes destas são todos homens e todas as mulheres que gozam de seus privilégios cisgêneros de forma transfóbica para com essas travestis pretas e periféricas. A travesti também é preterida para um relacionamento. Sua condição é marcada por violências familiares e do próprio Estado. Seu corpo traz cicatrizes aparentemente incuráveis. E para ser aceita como mulher numa sociedade que a demoniza, ela compulsoriamente segue o referencial da mulher cis branca da novela ou da revista de moda. E não é ela que se tortura, são os outros. Os homens, como esse denunciado, só irão procurá-la para o sexo casual. Nessa transa se experimentará os piores fetiches dos homens.

Já é de práxis em Manaus os movimentos culturais e sociais silenciarem casos como esse. Ainda não se debate no movimento negro a existência das travestis pretas e periféricas que também são exterminadas e sofrem o dobro de opressões, fica dito: racismo, misoginia, machismo e transfobia. O que falta nesses movimentos sociais do Amazonas é uma interseccionalidade.

Viemos por meio dessa nota denunciar o machismo no movimento social de Manaus/AM, o homem em questão faz parte tanto do movimento negro, quanto do movimento hip hop. Nós, mulheres negras sobretudo negras e travestis estamos vulneráveis a muitos tipos de violência, racismo, machismo, transfobia, hiperssexualização de nossos corpos, somos tratadas como se fôssemos depósitos de esperma, sempre, constantemente, e nem no movimento social que seria aonde nós poderíamos ter algum apoio, não temos proteção alguma, não há nada e nem ninguém que nos ampare. Esse homem que veio morar em Manaus por volta de 2 anos, maranhense, que morou por um tempo no Pará, que recebe homenagem na Câmara, esse homem hipócrita que faz palestras em instituição de medidas sócio-educativas para adolescentes e jovens meninas, esse homem que dá palestras sobre o genocídio da juventude negra, esse homem é machista, esse homem é assediador e alicia também menores de idade (como uma das meninas que não poderá ter seu nome e nem sua imagem revelada por ser menor, mas que também contribuiu para essa nota), esse homem não respeita mulheres! Esse tipo de homem se esconde e se confia em discurso de “depressão”, usando da chantagem emocional para não ser denunciado e que para que mulheres tenham pena e façam o que ele quer que elas façam, isso também é violência psicológica! Esse homem pode dizer que se arrependeu, mas já haviam conversado com ele antes sobre isso e mesmo assim ele não parou. E ele não é o único, muitas mulheres não denunciam pela falta de provas, muitas mulheres tem medo.

Nossa existência toda é marcada por cobranças frequentes: sobre como devemos nos comportar para que a violência que nos atinge não possa ser justificada pelas nossas próprias atitudes; sobre como conviver com nossos algozes sem pensar em denunciá-los, porque sabemos que se o fazemos, estamos rompendo com uma teia de relações que irão beneficiar quem costuma estar em lugares “confortáveis”, quem sempre tem o privilégio de ser ouvido. Quem permanece nesses espaços, vistos a partir de suas supostas possibilidades de resistência e pelos quais as vozes de pessoas marginalizadas socialmente poderiam ecoar coletivamente, não são mulheres que se desgastam profundamente em diversas tentativas de desmascarar o agressor figurado em um militante incapaz de oprimir quem está ao seu redor. Queremos cobrar o posicionamento dos movimentos que esse homem participa, pois nenhum tipo de violência contra mulher deve ser tolerada, nós não toleramos, não passará!

 

You May Also Like
Leia mais

Mais um caso de racismo na infância

Evidentemente todos os detalhes de mais um episódio de racismo nos causam revolta e indignação, mas também esperança pela profundidade e determinação demonstradas por N., uma menina de 11 anos, uma criança negra, que está dando uma aula de como é importante que a gente não se cale. Não importa com que intensidade o racismo tente nos derrubar. A gente vai reagir.