Dos afetos contidos…

Da dura arte de fazer da vida cotidiana uma troca de afetos para quem tem no DNA a resistência, a luta, a desconfiança e a certeza de que demonstrar afeto poderia ser cobrado com a própria vida. Pois em tempos de escravidão, ao menor sinal de demonstração de afeto as mulheres negras poderiam ser vendidas, castigadas e mortas. 

Enquanto mulher negra lésbica meu desafio todos os dias por mais absurdo que pareça ser, é aprender a tirar uma armadura que eu não vesti por que quis. A opressão que vivemos desde tão cedo nos ensina que não existe lugar para o afeto em nossas vidas. Aprendemos não estando nunca na lista das mais bonitas na escola, aprendemos na adolescência sendo as últimas a namorar, aprendemos com as tias solteironas da família. 

O que tornam difíceis coisas simples como um riso solto, uma troca de carinho, um abraço, um cafuné. Falar da população negra e de afeto nos leva diretamente a falar de um lugar de apagamento, de não merecimento, de preterimento, de submissão, de não ser a pessoa ideal. 

Se o amor em sua construção ocidental é branco, o fato é que precisamos enquanto mulheres negras hoje reinventar o amor, como nos diz bell hooks “Enquanto nos recusarmos a abordar plenamente o lugar do amor nas lutas por libertação, não seremos capazes de criar uma cultura de conversão na qual haja um coletivo afastando-se de uma ética de dominação”. E aqui falo da libertação de nós mesmas, pautando que  vivemos com a noção de amor construída pela elite da sociedade branca brasileira que se baseou em nossos colonizadores. 

 O processo de ressignificação e de reconstrução da imagem das mulheres negras saindo do lugar da hipersexualização de nossos corpos parece um caminho lento, em um país onde ainda se escolhe com quem trocar afetos pela cor da pele. 

É preciso pensar na construção da auto estima, na segurança em trocar afetos da população negra e na construção do auto amor mesmo vivendo em um país onde é difícil construir amor por si mesmo e onde o que mais se aprende é o auto ódio. Aprendemos a não nos amar, assimilamos desde de muito cedo que não somos o “padrão” desejado, e junto aprendemos a nos silenciar. Com a impossibilidade de receber afeto torna-se doloroso retribuir, romper a dura barreira do silêncio requer como nos traz Bell Hooks, com a definição de amor de Erick From “ a vontade de se empenhar ao máximo para promover o próprio crescimento espiritual ou o de outra pessoa. O amor é o que o amor faz, amar é um ato de vontade _isto é, tanto uma intenção quanto uma ação. A vontade também implica escolha. Nós não temos que amar. Escolhemos amar.”

E doeu, doeu reconhecer que trago em mim quase como que um instinto de sobrevivência o não falar e o não demonstrar apesar de muito sentir. Que possamos aprender a falar de nossos sentimentos sem que para isso seja preciso atravessar um oceano profundo de dor. Nos libertar das consequências psíquicas coletivas do racismo que ainda nos assolam ainda é um exercício diário mesmo após 133 anos findado o regime de escravidão.

Que possamos mulheres negras aprendermos a sermos leves no cotidiano para falar e demonstrar os afetos hora contidos hora adormecidos… ainda sem nome.

O amor como prática de liberdade Disponível em  https://medium.com/enugbarijo/o-amor-como-a-pr%C3%A1tica-da-liberdade-bell-hooks-bb424f878f8c 

Tudo sobre o amor. Bell Hooks. Elefante, 2021.

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Desculpas: por que não vamos aceitar.

E o que me preocupa nessa trama toda nem é tudo isso. Não são as desculpas falaciosas, mas as lágrimas forjadas para colocar forçosamente no campo do compreensível o que não é justificável. O papel de vítima não cabe ao agressor. Ela, que não nos poupou de seu racismo, podia ter tido a decência de nos poupar do choro que não cabe a ela; a ela só cabem responsabilização e reparação.