Em nome de uma Rosa de sobrenome Gonçalves

Uma infância pode ser transformada em não infância e
esta infância perdida, pode desencadear, nos mais difíceis dos sentidos, ou melhor, em todos
os difíceis sentidos, numa adulta tenaz, centrada, determinada.
‘Uma criança que já nasceu adulta’, diz minha entrevistada.
Numa dualidade, a do ser e a do ter que ser.
Assim a vida direcionou esta rosa em botão, nascida em Vinhedos, interior de São Paulo, filha de
Maria Inês da Silva Gonçalves e Gabriel Gonçalves.
Em uma família de oito filhos, aos seis anos, foi direcionada a trabalhar e desempenhar, a partir
de tenra idade, a função de doméstica. Numa árdua realidade de força de trabalho infantil.
Uma infância que se perde, um adulto que se ergue. Na dor. Porque há uma dor que se reveste
de resiliência. Eis aí uma resistência de nome mulher.
Em nome desta Rosa de sobrenome Gonçalves, vos apresento sua história de vida e de
superação.
Rosa trabalhou em diversas casas como empregada doméstica, iniciando pela casa da
madrinha Lucy, a pedido de sua mãe.
A mãe de Rosa e sua madrinha foram colegas na única escola que havia no vilarejo, chamada
Rocinha.
Lucy, era filha de um fazendeiro, para quem o avô de Rosa, pai de sua mãe Maria Inês, trabalhava
e onde Maria Inês cresceu.
Esta conexão começou ali na infância. Lucy ajudava muito Maria Inês nos trabalhos da escola
e por gratidão, prometeu que, quando se casasse e tivesse uma filha, daria a Lucy para ser sua
madrinha.
A pequena Rosa foi então ‘aprender’ a profissão de doméstica, na casa da madrinha prometida.
Porém, a relação ali, nunca foi de madrinha, afilhada e sim uma relação de subordinação em
nome do ‘bem’ prestado, em proporcionar ‘ensinamento’ à menor. Que, na verdade, foi quem, ao
invés de aprender, quem ensinou a senhora madrinha, a cozinhar.
Rosa era muito jovem e pouco tinha da pureza e leveza infantil que, naturalmente deveria ter.
Isso se não tivesse nascido em tais circunstâncias e na realidade de um país com tantos,
inúmeros, resquícios escravocratas.
Ela vivia a realidade de libertação somente presente no papel, mas que, efetivamente, não lhe
dava independência, liberdade e possibilidades, advindas das oportunidades, como política de
inclusão social e educação.
E tendo nascido no Brasil, uma República Federativa de muita desigualdade e exclusão, a
menina Rosa teve que lidar com todos os males que isto acarreta: fome, miséria, vicissitudes.
Sim, sua família passou fome. Pedia comida nas casas do vilarejo. E como ela descreve.
‘Éramos pobres, pretos, não tínhamos valor’, e acrescenta ‘Minha mãe sempre dizia: Rosinha,
por favor, se você cruzar com um branco ou uma branca, abaixe a cabeça. Eu rezava, fazia meu
trajeto sempre rezando para não encontrar, já que não entendia e nem aceitava que deveria
abaixar a cabeça para ninguém!’.
Rosa deu continuidade ao trabalho como empregada doméstica e parou de estudar aos 10
anos. Quando não estava servindo alguma família, ajudava sua mãe no trabalho na lavoura.
Esta menina Rosa sempre vislumbrou um futuro melhor. Certa vez, ao ouvir a canção
no rádio ‘She’s My Girl’ (interpretada por Morris Albert), perguntou à senhora com quem
trabalhava o que significava o nome da música. A senhora traduziu e Rosa, em suspiro, declarou
que ainda iria aprender inglês. Espantada a mulher questionou como ela iria aprender inglês se
nem estudou?
É, mas a ‘senhora feudal’ estava falando com Rosa.
Alguns anos passaram e a oportunidade de viajar para o país do ‘inglês refinado’ surgiu e lá foi
Rosa para a Inglaterra no lugar de uma profissional que descartou o convite feito pela família
que trabalhava.
Partiu com uma nova família para a ‘Terra da Rainha’.
Ao chegar em Londres se deparou com um grande nevoeiro. ‘Pensei que eu estava nas nuvens.’ ,
disse ela, que chegou na cidade no auge do inverno, dia 08 de dezembro de 1978.
Assim, Rosa Gonçalves pôde viver o início de sua trajetória no Reino Unido e lá se vão quatro
décadas.
O idioma inglês domina com fluência, assim como um dia declarou que o faria. Teve três filhos
e tornou-se em terras inglesas, uma importante personagem que você vai já saber.
Há 42 anos, Rosa Gonçalves reside em Londres e com uma postura muito determinada, não
foge à luta!
De Rosa e meiguice que seu nome carrega, ela contrapõe com sua altivez e forte presença os
espinhos que a vida proporciona.
Segue com um semblante e a força de quem nasceu para vencer: barreiras, imposições,
determinações racistas, pobreza.
Rosa Gonçalves viveu em um conjunto habitacional, o Kidbrooke, no bairro Greenwich, ao
sudoeste da capital por 30 anos. Todavia o local seria demolido.
Não sem antes ouvirem sua voz (que nunca havia se calado), ecoando mais alto e em bom-tom.
Era 2003, e Rosa representou àquela comunidade nas negociações com o governo para que
todos tivessem seus direitos garantidos e decentes moradias, após a implosão ocorrida em
2009.
A partir dali, nasce uma líder comunitária.
Assim como uma Rosa se sente ao longe em seu aroma e perfume, esta Rosa mulher, ser
humano de uma impactante história de vida, se vê ao longe, tamanha sua altivez e beleza.
Uma voz que se fez espalhar, reverberar, uma grandiosa voz de libertação e a missão de se fazer
ser.
Hoje, Rosa Gonçalves é Consultora de Gestão e declara atuar com o que realmente gosta, que é
formando instituições privadas e Ongs, companhias brasileiras em Londres.
Rosa Gonçalves tem um legado e uma impactante história de vida.
Com uma biografia que em breve será lançada, sua experiência de vida estará disponível em
forma de livro, o que perpetuará sua passagem de vida por cá.

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