Entrevista com Lourdes Teodoro

Você lançou em 2015 o livro “Identidade Cultural e Diversidade Étnica”, que é uma adaptação da sua tese de doutorado em Literatura Comparada, defendida na Sorbonne Nouvelle – Paris III; juntamente com ele o livro intitulado: “Identidades Culturais e Négritude Antilhana”, o qual contem o texto lido na defesa de sua tese. Ao ler seu texto tive a impressão de que ele ainda é muito atual, apesar de ter sido escrito na década de 80.  Por que você escolheu trabalhar com as obras de Aimé Césaire e Mário de Andrade e como essas duas obras te permitiram falar da identidade cultural e diversidade étnica expressas nas Antilhas, através da Négritude africano-antilhana e no Brasil através do Modernismo?

Lourdes Teodoro em Brasília, 2013, foto de Otávio Teodoro Chaves.
Lourdes Teodoro em Brasília, 2013, foto de Otávio Teodoro Chaves.

Descobri o Aimé Césaire nos meus primeiros anos de Universidade, simultaneamente ao estudo do Modernismo brasileiro. Logo Mário e Césaire me pareceram muito próximos em seu desejo de conhecer e compreender sua própria cultura, apropriar-se dela. Enquanto intelectuais, eles reconheciam seu distanciamento e desconhecimento da cultura popular, do folclore: abriram frentes de pesquisa que desenvolviam toda uma reflexão crítica sobre a dependência cultural das elites face aos valores culturais europeus. A geração de Aimé Césaire, assim como a de Mário de Andrade quis subverter valores culturais, quis dizer não ao colonialismo, quis assumir seu passado e transformar o presente.

Meu interesse já estava bem ancorado na psicanálise quando eu pude também acompanhar os Colóquios das Quartas-feiras do Instituto Du Bois para estudos africano-americanos, na Universidade de Harvard. Era a primeira vez na vida que eu frequentava um ambiente universitário onde nós negros éramos mais de noventa e nove por cento dos professores. As inquietações dos pesquisadores norte-americanos que visitavam o Du Bois me mostraram quão atual era o meu texto em torno da Négritude e do Modernismo, com seu eixo de reflexão sobre identidade cultural e relações raciais. Não tive dificuldade em encontrar uma boa editora na França/Canadá.  Creio que é também devido à atualidade do texto que a edição em Português traz o prefácio (de 2015) do comparatista francês Daniel-Henri Pageaux, Professor Emérito da Universidade da Sorbonne.

Identidades culturais e Négritude antilhana é um pequeno livro onde eu quis, sobretudo, ressaltar um percurso em literatura comparada e divulgar o texto lido na defesa de tese de doutoramento. Esse é um ritual pouco divulgado e achei bom fazê-lo. A pequena introdução ao Movimento da Négritude ficou a título de ilustração do que desenvolvi no livro.

O que significou para você o ato de traduzir seu próprio texto? Quais foram os pontos positivos e negativos de ser uma autora que traduz a si mesma?

Quando iniciei minha pesquisa sobre identidade, no fichário por assunto, na Biblioteca Nacional de Paris, encontrei um único título sobre identidade: a obra Identité et Realité de Emyle Meyerson.  Li toda a obra, sem entender muito. Mas essa leitura me trouxe clareza sobre a importância do método, da continuidade, do rigor de uma reflexão. Eu construí, no campo da literatura comparada, o meu próprio caminho, com apoio do meu diretor de pesquisa.  Isso para lhes dizer que traduzir o meu próprio livro exigiu bastante humildade, assim como aceitar não atualizar uma teoria que se enriqueceu muito no campo das ciências humanas e também das exatas. Só foi possível manter o texto porque os dois aspectos essenciais relativos à identidade, como eu a trabalhei, permanecem: a relação ôntica (eu/Outro) e a impermanência, a dinâmica da própria identidade. O bom do trabalho de tradução foi também ir percebendo, ao longo do caminho, quantas questões podem ser retomadas, sob novos ângulos ou aprofundadas.

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