Era uma vez, uma enóloga negra! Entrevista com a graduanda de Enologia Larissa Bezerra 

A produção de vinhos tem cerca de 10 000 anos. A nossa produção vinícola tem sua base na tradição vinícula de egípcios, gregos e romanos. Porém, e muito felizmente, vinhos não são exclusivamente produzidos no norte da África e na Europa. 

Brasil também produz vinhos, ainda que esteja muito longe de se tornar concorrência para o atual líder do mercado, a Itália. No nordeste do país, às margens do rio São Francisco, e no extremo sul, estão os maiores produtores de vinho no Brasil. E é aqui, no curso de Enologia do Campus de Dom Pedrito, no Rio Grande do Sul, que encontramos a nossa entrevistada de hoje, Larissa Bezerra. Ela é uma das pouquíssimas estudantes negras nessa área e a sua paixão a fez atravessar o Brasil de norte a sul. Vem conhecer a trajetória dessa jovem enóloga.

  1. Por favor, Larissa, se apresente para a gente.

– Bom, eu sou Larissa Bezerra, sou uma mulher negra nordestina que saiu do Nordeste em busca do sonho de ser especialista em vinhos! Sou mãe da Stephany Bezerra, minha parceira nessa jornada. Atualmente estou no final do curso de Bacharelado em Enologia.

  1. De onde vem essa sua paixão pelo vinho? E quando você decidiu estudar enologia?

– Minha paixão pelo vinho surgiu quando eu brevemente trabalhei servindo vinhos em um restaurante, ainda era muito jovem, mas naquele momento eu soube que o vinho era meu destino.

  1. Foi fácil ou difícil conseguir informações sobre essa graduação?

–  Não foi fácil conseguir informações porque é uma profissão muito nova no Brasil, que foi regulamentada em 2007, então pouco se fala em enologia, nos sites as informações são genéricas, e atualmente a única universidade Federal que oferece o Bacharelado em Enologia é a Universidade Federal do Pampa.

1. Enologia não é uma graduação tão conhecida quanto História ou Medicina, por exemplo, o que as pessoas disseram quando souberam da sua decisão? 

– As pessoas geralmente se surpreendiam por ser uma profissão diferente, e ficavam ainda mais surpresas quando sabiam que eu teria que migrar para o Rio Grande do Sul para cursar o Bacharelado em Enologia. Muitos amigos acharam loucura, outros aplaudiram minha coragem.

2. Você está feliz com a sua decisão? O seu curso é aquilo que você esperava?

 – Estou muito feliz com minha decisão. O curso superou absurdamente minhas expectativas, e foi muito além do que eu imaginei. Enologia foi e segue sendo minha melhor escolha.

3. Descreva um dia típico de uma estudante de enologia.

– O estudante de enologia em um dia comum vai se deparar com o que eu chamo de: tríade da enologia, que é estar no laboratório, vinhedo e vinícola da universidade. Aprendendo desde os cuidados básicos da videira, até a elaboração do vinho, e nesse processo vai aprendendo sobre os microorganismos que auxiliam no processo de fermentação do vinho, e também sobre análises físico-químicas necessárias para saber o andamento dessa fermentação.

4. Quais são as matérias preferidas da sua graduação e as mais odiadas?

– Eu sou muito apaixonada pelas disciplinas onde os estudantes tem a oportunidade de fazer vinho, hora acompanhados dos professores, hora sozinhos para colocar em prática todas as teorias. Gosto muito da parte microbiológica também, testar diferentes leveduras e observar do que são capazes, observar como se comportam e como se desempenham na fermentação. 

Mas nem tudo são flores (risos) a enologia tem algumas disciplinas como matemática, máquinas e topografia que eu não gosto muito, mas tenho consciência que são importantes para o curso.

5. Você é mãe solo, quais são os maiores desafios na sua graduação enquanto mãe?

– Meus maiores desafios exercendo a maternidade solo enquanto universitária, é a falta de preparo da universidade para a presença de mães solos no espaço acadêmico. Várias vezes já fui obrigada a deixar minha filha com amigos porque alguns espaços ela não podia estar comigo, não podia ir nos ônibus da universidade comigo, e na universidade não tinha espaço pra ela ficar enquanto eu estava nesses espaços. Na verdade nunca se pensou que uma mãe solo ousaria atravessar o país para cursar uma graduação com sua cria.

6. O que precisa ser feito para que os estudos da Enologia sejam mais acessíveis para mães solo?

– Para que o curso e a universidade seja mais acessível para mães, sobretudo solos, é necessário pensar em políticas públicas que solucionem questões como: espaços seguros para crianças dentro da universidade, com pessoas qualificadas cuidando dessas crianças , enquanto as mulheres assistem suas aulas sem se preocupar se a criança vai fazer barulho e atrapalhar os colegas, ou se vai conseguir alguém para ficar com o filho. 

Alimentação para as crianças. Porque não adianta a mãe poder comer na universidade, se a criança não pode também. A mãe vai deixar a criança olhando com fome?

7. O que você diria para uma outra jovem negra que esteja pensando em estudar enologia?

– A enologia é linda! No entanto, precisa de mais diversidade, precisa ser ocupada por pessoas negras. Você não terá muitas inspirações, portanto seja sua própria inspiração! Siga de cabeça erguida, você é potência e merece estar aqui, apesar de ver pouquíssimos rostos como o seu, isso está mudando, faça parte também dessa mudança! 

Foi o que eu disse pra mim mesma durante minha graduação, e diria também pra outra mulher negra. 

8. Quais são as pessoas que lhe dão suporte no seu cotidiano estudantil?

– Alguns amigos que me enviam forças com mensagens de incentivo ao longo dessa jornada. E minha filha que com seu abraço não deixa a solidão fazer morada em mim.

9. Você também tem um blog, ou melhor um perfil no Instagram e no YouTube, onde você fala mais sobre vinhos e Enologia em geral. Como é a recepção do seu conteúdo?

– Eu falo de vinhos nas redes sociais da forma mais simples e prática, que é como eu gostaria que me falassem sobre qualquer assunto que gosto mas que não entendo muito bem. É uma forma de reverberar o vinho também. A recepção tem sido muito positiva, bem mais do que eu imaginei.

Recebo mensagens de agradecimento, muitas pessoas que não sabiam muito sobre vinho , e outras que não bebiam porque não se sentiam dignas do vinho, me agradecendo por eu falar sobre, de uma maneira didática.

10. Já sofreu algum tipo de discriminação? Como as pessoas veem uma enóloga negra? 

– Geralmente as pessoas falam que não tenho cara de enóloga. Como se houvesse um perfil para a enologia e eu não me encaixo nele. Mas eu costumo rebater de uma forma bem simples perguntando como seria alguém com cara de enóloga? E a pessoa percebe sozinha que errou feio e o constrangimento chega na hora.

11. Se você fosse para uma ilha deserta e só pudesse levar uma única garrafa de vinho qual seria o vinho?

–  Seria o vinho Sauvignon Kretos que eu fiz para elaborar meu tcc, sem dúvida alguma.

12. Uau, seu próprio vinho?! Conta para a gente.

A Uva Sauvignon Kretos é uma uva resistente a doenças fúngicas da videira, resultado de cruzamentos entre espécies de uvas, para chegar nesse resultado de resistência. Isso é benefício porque reduz a aplicação de fungicidas, levando a um menor impacto no meio ambiente. Além de reduzir os custos de produção da uva. Pensando nessa perspectiva, tornou-se necessário caracterizar o vinho para análises do potencial da uva Sauvignon Kretos na produção de vinhos brancos de qualidade. 

O resultado foi bastante satisfatório, o vinho apresentou aromas frutados, sabor leve e refrescante. Realmente agora é um dos meus vinhos favoritos.

13. Muito obrigada por essa conversa, Larissa!

– Me sinto lisonjeada por essa entrevista. Obrigada.

Notas: Siga a Larissa na redes sociais: “@enotrajetoria – A trajetória de uma enólogA” no instagram e no canal “A trajetória de uma enóloga” do YouTube.

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