Escrita Caroliniana: lugares de fala e visibilidade na língua escrita do pretuguês

 Na construção de uma literatura perpassada por vozes polissêmicas, destaca-se o estilo estético realista e a presença de uma lírica romântica na composição do estilístico da escrita de Carolina Maria de Jesus no seu livro Quarto de Despejo: Diário de uma favelada. 

Neste sentido, tecer diálogos entre teorias da linguística, da linguagem e da literatura compreende identificar os traços da tradição oral da escritora, refletindo uma oralidade diaspórica, o que se contrapõe à escrita legitimada pela visão canônica da estética literária, além da visão restrita da língua portuguesa a qual não se restringe apenas às regras gramaticais.   .

  A partir deste conceito, sugiro refletir a escrita de Carolina Maria de Jesus como alta literatura, identificando na figura paratópica da narradora –  negra, pobre e mulher – essa voz discursiva do eu-lírico caroliniano, que traça uma nova perspectiva de prosa-verso permeada por um imaginário que delineia um cotidiano da população moradora da favela. 

Deste modo, temos uma narrativa que se concebe em um contrafluxo estético, porque nos faz rever a linguagem literária negra para além da arte e da cultura eurocêntrica. Ao ler esta narrativa costurada em uma pretensa ação discursiva intimista, somos levados a confrontar as estruturas da norma gramatical a uma percepção linguística que endossa na escrita as tradições orais afrodescendentes fazendo emergir uma singular leitura do Brasil, que parte do ponto de vista de uma mulher negra e periférica. 

A narrativa caroliniana gesta uma estética literária fiel aos dizeres da  tradição cultural, bem como a sua narrativa-verso é constituída  pela ação estética de uma “fiandeira de palavras” (PADILHA, 2002) que tem a finalidade de  tecer o cotidiano da sua vida através da tradição oral que se costura em seu diário, como registro verossímil à própria realidade.

 Para elaborar este fiar da realidade, é importante compreender que a relação da narradora verseja com uma tradição de mulheres que trazem em suas mentes estórias advindas das diásporas africanas, mescladas com as suas leituras dos consagrados romances literários.

 Estes dois elementos destacam-se como formadores de uma literatura concebida não no plano da espontaneidade, mas realizada com distinção estética, pois se percebe uma literatura enraizada na tradição oral negra com uma intenção de versificar esteticamente a própria voz. 

A obra Quarto de Despejo: Diário de uma favelada se situa, logo, de maneira pragmática, entre fala e escrita. Essa última tenta confinar a fala às regras gramaticais da língua portuguesa. Como estabelece Conceição Evaristo, em sua visão sobre a escrevivência, as narrativas de matrizes afrodiaspóricas são promovidas por uma gramática atrelada ao cotidiano das mulheres negras, que fiam histórias aos sujeitos saídos de seus ventres. O eu-lírico caroliniano pariu uma interpretação do Brasil, mas também inovou a literatura brasileira à medida que uniu na escrita um dizer literário, ritmado e estético.

Desta feita, existe uma predisposição em ignorar a pluralidade linguística perante os fenômenos da língua que passam a não ser verificáveis, por exemplo, em espaços onde não se deu a escolarização. 

Porém, as práticas de ficção, de contação de estórias, a poética de fabular a realidade circulam nestes lugares periféricos, onde existem figuras enunciativas que participam de uma orgânica língua falada que não só se  transforma no tempo, mas também absorve o contexto sócio-histórico cultural, compactuando com o desejo humano em fazer parte dos círculos sociais por meio do ato de contar histórias.

     Esta textualidade perpassa o eu-lírico feminino que escreve a fala, configura um lirismo, um estilo cujo valor literário expõe fenômenos da língua portuguesa protagonizadas por oralidades étnicas. 

Oralidade permeada por palavras que se costuraram em tecelagens antigas, aquisição advinda das diásporas de etnias africanas ao continente americano. Tais oralidades demarcam uma subjetividade a qual cria e reverbera um imaginário literário, linguístico das etnias africanas. Nesta linha, Lélia Gonzalez destaca que as formas de expressão das populações que descendem dos africanos são marginalizadas, confirmando um conceito excludente de norma culta da língua portuguesa.

 Em sua proposta, existe uma reivindicação à epistemologia dominante do uso da língua. Assim, formula uma ciência que considera os saberes linguísticos de parteiras, bem como dos povos colonizados, como legítimas. Gonzalez afirma ainda que são ricas formas de expressar os pensamentos, uma cosmogonia, um ponto de vista através de uma escrita envolta pelo cotidiano experienciado. Estas manifestações linguísticas são reversas aos protocolos das regras dos discursos dominantes a partir de uma verificação do surgimento de uma língua intitulada de pretuguês (GONZALEZ, 1984). 

Esta valorização da linguagem falada dos povos negros entra em contrariedade com as ciências das gramáticas normativas, as quais estipulam as falas de matrizes africanas como “um erro” na língua. Neste entendimento da língua portuguesa, a gramática é a única língua que existe; ela se consagra por esta visão estática e vinculada à gramática eurocêntrica, confirmando uma submissão linguística às demais formas de expressão, tais como nossas oralidades. Além disso, ignora a fala do sujeito que pratica o pretuguês como não cabível aos cânones da literatura de língua portuguesa, pois desloca as narrativas literárias caroliniana à invisibilidade enquanto sua contribuição  histórica, estética e valor revolucionário na arte da escrita.   

Logo, compreendemos que as páginas do livro Quarto de Despejo: Diário de uma favelada contêm uma discursividade que contesta o lugar eurocêntrico da escrita já que a sua narrativa acontece sem a autorização da branquitude, porque existe na escrita pretuguesa da narrativa caroliniana a presença de uma fala que acontece versificada em uma plurissignificação da fala de nós na escrita das mulheres negras, como observa a filósofa Djamila Ribeiro. 

À luz dos estudos da Raffaella Fernandez, no livro Carolina Maria de Jesus: meu sonho é escrever..Destaca-se que a escrita desta grande autora torna-se imprescindível aos estudos pós-coloniais, já que se consagra como um “antídoto para abertura” de outras narrativas, que não somente aquelas consagradas pela academia beletrista. 

Ainda nas contribuições dos estudos de Fernandez, a validade da escrita de Carolina Maria de Jesus consagra-se por um processo criativo que fia uma poética de “feituras híbridas”, a qual não se encerra em um jugo pueril sobre o gosto estético visto de forma hierárquica, que ora compreende o eu-lírico caroliniano como escritora, ora a coloca no lugar de invisibilidade por ter uma escrita permeada por um imaginário endossado por narrativas da população periférica.

Deste modo, a obra dessa autora não se encerra nas contribuições da literatura de categoria periférica, pois passamos a compreender sua escrita através de uma visão paradigmática a qual se considera para além dos cânones consagrados pela cultura escolar eurocentrada. 

Tal como discute Fávero e Marchuschi, a língua portuguesa não deve se restringir a uma análise “estável e estática”, porque o gênero escrito torna-se misto. Logo, a língua utilizada por Carolina Maria de Jesus para contar as vicissitudes do seu cotidiano consta-se em movimento, como a língua que ela usufrui, como forma de expressar, esteticamente, o pensamento subjetivo.  

            Neste contexto, percebo que a escrita caroliniana pode contribuir para estabelecer valores estilísticos em produções literárias que se percebem influenciadas pela modalidade oral.  

Por conseguinte, colabora com soluções analíticas que distinguem a presença da fala na escrita por meio de critérios mais profícuos com efeito de  nortear uma ruptura diante de estereótipos e estigmas frente a constatação da presença da tradição oral na escrita caroliniana. onde a fala e a escrita não se repelem (FÁVERO, 1999, p. 82). À luz desta visão teórica, compreende-se uma categoria sistêmica para analisar a modalidade de oralidade e a modalidade de escrita.

    A autonomia da narrativa caroliniana permite destacar os aspectos localizados na fala que estão presentes no diário, criado em um contexto periférico em que se nota um enunciado que condensa as vivências de leitura, de catadora de papel, de mãe, de mulher escritora e de mulher que passa fome. As marcas de leitora romântica convivem com as experiências vivenciadas no cotidiano, como afirma a escritora Conceição Evaristo, “Carolina trabalha com a escrevivência”. 

     Vista esta percepção de escrita, descolonizamos a visão sobre produções textuais somente pela percepção homogeneizante com a intenção de ler um diário cuja complexidade das palavras e a forma como são dispostos os enunciados na obra inteira alcançam traços líricos, românticos os quais estabelecem um paradigma no enunciado, já que outra voz discursiva aparece de forma mais realista, mais prosa, mais enraizada na realidade, remontando, talvez, ao estilo estético realista.  

Esta complexidade no enunciado consubstancia uma produção textual cujo valor estético, tal como se analisa na literatura moderna, dá-se por meio de tensões produzidas mensuráveis pela modalidade oral que se apresentam na obra, já que se determina o encontro de universos que, no plano social, estão impossibilitados de coexistirem:      

(…) Sentei na mesa para comer. A toalha era alva ao lírio. Eu comia bife, pão com manteiga, batata frita e salada. Quando fui pegar outro bife despertei. Que realidade amarga! Eu não residia na cidade. Estava na favela. Na lama, as margens do Tietê. E com nove cruzeiros apenas. Não tenho açucar porque ontem eu saí e os meninos comeram o pouco que tinha. (JESUS, 1993, p. 39)  

           Deste modo, a escritora vive a dimensão mais lírica, bem como onírica que, logo, interrompe-se na crua realidade da fome. O eu-lírico é tecido em um pretuguês de narrativas orais das fiandeiras, ou guardiãs das tradições da oralidade. 

Este tracejo da fala na escrita marca a obra caroliniana pela fusão de dois gêneros literários. No primeiro plano, temos uma narrativa onírica nos moldes do estilo literário romântico mais atrelado à escrita gramatical, o qual é irrompido pela realidade amarga que chega a uma verossimilhança fotográfica, no decorrer da narrativa, que vai tomando a forma do estilo literário realista, porque existe uma necessidade do eu-lírico em retratar a sua realidade. 

Percebemos que o meio sonoro apresenta influência no meio gráfico, na obra de Carolina Maria de Jesus. As palavras apresentam duas dimensões distintas, porém não excludentes, já que existe a intersecção mediada pela concepção das modalidades escrita e oral. Deste modo, as “escrevivências” estão situadas no ponto em que podemos teorizar as diferenças entre as modalidades sonoras e gráficas, mas delimitando, também, as suas semelhanças. 

       Neste caso, a língua ultrapassa a barreira gramatical para se atrelar a um status que constitui o paradigma das mulheres, eu-lírico que se cria,  humaniza-se por meio da criação da linguagem que se encontra na cultura, bem como no convívio social, possibilitando à humanidade adentrar nos recursos da língua, criando imagens a partir da palavra. Tal como explana Bruno Garcia sobre Buenaventura (1995), comparando a palavra à metáfora sobre o crescimento de uma árvore, a qual possui raiz, tronco, ramificações, folha, flor, gerando, pois, um fruto.  

Sendo assim, a palavra toma uma dimensão em que é significada como elo de vida, movimento das tradições orais dos povos das diásporas africanas  em uma narrativa que causa fissuras na gramática normativa ao destacar a escrita caroliniana, como uma figura da enunciação (MAINGUENEAU, 1995), uma forma de localizar a narradora negra-mulher-pobre como protagonista do enunciado, trazendo à visibilidade o discurso do pretuguês.    

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