Eu não conheço a Angela Davis

Nasci nos anos 80, em uma favela do Rio de Janeiro e tive uma infância Normal. Normal dentro do que se acha ser  normalidade para uma criança pobre: comia, bebia, brincava…

Estava tudo ok. Mas não! A gente vive perdendo coisas que nem chegamos a ganhar (epistemicídio, sabe do que se trata?).

A vinda de uma mulher negra importante (para a história da sua comunidade) ao Brasil,  me fez pensar no dia-a-dia de muitas mulheres negras deste país. Situações que estão expostas em dados e sentido na pele de quem sobe e desce os morros ou anda nas ruas da Periferia carioca.

21% das equipes tecnológicas do país não têm sequer uma mulher negra. 59,4% são vítimas de violência. 62,8 % vítimas de mortalidade maternal. 65,9% vítimas de violência obstétrica. 68,8%mortas por agressão. 81% são vítimas de discurso de ódio na internet. Somente 10,4% das mulheres negras completam o ensino superior.

A trajetória da mulher negra contemporânea, apesar de algumas  conquistas, em determinados aspectos, ainda se parece muito com o período colonial. Os acessos negados são tantos, que é preciso fazer uma força imensa só para garantir o básico para uma sobrevivência digna.

Pensando neste cenário  e na vida acadêmica, (que ainda é uma faca de dois gumes para mim) me pergunto: do que adianta ficarmos encharcados de saberes e este não ser dividido com os que não tem acesso? Digo, para além  da Internet, na base.

Ainda não reconhecemos nossos heróis, ainda não sabemos como eles  enfrentaram nossos algozes no passado ( que ainda nos oprimem no presente).

Angela Davis deveria ser nome fácil na boca do povo, mas seus livros circulam apenas nos salões privilegiados da academia. Não sobem morro, nem chegam nas periferias  (aqui falo de sua palavra e de quem a conhece).

Dados mostram explicitamente qual tipo de educação é reservada para mulheres negras. Dados não são necessários se a sociedade se inquietasse com a falta de diversidade em cargos políticos, nas universidades e em profissões que não sejam de Servidão.

A vinda de  Davis mais uma vez no Brasil me inquietou e me fez refletir: quantas mulheres negras precisam ouvi-la? Quantas precisam se reconhecer a partir da trajetória desta mulher combatente?

Dentro deste quadro excludente, vale salientar que em nada se difere a lógica da branquitude, com a lógica de quem “chega lá” e que acredita que suas selfies com legendas “nós por nós” ou  “aquilombamento” serão suficiente para fortalecimento da nossa comunidade. Não quero (nem posso) generalizar, porém os números são exatos: o poder intelectual ainda está longe do povo preto. E porquê? Quantos dos nossos repartem este privilégio? 

Isto  me soa como mais um braço desta estrutura racista que nos  faz reproduzir (conscientes ou não) as opressões da branquitude.

“Não serei livre enquanto uma mulher negra for prisioneira, mesmo que suas correntes sejam diferentes das minhas”.

A intelectualidade não vale um tostão se o povo preto e pobre continuar na cegueira epistemológica que apaga nossos heróis e as suas histórias.

Questionem os números, superem os gráficos, chorem pelos nossos mortos, mas, em primazia, lutem para que os vivos se reconheçam  como parte de uma comunidade ancestral.

Eu conheço Angela Davis há 2 anos, minha tia não conhece,  minha sobrinha não conhece, minha mãe morreu sem conhecer.

Lembrei de um trecho de uma carta aberta do movimento negro Unificado, em 7 de julho de 1978: 

“Hoje estamos na Rua numa campanha de denúncia, campanha contra a discriminação racial, contra opressão policial, contra o desemprego, o subemprego e a marginalização.Estamos na rua para denunciar as péssimas condições de vida da comunidade Negra. Este movimento deve ter como princípio básico o trabalho de denúncia permanente de todo ato de discriminação racial. E a constante organização da comunidade para enfrentar todo e qualquer tipo de racismo.É necessário buscar formas de organização, é preciso garantir que este movimento seja forte e de luta permanente da comunidade, onde todos participam de VERDADE,  definido caminhos do movimento.Por isso chamamos todos que engrossem este movimento contra a discriminação racial portanto por formas a criação de centros de luta do movimento Unificado contra a discriminação racial: nos bairros, nas Vilas, nas prisões, nos terreiros de Candomblé, nos terreiros de umbanda, nos locais de trabalho, nas escolas de sambas, nas igrejas, em todo lugar que o negro Vive.Centros de lutas que promovam um debate a informação e a conscientização e organização da comunidade Negra tornando-nos um povo forte ativo e Combatente levando negro a participar de os setores da sociedade brasileira”

Estou me sentindo como Mano Brow, em um comício partidário, que no meio de tanta festa e holofote cravou o dedo na ferida dizendo:

“Porque a comunicação é a alma e se não está conseguindo falar a língua do povo vai perder mesmo. Deixou de entender o povão, já era. Se não sabe, volta pra base e vai procurar saber.”

Podem vaiar… Mas sigo acreditando que Angela Davis, Malcon X, Beatriz Nascimento, Mandela, Maria Carolina de Jesus, Abdias Nascimento, Milton Santos (entre tantos outros) precisam estar onde  o povo preto está!

Eu não conhecia Angela  Davis até meus 38 anos. Quantos mais (de nós) ficarão sem conhecer, porque estão fora da bolha que reproduz a lógica academicista, elitista e excludente da branquitude?

Imagem de destaque: Bárbara Dias.

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