Nova montagem é um mergulho no autocuidado entre mulheres negras e comemora 20 anos do grupo.  

Serviço

O quê: Oxum

Quando: 11 a 21 de outubro; e 22 a 25 de novembro – de quinta a sábado, às 20h, e domingo, às 19h

Onde: Teatro Vila Velha

Ingresso: R$30 (inteira) e R$15 (meia) – venda no www.ingressorapido.com.br

Onde está o seu poder? Onde você seca? Conta um itan africano que através de um levante organizado e liderado por Oxum, às mulheres foram convocadas a secar o mundo, deixando-o infértil e desequilibrado. Para que todos compreendessem a importância das mulheres na concepção e organização do mundo. 

“A revolução social é feminina e chegou a hora da Mulher Negra falar de si, por si e sobre si. Oxum é um espetáculo de poderamento feminino negro, onde a mulher Negra contemporânea é convocada a buscar o seu poder”, declara Onisajé (Fernanda Júlia), diretora artística do Núcleo Afrobrasileiro de Teatro de Alagoinhas (NATA), que estreia no próximo dia 11 de outubro, no Teatro Vila Velha, a nova montagem OXUM, às 20h.

A homenagem a essa Yalodê – cargo dado a mais importante entre todas as mulheres da cidade – fica em cartaz até o dia 21 de outubro – de quinta-feira a sábado, às 20h, e domingo, 19h. Em novembro, o espetáculo que também tem direção do coreógrafo Zebrinha e dramaturgia de Daniel Arcades volta para mais quatro apresentações de 22 a 25, nos mesmos dias e horários. A montagem marca os 20 anos do NATA.

O espetáculo não é só uma biografia, mas uma investigação para expor características de Oxum que não são faladas. Atributos presentificados em personagens atuais: uma linguista, pagodeira, entre outras.

Na dramaturgia aparecem quatro qualidades de OXUM: Opará – Justiceira e guerreira; Okê ou Loke – caçadora; Abotô ou Yaboto – é a origem de Oxum, relacionada ao parto e ao nascimento e ao encantamento; e Ijimu, a feiticeira e senhora da fecundidade. 

Faz-se ainda referência as Yami, mãe ancestral, síntese e geratriz do poder feminino. Na poética do Nata, cada Oxum é interpretada pela atriz que tem o arquétipo correspondente a qualidade. Para escolher essas qualidades, a voz – o lugar de fala – das atrizes se tornou algo importante. Oxum é um mergulho no autocuidado entre mulheres negras.

Para Oxum, o NATA convidou mais três atrizes – Fernanda Silva, Ive Carvalho e Tatiana Dias -, que foram selecionadas através de audição. Fazem parte do elenco os integrantes do grupo: Fabíola Nansurê, Antônio Marcelo, Daniel Arcades, Thiago Romero – que assina a direção de arte – e Nando Zâmbia, que assina a iluminação e a coordenação técnica da peça. Para completar o quadro de interpretes, o grupo traz a cantora Joana Boccanera, que também assina a preparação vocal.

Zebrinha comenta que o espetáculo faz uma leitura moderna ao mostrar o entrelaçamento do mítico com o contemporâneo. “Ao ser iniciado passei por um upgrade. Hoje, como filho de Ogun, consigo enfrentar a batalha que é calçar um salto alto. É desta forma que encenamos essa yabá. Mostramos que essas mulheres, acima de tudo, carregam o poder e o comportamento da Oxum. Ou seja, do arquétipo que carregam. Elas levam a orixá em sua personalidade”.

Dramaturgia

Oxum – divindade ligada ao amor, ao encantamento, também é guerreira e é senhora da fecundidade – convoca as divindades femininas para darem um basta nos homens, que estavam concebendo o mundo sem elas e as colocando apenas em funções de execução.

“Os itans africanos nos mostram que nos períodos de matriarcado as energias eram equilibradas. Quando o patriarcado assume passa a alijar a mulher e em repúdio a este alijamento as mulheres secaram o mundo e este se tornou infértil. Oxum é um arquétipo dessa feminilidade revolucionária, de poder, de espaço de luta e ação”, explica Onisajé.

De acordo com Daniel Arcades, a dramaturgia em Oxum aprofunda o processo de pesquisa feito nos trabalhos anteriores do Nata. “Mantêm o lírico-narrativo aliado a presença das vozes políticas femininas. A grande novidade é esse lugar de fala. Durante muito tempo, o NATA foi majoritariamente masculino. Em Oxum, ao trazermos quatro atrizes, o grupo passa a ser mais feminino, interferindo na dramaturgia”.

O dramaturgo descreve que a dramaturgia aprofunda o intercâmbio entre tradição e contemporaneidade, trazendo um discurso que pensa no protagonismo feminino. “Pensamos em dois lugares: no lugar de fala e escuta. O discurso feminino precisa estar ao alcance de todos, mas em lugares diferentes. Esse assunto não é só de mulher e sim de todos, mas a fala precisa ser delas”.

Com isso, o espetáculo Oxum vem para fazer as seguintes perguntas: Onde está o poder da mulher negra? Ela tem consciência desse poder? Onde ela seca o mundo? A montagem é um levante contra o feminicídio negro e a invisibilização da mulher negra na contemporaneidade.

“Lugar de fala não é só o lugar que se está falando, mas a visibilização e legitimação desta fala, citando aqui a filósofa Djamila Ribeiro. É o que estamos propondo em Oxum. É a mulher falar de si, por si e sobre si. O homem é criado para valorizar-se desde sempre. E a mulher negra é o outro do outro. Vem depois da mulher branca”, descreve Onisajé, ao reforçar que a sociedade precisa visibilizar essas vozes femininas negras.

Mas, é impossível falar de feminino sem trazer uma proposição de uma nova masculinidade. “O espetáculo traz dois princípios fortes do texto: o lugar de fala e de escuta. O homem precisa escutar e estudar nossas questões. A dramaturgia é de Daniel, mas foi construída a partir das vozes das mulheres que fazem parte desse projeto – atrizes, produtoras e conselheiras”, explica.

A respeito desta construção dramatúrgica colaborativa, a atriz Ive Carvalho conta que ascenas do espetáculo, cada dúvida, incompreensão, sensação trazida pelas linhas desenhadas por Daniel Arcades foram discutidas em roda. “O texto de Oxum, cabe na boca de todas as mulheres. Contemporâneo, ele toca nas nossas dores e desejos, de forma extra cotidiano”, complementa a atriz, que agradece ao “NATA pela oportunidade de fazer parte do projeto”.

Além de Daniel Arcades na dramaturgia, Onisajé divide a encenação com o coreógrafo Zebrinha. “O homem tem que afirmar o feminismo e enxergar o papel dele nessa luta. O problema não é o homem e sim o machismo. Não queremos uma inversão de supremacia e sim a complementariedade, pois no matriarcado sabemos a importância da mulher e do homem juntos”, destaca.

Para Zebrinha, a encenação de Oxum apresenta a mulher em seu lugar de força e autonomia, “um lugar de onde as mulheres estão a traçar o próprio destino e a apontar caminhos para um mundo melhor”. “Ao dar centralidade ao feminino o espetáculo não exclui os homens, antes os coloca num lugar de escuta necessário ao amadurecimento da relação entre os gêneros, tendo o diálogo como caminho da compreensão e da colaboração mútua para o equilíbrio da vida”, reforça.

Musicalidade

Os espetáculos do NATA tem forte presença de atabaques e instrumentos percussivos. Em busca de aprofundar a poética musical do grupo foram convidados a cantora e preparadora vocal Joana Bocannera e o compositor, diretor musical e músico Maurício Lourenço, que criaram uma trilha com bases afrocentradas e afrofuturistas, promovendo a descolonização da voz e busca a ancestralidade negra.

“Trazemos a voz feminina como protagonista, como elemento simbólico e diretivo do silenciamento e invisibilidade provocados pelo racismo, misoginia e machismo. Em Oxum a musicalidade foi sendo construída no processo, com foco no protagonismo da voz, que aparece como discurso político”, destaca Boccanera.

Legado

O grupo, que pretende fazer um espetáculo para cada orixá, ao todo 17 peças, sabia que chegaria a Oxum. Mas, seguiriam a sequência do Siré, ou seja a ordem de reverência as divindades no Candomblé. Sendo assim, Oxossi seria o próximo. “Entretanto, descobrimos no Ifá que essa ordem das peças seria dada pelo último que havíamos homenageado. Nesse caso, Exu convocou Oxum. É interessante que, involuntariamente, no espetáculo Exu a cena mais famosa é a final, em que falamos da relação de amor entre Exu e Oxum”, conta Onisajé.

O espetáculo OXUM faz parte do projeto OROAFROBUMERANGUE, aprovado no Edital de Apoio a Grupos e Coletivos Culturais da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb). A realização é do Núcleo Afrobrasileiro de Teatro de Alagoinhas (NATA) e uma produção da Modupé Produções.