Escrita de autoria negra feminina em destaque – Geni Mariano Guimarães

Geni é uma escritora negra brasileira paulista que nasceu em 1947, filha de pais leitores, que exerceram grande influência sobre seu interesse em se tornar escritora. Começou a escrever versos aos oito anos de idade. Aos 32 anos de idade, lançou sua primeira obra poética “Terceiro Filho”. Na década de 1980, ela integrou o grupo Quilombhoje, coletivo voltado para a discussão sobre literatura de autoria negra. Ela publicou contos no volume 4 de “Cadernos Negros”, voltado para a publicação de autoras e autores negros que eram invisibilizados na cena literária e não tinham suas obras publicadas.

Essa publicação está atualmente no número 42 e é de extrema relevância ainda hoje. Muitos autores e autoras publicaram inicialmente em “Cadernos Negros” para depois publicar obras individuais, como é o caso de Conceição Evaristo, Cristiane Sobral, Elizandra Souza, Esmeralda Ribeiro, dentre outros/as. 

É importante destacar que mesmo atualmente essa publicação é autofinanciada e não tem patrocínio de editoras, mesmo ao longo de seus 42 anos de resistência ao racismo estrutural, que ainda faz com que obras de autoria negra encontrem dificuldade para conquistar legitimidade no meio literário e sejam adotadas em materiais didáticos, além de não serem facilmente encontradas em grandes livrarias, por exemplo.

Também é válido ressaltar que mesmo durante todos esses anos de sua publicação inicial, Geni Guimarães ainda é uma escritora pouco conhecida. Neste ano, ela foi a homenageada da “Balada Literária”, criada e realizada pelo escritor Marcelino Freire e que está atualmente em sua 15ª edição. Já estiveram presentes na balada grandes nomes como Conceição Evaristo, Antonio Candido, Mia Couto, Ney Matogrosso, dentre outros/as.

Em 1981, Geni publicou sua segunda obra poética “Da flor o afeto, da pedra o protesto” e, em 1988, centenário da Abolição da Escravatura, lançou o livro de contos “Leite do Peito”. Narrado em primeira pessoa, os contos falam sobre a vida de Geni na colônia onde morava com sua família. Os contos são recheados de memórias e apresentam a vida escritora e de sua família, retratando episódios marcantes ao longo de sua vida. Ao questionar seu pai analfabeto sobre as possibilidades para as mulheres além do serviço de casa, ele lhe diz que ela pode ser professora ou empregada. Ela decide então tornar-se professora para mudar a trajetória de sua família.

No primeiro conto, que é o nome do título do livro, a personagem relata um momento muito difícil, que foi o processo de desmame. Sua irmã lhe disse que a mamãe havia encomendado um bebê e que o leite do peito seria reservado para ele. Ela passa a sentir raiva, mas ao ver a barriga da mãe crescendo fica com medo de algo de ruim lhe acontecer e jura para si mesma tratar bem o bebê, até mesmo chamando-o de menino Jesus. No entanto, ao ver que o irmão é negro ela respira aliviada por se ver desobrigada de cumprir a promessa, afinal, segundo o imaginário coletivo, Jesus só poderia ser branco.

Ao longo dos contos, Geni Guimarães narra também episódios de racismo que a marcaram profundamente durante o período escolar. Um desses casos acontece na aula em que ela aprende que a princesa Isabel era muito boa e libertou os escravos. Ela até tinha escrito alguns versos homenageando-a (“Os homes era teimosos/ E os donos deles era bravo/ Por isso a linda Isabel/ Soltou tudo os escravo./ Foi boa para os escravos/ E parecia um mel/ Acho que é irmã de Deus/ Viva a princesa Isabel”), mas desistiu de recitá-los. Ela era a única aluna negra da turma e se sentiu muito humilhada com a descrição que foi feita dos escravizados durante a aula. Ela descreve a pena que observou nos olhos dos colegas, que se dirigiam apenas a ela e à professora durante a aula. Foi um momento tão constrangedor que alguns colegas até mesmo lhe ofereceram o próprio lanche na hora do recreio.

É difícil falar da escrita de Geni sem remeter ao conceito de Escre(vivência), cunhado por Conceição Evaristo. Esse termo refere-se a uma escrita que é marcada pela memória e que traz em si uma coletividade de vozes ancestrais. Ao falar de si, muitas escritoras negras recolhem outras vozes e resgatam não apenas a sua voz, mas a de muitas mulheres negras que foram e ainda são silenciadas. Evaristo afirma que a escrita de mulheres negras não pode servir para ninar os da casa grande, mas para incomodá-los em seus sonos injustos. E é justamente essa a impressão que a leitura dos textos em verso e prosa de Geni nos dá.

Em 1989, Geni publica seu primeiro romance “A cor da Ternura”, pelo qual recebeu os prêmios Jabuti e Adolfo Aisen. Na década de 1990, Geni lançou mais um livro de poemas (Balé das emoções) e também livros infantis (A dona das folhas, O rádio de Gabriel, Aquilo que a mãe não quer). Em 2019, ela publicou a obra “Penâlti” também destinada ao público infanto-juvenil. Ela também participou de diversas antologias, além de ter seu romance premiado traduzido para o inglês.

Mesmo ao longo de suas obras em verso Geni assume compromisso com uma escrita que exalta a negritude, denuncia o racismo e ressalta a necessidade de extirpar esse mal que gera tantas dores e mortes da sociedade brasileira. No poema “Integridade”, isso fica nítido:

Ser negra

Na integridade

Calma e morna dos dias

Ser negra

De carapinhas,

De dorso brilhante

De pés soltos nos caminhos

Ser negra

De negras mãos

De negras mamas,

De negra alma.

Ser negra,

Nos traços,

Nos passos,

Na sensibilidade negra.

Ser negra,

Do verso e reverso,

De choro e riso,

De verdades e mentiras,

Como todos os seres que habitam a terra.

Negra

Puro afro sangue negro

Saindo aos jorros,

Por todos os poros.

Geni é uma autora que merece um lugar de destaque na cena literária e é uma das escritoras, tal como Carolina Maria de Jesus, Maria Firmina dos Reis, Conceição Evaristo, Miriam Alves, Esmeralda Ribeiro e tantas outras que abriram caminhos para uma produção literária contemporânea de autoria negra feminina. 

Bibliografia

GUIMARÃES, GENI. Leite do peito. São Paulo: Fundação Nestlé de Cultura, 1988. 2 ed. 1989 (contos).

CADERNOS NEGROS. Os melhores poemas. São Paulo: Quilombhoje, 1998.

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Dessas narrativas, permanecem as formas de poder e como elas se instalam em todas as relações humanas. Achei muito semelhante à perda da identidade do negro no Brasil, que teve por consequências a invisibilidade da mulher negra e um racismo sempre latente, nunca explícito. Ao mesmo tempo, há resistência, quando os personagens buscam o conhecimento ancestral das tribos para resolver seus problemas, e uma sensação no leitor de que existe algo errado a todo o tempo, para além da guerra e da violência. Se você é uma mulher negra, talvez seja possível se encontrar em cada uma das personagens e, ao mesmo tempo, em nenhuma.