Lélia Gonzalez: em busca de nosso fortalecimento e nossa resistência

Lélia foi uma brilhante mulher negra intelectual com uma extensa trajetória de militância e luta contra o machismo e o racismo. Foi participante ativa do movimento negro unificado (MNU) e trouxe para esse movimento questões feministas, apontando as limitações das pautas, que tratavam apenas de questões relacionadas à violência racial, que atingia em especial homens negros, e não discutia questões que eram importantes para as mulheres negras como aborto, violência contra a mulher, educação para o trabalho, entre outros.

Costuma-se dizer que Lélia feminizou o MNU e enegreceu o movimento feminista. Ao observar a organização das pautas do MNU e das figuras importantes dentro do movimento, Lélia percebeu que as mulheres eram relegadas a um papel subalterno, e não tinham um espaço em que pudessem exercer de fato sua voz. Então ela apontou essas questões e a necessidade de que as mulheres negras também tivessem um papel ativo para além da organização de questões burocráticas.

No curta “Em busca de Lélia Gonzalez”, nos deparamos com trechos de entrevistas da professora formada em Filosofia e História. Lélia é uma figura extremamente relevante atualmente porque nos inspira a dar continuidade a sua luta. Ela diz que mulher negra deve ter nome e sobrenome, caso contrário o racismo lhe tira sua identidade. Em busca de suas raízes ancestrais, Lélia voltou-se para religiões de matriz africana, como o candomblé.

A intelectual discute a importância de lutarmos para ter o nosso lugar, construir esse lugar, mostrando que podemos ocupar o lugar que quisermos e não o lugar ao qual a sociedade tenta nos aprisionar, limitando nossas possibilidades de expressão e atuação devido à cor de nossa pele.

Em “Em busca de Lélia”, podemos perceber sua trajetória de luta e resistência e afirmação da identidade negra. Lélia questionava constantemente a reprodução de estereótipos, de discursos que historicamente inferiorizam a mulher negra, reduzindo-a a um corpo sexualizado.

Lélia foi uma das fundadora do Nzinga, coletivo de Mulheres Negras, fazendo recorte de raça, classe e gênero, levando em consideração a especificidade das mulheres negras. Ela também falava constantemente sobre a importância de não silenciarmos diante do racismo, resgatando a imagem de figuras que importantes na resistência contra a escravidão. Ela também destacava a importância da solidariedade e da organização, nos mostrando a importância de nos apoiarmos mutuamente na luta contra a opressão do machismo e do racismo. Lélia enfatizava a necessidade da educação de qualidade como instrumento para nossa luta contra a opressão.

Lélia destaca como o racismo está presente nos meios de comunicação e questiona a falta de representatividade que afeta a construção da identidade, especialmente de crianças negras. Sua atuação tanto no meio acadêmico, nos movimentos de mulheres e na política nos inspiram a dar continuidade a seus passos, dando continuidade à luta contra o racismo institucional e o machismo que tentam nos subjugar e enfraquecer nossa resistência.

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O nome disso é transfobia. Chega.

Precisamos entender que o combate à transfobia também é uma luta por direitos da população negra. O Dia da Memória Trans*, comemorado em 20 de novembro, tem em sua origem a estória de uma mulher negra. O assassino de Rita Hester argumentou que foi movido por um medo irrefreável de pessoas trans*, responsável por uma insanidade temporária. Recentemente, a vereadora negra trans* Madalena foi retratada como um chimpanzé. Esse é apenas um caso entre milhares. Apesar de a associação entre racismo e transfobia ser comprovadamente letal, ela não é de todo evidente e ainda precisamos caminhar no entendimento de como eles se retroalimentam e se intensificam, criando obstáculos praticamente