Marcha das Mulheres Negras: contra o racismo e pelo bem viver!

A admissão do caráter estruturante do racismo no tecido social nos leva a fazer uma avaliação profunda dos modelos de desenvolvimento em voga e a pensar em novos pactos sociais, em perspectivas que possam fundar uma outra dinâmica social. Nós, mulheres negras, estamos profundamente empenhadas em contribuir com essa avaliação.

Mais uma vez nós, mulheres negras, iremos à rua. Mais uma vez mostraremos nossa cara para reafirmarmos a nossa humanidade, sistematicamente subtraída por força do racismo. É de nossa natureza sairmos em defesa dos nossos direitos, da nossa família e da nossa comunidade. Temos motivos suficientes para reatualizar as nossas propostas em torno do projeto de país que desenhamos e projetar novas formas de inclusão numa sociedade em que ainda vivemos nas franjas.

A despeito das inegáveis conquistas alcançadas nas últimas décadas, os indicadores socioeconômicos não deixam margem a dúvida: a discriminação racial e de gênero são eixos extremos de exclusão, aprisionando mulheres e homens negros nos extratos mais baixos da pirâmide social, por vezes com mobilidade ainda insuficiente para diminuir o fosso entre brancos e negros. Os dados oficiais são instrutivos, pois reafirmam o que, de resto, constitui realidade incontornável: ainda que a população negra tenha sido a grande beneficiada pelas políticas inclusivas dos últimos anos, ela permanece como a principal vítima das desigualdades, fruto da discriminação e do racismo. Tal situação reclama desenho e execução de políticas capazes de não apenas melhorar as condições de vida de homens e mulheres negras, mas diminuir e eliminar a distância, em muitos casos, que os separa da população branca.

É preciso, portanto, insistirmos na denúncia tenaz do racismo, operação pela qual se subalterniza e, portanto, se cria cidadãos de segunda classe, se tanto, em uma sociedade hierarquizada racialmente. A admissão do caráter estruturante do racismo no tecido social nos leva a fazer uma avaliação profunda dos modelos de desenvolvimento em voga e a pensar em novos pactos sociais, em perspectivas que possam fundar uma outra dinâmica social. Nós, mulheres negras, estamos profundamente empenhadas em contribuir com essa avaliação.

O bem viver como categoria política

A Marcha das Mulheres Negras 2015 ordena-se em torno do enunciado “contra o racismo e pelo bem viver”. A conjugação desses dois termos não se constitui apenas como estratégia retórica, mas procura incidir no projeto de nação levado a cabo desde tempos remotos até às primeiras décadas do século XXI. Nesse projeto, como se vê, a população negra sempre figurou como extrato rebaixado que procurou, sem o consórcio de outros sujeitos, a plena participação na sociedade brasileira no pós-escravidão (estávamos e continuamos, em muitos expedientes, por nossa própria conta). As experiências e os exemplos de nossas formas de resistência são múltiplos e atestam inequivocamente o lugar marginal a que fomos inseridas. Desse lugar, reivindicamos a vida plena, reivindicamos por saúde, educação, arte, lazer, moradia, em lutas infatigáveis. Das práticas dos terreiros, dos laços comunitários entre famílias negras, das manifestações culturais e religiosas, dos investimentos em educação – ações revestidas de caráter político – extrai-se um expressivo repertório de estratégias para o governo de si e dos pares.

São vários os focos de onde o termo emerge. Herdando os princípios de vida das populações indígenas, as constituições da Bolívia e do Equador integram o Bem Viver como nexo prioritário para a gestão do social (o Bem Viver ou sumak kawsay, em quéchua, e Viver Bem ou suma qamaña, em aimará, e sumak kawsay, em quéchua). A Carta desses dois países, parte do entendimento de que povos historicamente discriminados possuem saberes e conhecimentos que podem, legitimamente, ser partilhados para a construção de um novo mundo, para a instauração de outra matriz civilizatória.

A filosofia do Bem Viver ganhou densidade, nos últimos anos, como uma plataforma que interroga os limites do desenvolvimento no mundo: “Neste contexto, o Bem Viver emerge das sociedades historicamente marginalizadas e se projeta como plataforma para discutir alternativas conceituais, assim como respostas concretas urgentes para os problemas que o desenvolvimentismo atual não consegue resolver. É tanto uma crítica ao desenvolvimentismo, como um ensaio de alternativas. É um questionamento que abandona a ideia convencional de desenvolvimento e não procura reformá-la. Pelo contrário, quer transcendê-la”.

Quando deslocamos os princípios do Bem Viver para a sociedade brasileira, percebemos o quanto tais questionamentos nos concernem. Negros e indígenas devem postular lugar ao centro como protagonistas na construção do país e pôr em questionamento princípios e escolhas políticas que acabam por nos excluir do projeto de Nação. É preciso questionar o ideário de desenvolvimento que nos move e propor outras perspectivas e angulações. Necessário se faz recuperar os saberes e fazeres de mulheres negras e concebê-los como ação transformadora com potência para lograrmos as conquistas ainda necessárias para o alcance do pleno desenvolvimento humano.

O desenho e execução de políticas públicas focalistas, o reconhecimento das desigualdades com fundamento racial mostram-se insuficientes se não tomarmos como prerrogativa o reconhecimento das mulheres e homens negros como sujeitos de direitos e, portanto, como humanos. Tal reconhecimento nos reenvia para as discussões em torno da implosão do imaginário racista que, antecipadamente, nos destitui; do papel ativo das mulheres negras no dinamismo da economia brasileira; das buscas criativas e alternativas para sobrevivência material e simbólica; do rebaixamento intelectual a que fomos submetidas; da responsabilidade de cuidar das nossas famílias e das famílias dos outros, na transmutação do trabalho escravo da casa grande para o trabalho doméstico, que só agora porta alguns traços de dignidade com a PEC das Domésticas….

Marcharemos em 2015 nos apropriando do Bem Viver como um valor inegociável. Como dissemos, reconhecemos as conquistas obtidas até o momento, por outro lado, reconhecemos, com tanto mais razão, que é a persistência do racismo a responsável por manter distâncias socioeconômicas que mantêm metade da população vulnerável à própria vida. Repisemos os dados sobre a morte da juventude negra, que exorbitam mais e mais.

Mais do que simples reedição de questões reiteradas, a Marcha das Mulheres Negras será um marco para reinaugurarmos, à luz do repertório já acumulado pelas nossas ancestrais, um outro modo de vida, onde a dignidade, a soberania dos direitos, condições materiais aceitáveis, a educação, o lazer, e o bem-estar configurem padrões de existência para aquelas e aqueles vêm experimentando, mesmo com o avanço das políticas públicas, o direito à vida de modo deficitário e incompleto. Reajamos ao racismo e reivindiquemos o Bem Viver!

Post originalmente publicado em Marcha das Mulhesres Negras 2015.

Imagem de destaque – Comunicadoras baianas expressam apoio para a Marcha
Foto: Isabel Clavelin.

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Foi nesse contexto de combate às discriminações de raça e de gênero e à dupla perversidade dessas discriminações quando atuam em um só corpo, o corpo negro feminino, que levou o Grupo de Pesquisas Culturais a organizar em novembro de 2012 o piloto da Semana de Reflexões sobre Negritude, Gênero e Raça do Instituto Federal de Brasília, que se repetiu em 2013 em uma edição significativamente ampliada.