Mulheres Lésbicas, desafiando a lógica

Mulheres Lésbicas, desafiando a lógica.

Só é possível amar outra mulher aquela que minimamente é capaz de conceber-se digna de amor. Ao contrário das ideias bestializadas pelo ódio e pela ideia de pecado, amar outra mulher é olhar para um corpo semelhante, par em suas elevações, e rejeitar a ideia de que o patriacardo é a única lógica possível.

Ao contrário, amar afetiva e sexualmente outra mulher questiona as regras que dispõe e adéqua os corpos femininos [ou das mulheres] para prazer exclusivo dos homens. Enquanto afirmamos o amor por uma igual, deixamos de lado o status de fraqueza e de incompletude, uma vez que rejeitamos a necessidade da tutela masculina para seguir nossos caminhos, nos abdicamos do protecionismo que alerta para a necessidade do homem da casa, assumindo nós mesmas o lugar de força regente do corpo e do espaço habitado.

Amar outra mulher quebra a lógica de que somo naturalmente nascidas para servir a um homem, ama-lo e dar-se ao prazer da carne fraca que alega possuir, mesmo em suas fúrias. É romper com a ideia de que nosso desejo não existe ou não importa. Amar outra mulher é se colocar como centro de um cosmo universo perseguido, estuprado, açoitado e incendiado ao longo da história.

A ideia de natureza e princípios biológicos já não são capazes de explicar em totalidade porque somos quem somos há muito tempo e, mesmo por isso, não vou me demorar nessa questão, o fato é que a lesbofobia transforma heterossexuais em uma norma como se nenhuma outra forma de existir fosse possível e natural ao humano, sobretudo a nós mulheres, sobretudo a nós, mulheres negras. Amando outra rompemos com verdades cristalizadas, ideias tidas como imutáveis e sobre as quais não sabemos ao certo como ou quem as declarou verdadeiras ou proveitosas á humanidade.

Fomos ensinadas a repetir verdades sobre nós mesmas, nosso sangue e nossos pelos, ao ponto de não nos lembrarmos se algum dia nossos corpos não foram um problema em nossas vidas. Ser mulher implica ser ideal, sedutora, um barriga desejante de gestação e pré disposição aos serviços domésticos? Eu, honestamente, duvido muito disso.

Desde que nascemos nos dão panelinhas cor de rosa e a primeira coisa que nos dizem quando pela primeira vez não queimamos o arroz é que já podemos nos casar, como se arroz fosse amor em vez de comida. Nos ensinam a ser doces e comedidas e depois nos acusam de fracas e incapazes. Ao  amar outra mulher desafiamos a naturalidade da heterossexualidade, desafiamos a “mocilidade” que nos é imposta por sermos mulheres assim como nos contrapomos a ideia de que somos necessariamente adversárias umas das outras.

Uma infinidade de mitos foram e são inventados sobre as mulheres lésbicas, assumido o posto de verdades inatas, abandonadas pelo deus hétero e azeitada pelo que costumam chamar de promiscuidade. Ao contrário, ser uma mulher lésbica (e negra) é assumir um caminho de volta para si e para as próprias necessidades, sejam elas emocionais, orgânicas ou políticas. A ideia de que somos seres nascidos para desejar e servir homens tem limitado nossas relações e nossas possibilidades de afeto. Questionemos as verdades que estão postas e nos voltaremos para nossas próprias verdades, talvez assim, consigamos progredir em nossa libertação e tenhamos nossa existência reconhecida e valorizada.

 

 

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