“Nós nos levantamos”

A cada julho, a cada julho das Pretas, é notável o aumento do número e da visibilidade das narrativas das mulheres negras na internet e em vários lugares. Ocupamos as redes para comemorar nossa existência. Ocupamos a cidade porque sem nós lugar algum faz sentido, não há democracia sem nós, não há futuro melhor sem nós. Sempre soubemos disso, mas agora, muito mais gente sabe disso. A gente já aprendeu e há uma quantidade enorme de textos e estudos que falam sobre essa questão, racismo é estruturado em cima de relações de poder. Pessoas que desejam manter seus privilégios nos atacam com violência. Destacaremos abaixo duas violências, crimes de ódio (queimar o monumento a Borba Gato não é crime de ódio; é reparação), desferidos contra expressões artísticas que destacam mulheres negras de grande representatividade. Esse texto não é para chorar de indignação. Escrevemos para dizer que “Nós nos levantamos”

A frase original é no singular e está no poema de Maya Angelou (Still I rise), mas nitidamente, ela fala de um sentimento coletivo. O recado é que para além de todas as violências que somos alvo, nós nos levantamos. Dá um gosto, um sentimento de capacidade, um gostinho de saber algo raro: conhecemos os caminhos da sobrevivência. 

Nós nos levantamos

A homenagem feita a Marielle Franco no bairro de Pinheiros, em São Paulo (SP), foi atingida no dia 30 de julho, mas não foi a primeira vez. Já se tratava de uma reconstrução feita a partir da agressão sofrida em 2018. 

Nós nos levantamos

Acordamos no dia 20 de julho de 2021 e vimos que o painel “Nossos passos vêm de longe” feito pela Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJR, @idmjracial) em homenagem às mulheres negras da Baixada Fluminense, RJ, foi violentado. Trata-se de um painel com os rostos de muitas referências do movimento de mulheres negras. Faces que foram pintadas de branco. 

É um ataque de ódio à coletividade de mulheres negras, nossa força, nossa capacidade, nossa luta, nossa excelência, nossa visibilidade. Um ataque feito para ficarmos tristes, cabisbaixas, amuadas, amedrontadas. O poema de Maya Angelou gritou na nossa cabeça.

Nós nos levantamos 

Nós nos levantamos porque sim, é uma certeza, de que temos tesouros ancestrais em nossos quintais, portanto,  

“Você pode me acertar com suas palavras

Você pode me cortar com suas mentiras

Você pode me matar com seu ódio

Tal como a vida, a gente se levanta.” 

Nós nos levantamos

Porque optamos por deixar pra trás o terror e o medo da escravização.

Trazemos um desejo consciente pela esperança e o sonho.

E lá vamos nós!

O mural foi refeito.

Reinaugurado no dia 25 de julho.

Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.

Nós nos levantamos

Veja a autora declamando seu poema em

#mulheresnegras

#racismoecrime #racistasnaopassarao

#resistencia

#julhodaspretas

You May Also Like

As feministas negras e as de cor diferente

Nossa negritude não pode ser escondida, e as feministas pretas não podem ser apenas feministas, um movimento só de mulheres brancas não representa toda a nossa necessidade, ao decorrer dessa nossa luta contra o poder que vem do pênis temos que parar e discutir o que é ou não racismo com feministas de outra cor ,e isso é retrocesso, enquanto fazemos isso os caras ensinam as meninas que umas são pra casar e outras para foder , e lá estamos nós no meio do caminho explicando as nossa parceira de luta que “ TUAS NEGA” é machismo e racismo junto.
Leia mais

Eu sou ela, ela sou eu

Eu escrevo aqui do alto dos meus 27 anos, jornalista com uma graduação concluída com louvor, endereço fixo, telefone conhecido e público, registro profissional regular e algumas dúzias de seguidores pelas redes sociais. Só que o que me faz escrever não são meus quatro anos de estudo em comunicação social, mas os meus 27 anos de vida na minha pele de mulher preta e periférica, moradora de uma grande, cruel e desigual metrópole brasileira, país racista e machista por seus anos de história desigual.