O que há de errado comigo? A formação da identidade da criança negra nas escolas

Por que você não deixou o seu cabelo daquele jeito (crespo)? Perguntei.

Eu não gosto. Assim é mais bonito. Na escola, todo mundo usa assim. (Garota, 12 anos, periferia de Campinas).

É lindo, sim. Dá para usar de várias formas. Por que você não tenta?

Ah, não! É feio. A galera da sala fica dando risada. Inventando apelidos. (Garota, periferia de Campinas, 12 anos).

A construção da identidade de um indivíduo não acontece por uma única via. O processo de formação da identidade é, sobretudo, uma troca de informações estabelecida com o meio.  Dito isso, os indivíduos estão em constante adaptação aos padrões pré-estabelecidos pela sociedade. Segundo Vygotsky (1988), tanto as atitudes, os comportamentos quanto as preferências, os padrões estéticos estão empregnados pelos discursos do outro. Por mais individual que o ser humano tente ser, a sua identidade é construída pela troca com o meio.

No Brasil, pode-se perceber que, muitas vezes, os individuos buscam incorporar caracterísitcas eurocêntricas que podem ser inatinginveis para grande parte da população. Dessa forma, pode-se notar que o processo de construção da identidade da criança negra pode se tornar uma frustação: um processo de negação de sua raça, de seus traços, de sua textura de cabelo etc.

Nesse sentido, deve-se pensar no papel da escola na construção da identidade da criança negra: esse processo realmente acontece nas instituições? A escola, sem dúvidas, é um espaço sócio-cultural que deve aceitar e, sobretudo, discutir amplamente a pluraridade cultural, até mesmo como uma maneira de descontruir preconceitos. O que muitas vezes presencia-se nas escolas são atitudes de descaso e silenciamento por parte da gestão escolar. Observa-se que os gestores de instituições públicas e privadas não se posicionam: é mais fácil esconder, do que problematizar. Esta realidade vem promovendo não só a exclusão socio-cultural de muitas crianças e jovens, mas também um sentimento de inferiozação racial.

No dia 09 de janeiro de 2003, foi sancionada a Lei 10.639/03 que estabelece Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-raciais e para o ensino da História e Cultura Afro-brasileira e Africana.  Mununga (2005), afirma que o sistema de ensino brasileiro não prioriza o conhecimento da história do Negro, trazendo apenas versões unilaterais; quando abordada, acontece sob o ponto de vista dos colonizadores e das classes econômicas privilegiadas.  Apesar da obrigatoriedade do ensino dessa tema, evidencia-se que as questões etico-raciais são pouco pautadas. Leis não agem sozinhas: o principal agente dessa mudança é o educador.

Em relação à formação dos professores, percebe-se que as universidades que deveriam ser abertas à discussão das diversidades cultural, muitas vezes, são preconceituosas e racistas, desvalorizando a cultura afro-brasileira. Sem um sistema educacional que ilustre o negro e sua história e professores preparados para isso, como convencer aquela garota que seus traços, seu cabelo, seu tom de pele não são feios? Como convencer todas as crianças e os jovens que passam ou passaram por isso?

Torna-se uma tarefa árdua quando os materiais e métodos pedagógicos não contribuem para tanto. Na literatura, onde está a princesa negra? Os estudiosos negros influentes? Os poetas e escritores negros? É evidente que a criança negra tem sua identidade pouco promovida. A reversão desse quadro não é instantânea, e só acontecerá quando, além da comunidade escolar, o Estado reconhecer que, de fato, o ambiente escolar é ainda agente opressor para muitas identidades.

 

Imagem destacada: Manu, Preta & Burguesa

Referências bibliográficas:

DIRETRIZES curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o

ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana. Brasília, DF: MEC, 2004.

MUNANGA, Kabengele. Algumas considerações sobre a Diversidade e a Identidade

Negra no Brasil. In: MINISTÉRIO, da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação

Média e Tecnológica. Diversidade na Educação: reflexões e experiências. Brasília:

Secretaria de Educação Média e Tecnológica, 2003.

VYGOTSKY, L.S. Pensamento e linguagem. Rio de Janeiro: Martins Fontes,

1988.

 

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Mas eu nasci machista? Não. Ninguém nasce machista. Antes eu era até bem crítica. Eu posso ir até onde minha memória consegue se lembrar de quando eu era criança, e dizer que nem sempre minha visão foi assim esquisita. Ela foi moldada por uma concepção machista não só de mulher, mas de ser humano mesmo. Eu sentia calafrios quando alguém, mecânica e originalmente, completava com um infame “cravo e canela?” quando eu respondia que meu nome era Gabriela. A parte de mim que se encantava momentaneamente por ser comparada a uma personagem de novela sorria e dizia, meio sem graça, “sim!”.