Problematizando a desigualdade social e sua influência na Educação a partir do samba-enredo 2020 da G.R.E.S. Estação Primeira da Mangueira: “A verdade vos fará livre”

1. INTRODUÇÃO

            Este texto é continuação dos apontamentos já feitos por mim anteriormente no Blogueiras Negras. Isto posto, entender como a desigualdade é histórica e estrutural no Brasil é entender como se “desenrola” a vida média de um morador de comunidade.

            Quando compreendemos o quão desigual e historicamente estruturante é a vida de quem sobrevive no mundo capitalista, vivendo nas favelas, – com poucos recursos e sem condições mínimas de subsistência –, logo somos capazes de compreender o porquê a escola, nos moldes atuais, se torna mais um lugar de exclusão e de perpetuação da desigualdade social estruturante.

            Seguiremos, portanto, a seguinte metodologia: apresentaremos o samba-enredo; explicaremos rapidamente o samba, que é uma releitura da biografia do Jesus histórico e não do religioso, caso ele nascesse nos dias atuais no Morro Chapéu Mangueira; em seguida, analisaremos a letra, identificando nesta os elementos sociais, políticos e históricos que caracterizam a desigualdade; por fim, teceremos breves comentários acerca de como esse “Jesus da Gente”, que poderia ser qualquer criança moradora de comunidade no Rio de Janeiro, vivenciaria a experiência escolar dentro de quadro social assinalado.

2. INFORMAÇÕES TÉCNICAS

            Samba-enredo: “A verdade vos fará livre”.

            Autores do samba: Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo

            Carnavalesco: Leandro Vieira

            Formação Acadêmica do carnavalesco: Bacharel em Belas Artes pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

            3. SAMBA-ENREDO

            “A Verdade vos fará livre”

            Eu sou a Estação Primeira de Nazaré

            Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher

            Moleque pelintra no Buraco Quente

            Meu nome é Jesus da Gente

            Nasci de peito aberto, de punho cerrado

            Meu pai carpinteiro desempregado

            Minha mãe é Maria das Dores Brasil

            Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira

            Me encontro no amor que não encontra fronteira

            Procura por mim nas fileiras contra a opressão

            E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão

            Eu tô que tô dependurado

            Em cordéis e corcovados

            Mas será que todo o povo entendeu o meu recado?

            Porque de novo cravejaram o meu corpo

            Os profetas da intolerância

            Sem saber que a esperança

            Brilha mais na escuridão

            Favela, pega a visão

            Não tem futuro sem partilha

            Nem messias de arma na mão

            Favela, pega a visão

            Eu faço fé na minha gente

            Que é semente do seu chão

            Do céu deu pra ouvir

            O desabafo sincopado da cidade

            Quarei tambor, da cruz fiz esplendor

            E ressurgi no cordão da liberdade

            Mangueira

            Samba, teu samba é uma reza

            Pela força que ele tem

            Mangueira

            Vão te inventar mil pecados

            Mas eu estou do seu lado

            E do lado do samba também

            4. JUSTIFICATIVA DA LETRA DO SAMBA-ENREDO

            A letra apresenta uma metáfora do “Jesus da Gente”, que poderia bem ser qualquer criança pobre nascida em comunidade, narrando – em primeira pessoa seu nascimento, morte e ressurreição no Morro da Mangueira.

            Jesus Cristo que, geralmente, é representado nas Artes como homem branco e europeu; no enredo da Mangueira, surge artisticamente revestido de outra possibilidade estética, que subverte a lógica de uma agenda ocidentalista e eurocêntrica da representação de Cristo.

            Tanto o carnavalesco quanto os autores do samba apropriaram-se do tema mais reproduzido nas Artes (que é a biografia do Messias) como pretexto para falar de questões sociais, políticas e históricas, caso o Jesus Cristo – judeu e histórico – apresentado na Bíblia (e não o Jesus religioso) nascesse nos dias de hoje e fosse negro, pobre e morador do Morro Chapéu Mangueira.

            Assim, a letra do samba é muito pertinente para falar de desigualdade social, uma vez que é um documento–monumento que serve de supedâneo para uma leitura indiciária a fim de avaliarmos como seria o provável desempenho/vivência escolar do Jesus da gente se matriculado em uma escola da rede pública de ensino do Município do Rio de Janeiro.

            5. ANÁLISE DA LETRA

            5.1. “A Verdade vos fará livre”: alusão às palavras de Jesus Cristo registradas nos Evangelhos: “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. João 8, versículo 32.

            5.2. Eu sou a Estação Primeira de Nazaré / Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher: Aqui já inicia abordagem da questão social, ao apresentar Jesus como negro, com sangue indígena e corpo de mulher, vez que estas classes sociais são historicamente discriminadas no país.           O negro, por conta do peso da escravidão; o índio, por seu extermínio no processo de colonização do território brasileiro e a mulher, em razão de o Brasil figurar no ranking mundial de feminicídio.

            5.3. Moleque pelintra no Buraco Quente / Meu nome é Jesus da Gente / Nasci de peito aberto, de punho cerrado/ Meu pai carpinteiro desempregado / Minha mãe é Maria das Dores Brasil: Moleque pelintra. Aqui, pelintra significa pobre, humilde, maltrapilho. Ou seja, o menino Jesus da Gente nasceu negro, pobre e no Buraco Quente, região central do Morro. Jesus da Gente nasceu “pronto” para viver na sociedade capitalista, em postura de luta, aguerrido (“nasci de peito aberto e de punho cerrado=fechado).

            Além disso, sua filiação indica a condição social de seus pais. O pai é carpinteiro desempregado, provavelmente microempreendedor e motorista de aplicativos; sua mãe é intitulada ”Maria das Dores Brasil”: uma clara alusão metafórica às mulheres batalhadoras deste país e moradoras do Morro, já que Maria das Dores é um nome bem popular e que remete ao sofrimento vicário da mãe de Cristo.

5.4. Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira/ Me encontro no amor que não encontra fronteira/Procura por mim nas fileiras contra a opressão/ E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão: Nesse trecho, já entramos na vida cotidiana de Jesus. Subir e descer ladeiras… O morro da Mangueira é bem íngreme. Jesus se cansa para descer e subir aquele local.    Recentemente, no CIEP onde estagio, um aluno de sete anos do segundo ano do ensino fundamental apontou para o alto da comunidade que dá de frente para o CIEP e disse: “Tia, eu moro lá no alto. Cansa muito subir e descer a pé. Por isso sou o último a ir embora. Minha mãe espera a hora do almoço no trabalho pra vir me buscar de moto”.

            Daí, esse é o Jesus da Gente que sobe e desce ladeiras… Que se identifica com o amor que não considera sexo, orientação sexual, grau de instrução, religião, etnia ou compleição física; exatamente como Jesus ensinou nos Evangelhos.

            Para encontrá-lo, basta buscar Jesus da Gente ao lado de quem luta contra injustiças praticadas em face dos desvalidos. Para identificá-lo, basta olhar o sorriso da porta-bandeira mangueirense quando defende muito mais que sua escola de samba, pois defende o patrimônio cultural imaterial que se corporifica no legado histórico da Estação Primeira da Mangueira.

            5.5. Eu tô que tô dependurado/ Em cordéis e corcovados/ Mas será que todo o povo entendeu o meu recado/ Porque de novo cravejaram o meu corpo: Esta parte, bastante emblemática da letra, fala da morte de Cristo. O Jesus histórico tem sua figura associada à imagem de um homem pendurado na cruz. Seja em livros, pinturas, esculturas, cordéis e corcovados…

            No entanto, Jesus da Gente indaga se as pessoas que têm apreço por sua representação imagética, de fato, entendem o que significa Cristo ali, pendurado em um madeiro. Morte de cruz, esta que era a pena mais cruel do Direito Romano, caso o réu em um processo penal fosse julgado condenado, qual seja, a de supliciar o corpo humano em uma cruz.

            Jesus da Gente questiona se seus admiradores entendem o que significa sua mensagem. Ele o faz porque a seletividade penal é clara neste país. Dentre a população carcerária, a maioria é formada por negros. A necropolítica perpetrada pelo Estado extermina corpos negros. Isto é, o negro suspeito de praticar delito penal, sendo este procedente ou não, geralmente tem como caminho a morte. Ante o exposto, Jesus da Gente alerta… “porque de novo cravejaram meu corpo”. “Mas será que todo povo entendeu o meu recado?” Fica a pergunta para reflexão.

            5.6. Os profetas da intolerância/ Sem saber que a esperança/ Brilha mais na escuridão/ Favela, pega a visão/ Não tem futuro sem partilha/ Nem messias de arma na mão/ Favela, pega a visão/ Eu faço fé na minha gente/ Que é semente do seu chão: Nesses versos, se aborda a conjuntura social da eleição de Jair Messias Bolsonaro, atual presidente, cuja campanha eleitoral foi capitaneada por boa parte de lideranças evangélicas neopentencostais que corroboram sua agenda fascista e neoliberal.

            Jesus da Gente alerta que o caminho para o futuro é a partilha e jamais, sob hipótese alguma, existirá um Messias com arma na mão. Enfim, Jesus da Gente encerra falando a seus pares, os moradores da comunidade, que acredita no bom senso e fraternidade de sua gente. Pessoas que, assim como ele, nasceram sob a égide da pobreza e sabem o que significa ser proletariado, favelado e residente da Mangueira.

5.7. Do céu deu pra ouvir/ O desabafo sincopado da cidade/ Quarei tambor, da cruz fiz esplendor/ E ressurgi no cordão da liberdade: Finalmente, Jesus ressuscita no Cordão da Liberdade, também localizado no Morro da Mangueira. Ademais, não ressuscita com o mesmo corpo de outrora, porém, agora, tendo o corpo glorificado “da cruz fiz esplendor”.

            Então, do céu deu para ouvir “o desabafo sincopado da cidade”. Quem que já tenha estudado na UERJ, no sétimo andar, de frente para a Mangueira, não sentiu o desabafo sincopado provocado por aquela imagem social? É um desabafo mudo, que fala muito sem dizer palavra alguma. Trata-se, desse modo, de um desabafo sincopado

            A síncope é como se fosse um desmaio por falta temporária de oxigênio no cérebro devido à má circulação sanguínea. Ou seja, este desabafo inexprimível, angustiante e, ao mesmo tempo, dramático da realidade social da Mangueira dá pra ser ouvido do Céu.

            Em paralelo, os moradores da comunidade põem os couros dos tambores da bateria (nos anos 50 e 60 se fazia muito isso) ao sol para ficarem mais maleáveis ao serem pregados nos respectivos instrumentos.

            Nesse cenário, Jesus da Gente renasce no Cordão da Liberdade. Renasce no Chapéu Mangueira, onde nasceu, viveu, cresceu e morreu. Renasce para o dependente químico que cata alimentos na caçamba de lixo enquanto o estudante de medicina passa de carro, no Maracanã, em direção ao Pedro Ernesto. Ele, o aluno de medicina, acha que os mendigos estão ali porque querem, porque a vida é mesmo assim…

            Jesus da Gente renasce enquanto o aluno de Direito do mestrado da UERJ diz que entende o que o morador da Mangueira passa… Afinal de contas, ele já foi a Dubai e se sentiu discriminado porque não conseguiu fazer compras no shopping… E ainda arremata: “Eles precisam se esforçar mais. Se estudarem mais um pouquinho saem logo dali”.

            Observação: Os exemplos são baseados em fatos reais.

            Em resumo, Jesus da Gente renasce com uma mensagem de esperança para seus companheiros. Ele não está alheio a seu povo. Ao contrário: nascer, crescer, viver, morrer e renascer na Mangueira nunca foi um acontecimento natural. Foi, acima de tudo, um ato político respaldado na atualização de sua mensagem vicária para reflexão de muitos no Brasil do século XXI.

            5.8. Mangueira/Samba, teu samba é uma reza/ Pela força que ele tem/ Mangueira/ Vão te inventar mil pecados/ Mas eu estou do seu lado/ E do lado do samba também: Jesus da Gente reafirma seu apoio à Mangueira profetizando que por causa de sua escolha pessoal e política, muitos condenarão moralmente a Estação Primeira da Mangueira. Contudo, o Messias da Gente está de mãos dadas tanto com seu povo quanto com o samba – que canta e conta em verso e prosa sua biografia provocante .

            6. CONCLUSÃO: JESUS DA GENTE NO AMBIENTE ESCOLAR

            Se este Jesus da Gente, apresentado na narrativa acima, frequentasse a escola; provavelmente teria uma série de questões por conta de sua realidade social.

            Dependeria do CIEP para se alimentar a contento, ansiando pelo café, almoço e colação vespertina. Dependeria da gratuidade de ensino e de passagem para ter acesso à educação. Da entrega de uniformes, dos livros didáticos e do material escolar para frequentar o colégio.

            Jesus da Gente provavelmente se preocuparia com a situação financeira dos responsáveis. É plausível imaginar que ele conversaria sobre isso com uma estagiária mais descolada, caso tivesse abertura para falar sobre.

            Jesus da Gente provavelmente se ausentaria da escola – por longo período – após as chuvas intensas no Rio de Janeiro. Quando retornasse ao colégio diria: “Tia, perdemos tudo na enchente. Estamos todos na casa da vovó enquanto nossos pais ajeitam nossa antiga casa para voltarmos. Por isso não viemos antes ao CIEP”.

            Jesus se preocuparia em ajudar os pais a cumprirem sua jornada de trabalho no CEASA porque sua família depende da diária obtida para sobreviver. Em razão disso, Jesus, provavelmente faltaria às aulas.

            Jesus, seguramente, se sentiria feliz ao ouvir que pode, um dia, ingressar em uma instituição como a UERJ e tornar-se médico, advogado, engenheiro, professor, cientista… Enfim, o que ele quiser! Já que ninguém – sejam os próprios pais ou seus professores – sequer ousaram lhe falar algo dessa monta…

            Jesus ficaria em casa nos dias de operação do BOPE e temeria por seus familiares. Seria traumatizado pelo som de tiros e diria que sonha em morar, algum dia, em um lugar menos perigoso.

            Jesus seria negro e sonharia em ser jogador de futebol… Ficaria chateado quando a estagiária caxias dissesse que ele tem que estudar e que não há nada de errado em ser jogador de futebol; porém que com seu talento para desenhar, poderia ser o engenheiro que projeta o estádio de futebol e não apenas o jogador do time…

            Jesus da Gente aprenderia a ler e a escrever com facilidade se conseguisse ser assíduo. Caso contrário, passaria de série pela aprovação automática sendo um analfabeto funcional.

            Mas, acima de tudo, Jesus seria uma criança amável, carinhosa, cheia de esperança no coração e que sonha com um futuro melhor; tendo, na figura social da escola, talvez o último bastião institucional que lhe permita alcançar mobilidade social – no futuro – caso nela consiga  permanecer, bem como internalizar o conhecimento transmitido pelo colégio.

            REFERÊNCIAS

VIEIRA,Leandro et al. G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira. In: Abre-Alas. LIESA: Rio de Janeiro, 2020. pp. 113 a 176. Em especial, foram consultadas as seções “Justificativa do Enredo” pp. 117 a 124 e “Ficha–técnica: samba-enredo”: pp. 163 a 166. Disponível em: <https://liesa.globo.com/downloads/carnaval/abre-alas-domingo.pdf>. Acesso em 27 mar 2020.

VIEIRA,Leandro et al. G.R.E.S. Papo Mangueira – Entrevista com o carnavalesco Leandro Vieira. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=2pNi0D2ByBk>. Acesso em 27 mar 2020.

MANGUEIRA, G.R.E.S. Estação Primeira da Mangueira. Clipe samba-enredo Mangueira 2020. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=f2icPYeHe2M>. Acesso em 27 mar 2020.

MANGUEIRA, G.R.E.S. Estação Primeira da Mangueira. Mangueira 2020 – desfile completo. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=YYaUwQR7PaE >. Acesso em 27 mar 2020.

Imagem destacada: divulgação.

You May Also Like

No rastro da pantera: a democracia da abolição e o black feminism de Angela Davis

Não é esse o modelo de direitos sexuais e reprodutivos que queremos. Se no período colonial as mulheres negras raramente podiam criar suas/seus filhas(os) pelas circunstâncias da escravidão, na contemporaneidade ainda padecemos do racismo institucional que reduz e precariza o acesso aos serviços públicos de saúde, levando ao alto índice de violência obstétrica e mortalidade materna.