Quem tem medo do movimento negro?

Começo essa reflexão partindo de um momento de reunião da organização que faço parte (1). Nos questionamos sobre as motivações que levam diferentes grupos a temerem e/ou se afastarem do movimento negro: desde a direita conservadora, uma expressiva parcela da esquerda progressista (branca) e, em certa medida, um significativo número de pessoas negras que evitam falar e se organizar tendo a centralidade na causa racial. O que tem de comum nos argumentos de cada grupo tão distintos? 

 Por que tantas pessoas têm medo do movimento negro? 

Parto inicialmente minha análise do medo da branquitude pois é de fácil entendimento partindo numericamente: a população brasileira é formada por 54,9% de de pessoas negras (pretos e pardos, IBGE de 2016). Essa população encabeça a maioria os serviços ditos essenciais no nosso cotidiano: como limpeza, entregadores, caminhoneiros, cozinheiros, motoristas, comércio… Profissões dignas, que toda pessoa de qualquer classe social depende diretamente mas, extremamente desvalorizadas e exploradas. Tanto por uma questão de classe, como também por questão racial. Muito por conta da naturalização de sujeitos específicos em determinadas posições e atribuindo tratamentos e violências direcionadas. 

Por exemplo, o espanto que causa uma empregada doméstica loira de olhos azuis e a naturalidade de uma mulher negra nesse mesmo cargo. A loira de olhos azuis nessa mesma posição que a mulher negra ocupa, terá seu trabalho e julgamentos de forma muito mais branda do que as violências cotidianas direcionadas a mulher negra. Afinal, essa última “já está acostumada com o serviço que tem”, não importando se é ou não o primeiro emprego daquela mulher em questão. Da mesma forma, a naturalização de moradores de rua negros, enquanto um morador de rua loiro de olhos azuis causa uma solidariedade coletiva a ponto de estampar noticias em grandes sites, até se tornar modelo (2). 

Por isso afirmo categoricamente: se a população negra fizesse um levante hoje pautando questões de promoção da igualdade racial, coloca toda a estrutura de abaixo. Porque somos a maioria. Desarticularíamos toda uma estrutura pautada na nossa exploração. Nenhuma pirâmide consegue se manter firme sem uma base oprimida disciplinada, que não acredita ou consegue enxergar um horizonte sem toda aquela hierarquia sócio racial vigente.

Se para a branquitude declaradamente neoliberal e orgulhosamente “conservadora” é explicito as motivações para o silenciamento e incentivo das desarticulações do movimento negro, ao se tratar da esquerda branca progressista e até mesmo suas organizações, a análise pode parecer complexa no primeiro momento. Digo apenas o primeiro momento pois o que se tem é o nítido pacto da branquitude, que não importando a classe social ou posição do espectro político que ocupa, no final das contas eles se articulam com o mesmo propósito de manter a hierarquia racial instituída. 

Os tais progressistas, com discurso de uma tal “universalidade” da categoria de trabalhadores e mulheres, não necessitando analisar as outras subjetividades que afligem e reposiciona diretamente as opressões vivenciadas por toda uma coletividade. Esse grupo denomina o movimento negro como “identitários”. Ora, me questiono se a branquitude e a masculinidade também não são identidades? (3) A partir do momento que influi diretamente as formas de se comportar, pensar, articular e também de se beneficiar e fazer a manutenção com a estrutura vigente. Se hoje, não se vê como identidades a branquitude e masculinidade é porque se tornou a norma, o padrão. Essa norma e padrão de identidade é o que culmina historicamente o genocidio e exploração de todos aqueles que não se enquadram.

A esquerda progressista branca que teme o movimento negro justamente por expor a arrogância, limitações e racismo de seus projetos politicos. Tais projetos políticos que ao desconsiderar ou relegar a um segundo momento (que por sinal nunca chegou) às questões que afligem diretamente a população negra, relega a estes uma dependência ou subordinação a tais revolucionários brancos. 

Digo isso ao pensar as condições de crianças negras que muitas vezes não se sentem nem encorajadas a falarem por conta do silenciamento imposto de questões que afligem suas subjetividades. Essas crianças se tornam adultos desencorajados. Que crescem juntamente com brancos que estão sempre são incentivados a falarem e a sonharem. Meninas negras que crescem  acreditando que o seu cabelo, traços e sua cultura é algo a esconder ou mudar, aderindo uma estética o mais próximo possível do branco. Essa mulher negra crescendo, dentro de um espaço de organização progressista, ainda se silencia perante a uma mulher branca, por achar que sua intelectualidade e sua figura é de menor valor ou potência. Essas mesmas crianças que se veem sendo educadas apenas dentro de epistemologias europeias da branquitude, tendo seus horizontes de pertencimento e de futuros limitados a norma ocidental

Como que a cura, saúde mental, afetividades, afirmação estética e amor não pode (e deve) ser pautas prioritárias para o fazer revolucionário de sujeitos que historicamente foram silenciados dessas questões? Quem sempre recebeu afeto e pode se dar o luxo de abdicar e dizer que isso não é prioridade para o fazer revolucionário? Quem não precisa afirmar sua identidade, pois ela já é posta como norma? Quem é perseguido e criminalizado pela sua identidade?

A esquerda progressista branca, que menospreza a centralidade dessas pautas que tem centralidade a esses sujeitos, compactua com o pacto da branquitude e de um projeto político que reproduz hierarquias raciais. Homens, mulheres e crianças negras precisam saber e reconhecer sua potencialidade de ser e de libertação sem demandar um salvador branco pontuando suas prioridades e qual prática de liberdade seguir.

Como já afirmava Paulo Freire: a cultura popular se traduz na política popular (4). Não há cultura do Povo sem o Povo. Faço aqui o adendo de quem é esse “povo” que estamos falando. Esse povo tem identidades, tem uma história. Dentro da realidade e história brasileira fruto de um processo histórico de escravização afroindigena. Todo projeto político, a esquerda ou direita, que ignora essa cultura, compactua com a perpetuação do pacto racista da branquitude.

O último aspecto de análise que levanto sobre o medo do movimento negro se trata de uma parcela da própria população negra, que evita ao máximo entrar nesse debate, questionar ou se organizar propriamente tendo a centralidade na causa racial. Compreendo essa questão visualizando os impactos profundos da ideologia do branqueamento, que foi construída no século XIX no Brasil e que vem repercutindo nas mentalidades da população negra até hoje. Essa ideologia do branqueamento que age tanto na estética (com produtos de clareamento de pele, padronização de um tipo de nariz, diminuição de testa, alisamento de cabelos e vestimenta), como também no pensar e agir dos sujeitos.

Essa ideologia atinge o corpo físico e psique dos indivíduos negros faz com que eles afastem a todo custo do pensar as questões relacionadas a sua própria condição como pessoa negra. Afasta o pensamento que vivenciam e sofrem situações especificamente por conta da sua cor de pele. Essa mentalidade o faz crer e naturalizar a estrutura que impõe a sujeitos negros a subalternidade de posições e falta de representações em massa nas instâncias de poder. Faz acreditar que a não ascensão ou conquista de espaços é puramente sua culpa individualmente, não acrescida de uma estrutura organizada racialmente. Faz reproduzir o discurso meritocrático para não criar mal estar com amigos e ambientes de convívios com pessoas brancas. Afinal, tratar da questão racial cria constrangimentos perante aqueles que se beneficiam diretamente dessa estrutura. Se silenciar perante essa questão que tem papel central na sua vida faz parte de toda uma cultura de silenciamento imposta desde sua infância. 

Com o discurso de “somos todos iguais” e “democracia racial” (5)mas jamais sendo tratado adequadamente de forma igual. O temor de levantar essas questões e se vista como raivoso (6) e radical. Mas o que trago como questão principal a essa análise é que: o silêncio nunca blindou ninguém de ser violentado, perseguido e subalternizado. Como já afirmou Audre Lorde, o silêncio não vai nos proteger (7). 

A consciência oprimida e repleta de concepções racistas faz o sujeito temer e limita seu próprio horizonte de vislumbrar sua liberdade. Esse medo da liberdade, construído de forma sutil nas mentalidades da população negra, permite mantermos atados a esse status de desigualdade e opressão. Faz temer a liberdade quando não se sentem capazes de correr os riscos de assumi-la.

Por isso, reitero os questionamentos com acréscimos de novos:

Quem tem medo do movimento negro? Por que temer o movimento negro? Qual a potencialidade do movimento negro?

Notas

  1.  Frente Preta UFJF. Contatos: http://instagram.com/frentepreta.
  2. ‘Mendigo bonito’ de Curitiba faz sucesso na internet. https://www.bol.uol.com.br/noticias/2012/10/17/mendigo-bonito-de-curitiba-faz-sucesso-na-internet.htm
  3.  Sobre branquitude ver mais nas obras de: Guerreiro Ramos; Maria Aparecida da Silva Bento, Lourenço Cardoso.
  4.  FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido.Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2019.
  5. Fiz anteriormente essa discussão no texto “Nunca vivemos em uma democracia racial. http://blogueirasnegras.org/nunca-vivemos-em-uma-democracia-racial/
  6. Sobre a questão da raiva, indico a leitura do texto “Os usos da raiva: mulheres respondendo ao racismo”, por Audre Lorde. https://www.geledes.org.br/os-usos-da-raiva-mulheres-respondendo-ao-racismo/
  7. “A Transformação do silêncio em linguagem e ação”, Audre Lorde. https://www.geledes.org.br/a-transformacao-do-silencio-em-linguagem-e-acao/
You May Also Like
Leia mais

Carta aos amigos do planeta internet

O racismo é uma forma de exploração aviltante do ser humano, porque alguém está ficando mais pobre e alguém mais rico. Aqui entra desde a formação do nosso capitalismo, com o trabalhador escravo, que produziu riqueza, até o apresentador de TV que anda vendendo umas camisetas nonsense às custas do sofrimento alheio. Então, vejam, é muita gente mesmo.
Leia mais

II Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro: não vamos enterrar nossa dor.

Cansado, humilhado e revoltado, Seu Jurandy desabafou a um jornal da capital: “Pelo menos essa dor vai passar. Vou enterrar dedo, pé, o que me derem.(…) A gente nunca imagina que uma pessoa vai fazer uma crueldade dessa com o filho da gente. Vamos à luta. Meu pai enterrou os filhos lá (em Serra Preta, município perto de Feira de Santana), lá tem a carneira da família. Não vou querer enterrar meu filho aqui. Muita dor, muita crueldade…”