Não é somente sobre o corpo, é sobre o corpo negro!

Atualmente são tantas as tragédias que demarcam nossos lombos negros.

Antes eu sentia pela narrativas da história, cada chibata dos meus antepassados, era como estive de costas nuas, presa no tronco, era como se estivesse ali, sentindo as dores, sentindo o cheiro de ferro, no sangue forte do negro.

Hoje, a violência sobre nossos corpos não mudou, não são mas as chibatas que nos fere e riscam nossas vidas, hoje são os tiros, tiros que vem em nossa direção pra provar que a favela ainda é navio negreiro. 

Como bem descreveu Castro Alves em seu poema, os versos descreviam a barbárie em cena, e como poetizado todos conhecem nossas faces, escritas mais uma vez pelo homem branco, pelo Castro branco. E não, não é que a branquitude não possa nos falar, mais quando negros se reunem para dialogar sobre si mesmo, a polícia logo para, quando não se basta, logo dispara.

Estamos sendo mortos, nas favelas, nas ruas ou nos bailes funks. Estão nos matando na frente da nossa mãe, numa comemoração de primeiro salário, numa esquina conversando, numa via chovendo alengando que o guarda-chuva que nós carregavámos era um fuzil, e não param de nos matar.

Não é somente sobre corpo, é sobre o corpo negro e todo sistema que adere o facismo, que de preferência higenize e deixe tudo as claras, mais enquanto houver um corpo negro estendido sob o asfalto quente, vítima desse sistema covarde, nos estaremos aqui reivindicando nem que seja na escrita, que falar sobre vidas ainda se precisa e que escurecer esse país, ainda pode fazer essa gente muito feliz. 

Ainda que eu sobreviva, sei que muitos dos meus estão de partida. Partida, em sua maioria, prematura. Alguns hoje poderiam estar aí, fazendo história, alavancando progresso, fazendo os meus serem feliz.

Mas é que falar sobre crueldade sofrida pelo povo negro, parece não combinar com falas sobre felicidade, negro só pode ser feliz quando na tv se torna menos estática da criminalidade. 

É que meu povo não quer subir sozinho, quer levantar os seus e seguir de frente, mesmo que seja devagarzinho.

E quando nos exaltamos por tentativa de compreensão, logo taxam preta raivosa, com falta de atenção.

Se o vitimismo é a minha doença e isso te angustia, a hipocrisia é a cólera dessa gente branca, de mente cada vez mais vazia.

Não é somente sobre corpo, é sobre o corpo negro! 

Imagem de destaque: Daniela Carneiro

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Imagem: antifluor, flickr.
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Estou escrevendo sobre isso porque hoje, aos 33 anos, sei que a minha reconciliação com minha mãe e tias somente foi possível a partir deste aprendizado no movimento negro. Ouvindo com atenção as mulheres negras, curando-me de mágoas e repensando politicamente minhas relações afetivas com as demais mulheres. Lembro-me que desde os meus 13 anos, passando pelos 15, minhas tias, devido às alianças com seus seduzidos companheiros pela minha adolescência negra, me isolavam do convívio mútuo, não falavam comigo, ainda que a oralidade e a roda de diálogos sejam expressões singulares africanas, inclusive na diáspora, como terapia comunitária e reconstrução da espiritualidade e das emoções.