sou uma mulher lésbica preta: visibilidade para quem?

O reconhecimento da sociedade começa e termina no fingimento do reconhecimento dos meus direitos. A fita opressora tampa a minha existência de quem eu sou: uma mulher lésbica preta. Eu sou e tenho que ser uma amazona parar guerrear contra o explícito e o implícito. O velado e o desprezo. Uma lona de empatia que trás consigo uma lama de antipatia e insensibilidade. Até dentro dos movimentos sociais, meus direitos não são queridos, não são bem-vindos e assim se tornam hipócritas brincando de serem humanistas (?), feministas (?), e o que mais?

A carne mais barata do fundo do mercado é da mulher lésbica preta (e brancas). As indústrias me vendem como produtos, como manequins de servidão sexual. O meu corpo e os nossos corpos são expostos como prêmios para privilegiados: indústria musical, indústria pornográfica, indústria cinematográfica, indústria televisiva, indústria social. Se eu falar, sou calada. Se eu amar, sou objetificada. A minha sexualidade é silenciada tida como revolta; trauma; opção; fetiche e outros condicionamentos.

Eu não sou nunca fui e nunca irei ser uma escolha. Ou uma escolha política.

Somos vítimas de: lesbofobia, machismo, misoginia, racismo E invisibilidade. E assim muitas de nós (como eu fui e sou) acabamos nos culpando. Acabamos solitárias na sociedade. Vivendo uma vida que não nos pertence. Vivendo sós e esquecidas. Vivendo pelas migalhas. Sobrevivendo na sociedade sendo mulheres homossexuais e pretas (e brancas). Esperando anos para dizer uma só palavra sendo mulheres lésbicas pretas (e brancas). Algumas conseguem e as outras?

Eu não sou fetiche de ninguém! Eu não te pertenço objetificação! Eu não te pertenço opressão! Eu não pertenço machismo! Eu não te pertenço misoginia! Eu não te pertenço heteronormatividade! Eu não te pertenço lesbofobia! Eu não te pertenço invisibilidade! Eu só pertenço à mim mesma.

Nós vivemos, nós existimos.

Imagem – Zanele Muholi, reprodução DisMagazine.

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Misoginia x Misandria

Toda mulher sofre com o machismo e com a misoginia desde o momento que é reconhecida como tal. Se não no próprio ambiente familiar, no momento em que começa conviver em sociedade. Muitas se habituam aos comportamentos supracitados, e a eles nunca reagem. Algumas outras, sobretudo as que sofrem traumas mais profundos e lutam pela emancipação do gênero, desenvolvem um comportamento de resposta que vem sido classificado como misandria.
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E o que me preocupa nessa trama toda nem é tudo isso. Não são as desculpas falaciosas, mas as lágrimas forjadas para colocar forçosamente no campo do compreensível o que não é justificável. O papel de vítima não cabe ao agressor. Ela, que não nos poupou de seu racismo, podia ter tido a decência de nos poupar do choro que não cabe a ela; a ela só cabem responsabilização e reparação.