Trote na UFMG, Racismo e suas implicações

por Blogueiras Negras

15 de março de 2013 e um trote na faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais tem como protagonistas jovens brancos acorrentando uma caloura pintada de preto com um cartaz “Caloura Xica da Silva” e um outro jovem pintado de marrom amarrado num poste – ao lado os jovens brancos fazem saudações nazistas.

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Estudantes e Polícia na Faculdade de Direito, MG.

No dia seguinte do acontecimento, ninguém acreditava no que via e começou o reboliço: as fotos dos alunos foram apagadas de suas redes sociais, os calouros negaram que foram forçados a participar do trote e houve rumores que a faculdade de direito abafaria o caso.

Depois de algumas entidades estudantis (CAAP e DCE) da própria faculdade de direito anunciarem publicamente o repúdio a práticas racistas e sexistas, a reitoria da Universidade decidiu apurar os fatos, criando uma comissão para a investigação – deixando bem claro que seria avaliado o caráter violento do trote, que é proibido de acordo com o regimento da UFMG.

Com muito barulho feito pelas diversas mídias (incluindo nós todas do Blogueiras Negras), os alunos e professores começaram a organizar debates e conversas: um deles reuniu a Ministra da Secretaria de Direitos Humanos Maria do Rosário, integrantes do DCE, estudantes e a vice-reitora Rocksane Norton.

Com o tempo passando e com as conversas e especulações fomos aos poucos descobrindo a lama que envolvia o caso do trote dentro da UFMG: Alunos denunciaram diversos atos e situações racistas nessa entrevista. Professores deram seu depoimento de que há pouco apoio quanto aos casos de discriminação e racismo direcionados principalmente aos alunos cotistas e que foram reparados pelas ações do Reuni.

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Debate promovido pela UFMG

E finalmente, depois de tanta investigação – inclusive com a ajuda de estudantes de outros cursos – descobriu-se o envolvimento de alguns dos veteranos que praticaram o trote com organizações de ultradireita, simpatizantes do fascismo e nazismo: O movimento Pátria Nostra Brasile (MPN), que já teve o primeiro encontro em Belo Horizonte, sob o nome Movimento Pátria Brasil.

Apesar dos depoimentos dos alunos e da prisão de Antônio Donato (suspeito de estar envolvido no trote junto com Gabriel Spínola, que aparece na foto fazendo a saudação nazista), a querela na UFMG ainda não cessou: professores ainda tentam construir um calendário de discussão sobre direitos humanos e racismo, estudantes temem que a reitoria abafe o caso e não puna os infratores e o clima de tensão ainda reina dentro do campus.

Assim como a gente não esqueceu e quer uma resposta da Universidade, a comunidade está se mobilizando e promovendo atos como o Pagodão contra o Nazismo. Enquanto nada for deliberado, a gente vai continuar escrevendo e buscando informação. E enfrentando tecla por tecla o racismo e o sexismo.


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Fica o aviso de que trote opressor não é diversão

Vivemos em uma sociedade que subjulga cotidianamente mulheres, negros (as) e LGBTIs, que afirmar se essas pessoas devem se subordinar ao sistema patriarcal, racista e homofóbico que rege todas as nossas relações. É por isso que ao amarrarem uma mulher negra reproduzem 500 anos de um doloroso processo de escravidão que essa mulher carrega em suas costas. Não é menor, o constrangimento, a vergonha e a falta de força para dizer NÃO. Assim também é a simulação de sexo oral. Afinal, para que servem as mulheres senão para provar sua capacidade de dar prazer a um homem? Que outro valor poderiam ter?

Não recuem! Não se dispersem!

Tenho medo toda à vez que saio na rua para um novo protesto, mas mesmo assim meu grito não vai se calar tão facilmente, porque estamos acordando pouco a pouco, 100 mil no Rio de Janeiro, 65 mil em São Paulo, 35 mil em Belo Horizonte… Além de outras tantas cidades do Brasil e do mundo na luta também. Não vou me calar agora, estou muito extasiada para fazê-lo. Também não calo porque já sinto o cheiro de flores, a nossa primavera brasileira já começou e ela com certeza será próspera. Por isso não há mais lugar para o medo desse lado da luta.