Uma rede cheia de “nós”

Dizer-me escritora ainda me assusta. No entanto, não é de hoje que escrevo algumas coisinhas, pequenos trechos soltos, palavras que (re)significam algo poético dentro de mim. E no meio dessa profusão de páginas de word e blocos de notas, há princípios de peças de teatro, releituras, diálogos cênicos, cenas e um tanto de outras coisas que imagino serem feitas para o palco. Portanto, quando surge alguma possibilidade de exercer essa vertente da minha escrita, tento experimentar ou pelo menos vivenciar mais essa faceta de mim.

Há algum tempo, quando ainda havia a esperança de que a pandemia acabasse no segundo semestre, soube de um curso online de dramaturgia, oferecido por alguns jovens dramaturgos negros, com enfoque nas escritas dos sujeitos negros. E juntamente com a minha inscrição, enviei uma carta de intenções, contando um pouco sobre o meu interesse pelo curso e o porquê de pleitear uma das vagas. 

Infelizmente, não consegui a vaga. Mas como acredito na importância de partilhar nossas experiências – sejam elas de sucesso ou não – aproveito para dividir com vocês as reflexões tecidas naquela época sobre a escrita e a dramaturgia negra. Passado “o luto”, compartilho aqui, no Blogueiras Negras, algumas das minhas inquietações naquele momento, anterior à lei Aldir Blanc, em que muitos trabalhadores do setor cultural estavam aterrorizados.

A carta, agora aberta, dizia o seguinte:

Prezadas/os,

Gostaria de solicitar a minha participação no curso ***, dentre outras razões, por estar com medo. Sim, talvez não seja a melhor estratégia de participação, mas acredito na importância de me mostrar desnuda ante os fatos: há dor e dúvida pairando sobre nossos corpos pretos, principalmente agora, dado o contexto em que vivemos. Mas, se por um lado, o temor nos paralisa física e emocionalmente, por outro, ele também nos faz reagir. E a temeridade do momento (não apenas epidêmica, mas também política) também produz potências criativas.

Todos os dias, estamos construindo sobrevivências. E não seria diferente ao produzirmos nossos textos, sejam eles poemas, contos, romances, letras de músicas ou peças teatrais Assim, manter-se ativa/ativo com a sua produção dramatúrgica, isolada no fundo da gaveta ou nos cursos de escrita criativa, é também prover a existência de histórias que são ignoradas pelas elites, que são sepultadas junto com nossos sonhos (e até nossos corpos) todos os dias e que foram (e ainda são) invisibilizadas pela “História” dita oficial. Quantas das nossas narrativas foram apagadas e sob elas encenadas histórias que nos ridicularizavam? 

A trajetória da dramaturgia brasileira é recheada de capítulos que se referem à população preta O Outro sem existência. Fomos tratados como personagens planas, sem qualquer profundidade, com historietas triviais e sem interesse para o público. E mesmo quando a nossa história devia ser contada, o prisma branco retalhava a nossa participação à figuração, colocando-se como única voz audível para contar a “verdade”.

Assim, cada movimento de incentivar o nascimento das nossas escritas, por meio de projetos artísticos-culturais voltados de/para a população negra, é um ato de resistência. E é por isso escrevo. Escrevo porque quero contar as minhas histórias, porque vejo as minhas palavras andando soltas por aí, no meio da rua, em cima do palco, dispersas nas arenas e telas multimídias; e também porque sei que os meu olhos veem de um jeito particular, atravessados pelo que sou, pela minha vida. Eu escrevo para tomar consciência todos os dias de que esse é o meu lugar, o da escritora, e estar consciente de ser uma mulher, preta, nordestina, jovem e escritora é uma vitória contra o racismo. A escrita em mim atravessa o silêncio imposto e desafia o medo de existir no mundo. 

E por isso, comecei este texto falando de medo. No cenário atual, com o fortalecimento dos discursos de ódios, da ascensão política de grupos radicais e o assassínio diário dos nossos irmãos e irmãs pretas, o medo de ser rasurada da vida é ainda maior. 

Investir na produção artística negra é criar uma rede com muitos ‘nós’, unindo pontas distintas e fortalecendo a rede. Portanto, quando um projeto com este se apresenta, restaurar os nós (e à nós) através de uma oficina de produção dramatúrgica significa unir as nossas narrativas com as dos nossos ancestrais; ligar, de certo modo, o Abdias Nascimento, a Cristiane Sobral, o Aldri Anunciação a tantas outras mulheres e homens negros que escrevem ou tentam escrever suas histórias, mas que acabam tolhidos por um discurso que nos diz de uma inaptidão circunscrita aos nossos corpos, à nossa cor.

E a potência do medo me faz querer (r)existir. E uma das formas de existência, pra mim, é por meio da arte: da escrita criativa, da literatura, dos palcos.

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