Vanzinha: o transporte complementar do morro

Tem morro que ônibus não sobe. As ruas, já estreitas, ficam ainda mais apertadas quando
fazem do meio fio um estacionamento. Carro e moto passa, contanto que respeitem o
esquema de Tetris automobilístico. No meu bairro, rodeado por esses morros, tem uma opção
que alivia as pernas cansadas de subir ladeira: a vanzinha. Ela resgata quem mora no topo e
precisa fazer o sobe-desce todo dia. “Transporte complementar”, assim é chamada
oficialmente.


A boa notícia é que é de graça; porém, se economiza em passagem para gastar na coragem.
Porque, como tudo que é feito de má vontade pelo governo, termina sucateado. Motoristas:
sobrecarregados. Manutenção: quando dá. Passageiros: lotada. Tempo de espera: demora.
Fora a pista em retalhos, e a ladeira tão íngreme em alguns trechos que chega dar frio na
barriga.


Já ouvi, mais de uma vez, a história de “a vanzinha tombou hoje”. Teve até protesto com
pneu queimado por causa disso. Por morar na parte baixa, nunca precisei pegar tal transporte.
Mas o dia não-aguardado finalmente chegou, precisei ir no posto de saúde garantir uma ficha
de atendimento, e a vanzinha passa na frente. Era pegar ela ou subir uma ladeira, fazer umas
curvas para direita, pegar à esquerda no sinal, e torcer pro sol não estar quente. Sempre tá. A
coragem recebeu estímulo do sedentarismo e me pôs na parada, na frente do mercadinho,
para pegar a van fazendo retorno e assim garantir meu lugar sentada.


Deu certo. Era pouco depois das cinco da manhã, acho que peguei a primeira do dia. Quando
ela tava fazendo o retorno, quebrou. Problema no freio, ou era embreagem – não sou
entendida no assunto. O motorista soltou um “espera que eu conserto”. Abriu o painel, mexeu
nuns fios e, como Macgyver, deu um jeito, “tudo certo”. Antes de se sentar, ele olhou nos
meus olhos e nos dos outros três passageiros presentes, e lá estava feito o pacto. Uma
promessa de silêncio de que não contaríamos o ocorrido a mais ninguém para não gerar
pânico. Foi daí que comecei a balançar a perna de nervoso. Não sou religiosa, mas se tivesse
um terço alí eu rezaria.


Deu uma vontade híbrida de rir e fechar os olhos de medo, mas segurei a seriedade em um
rosto neutro. Olhei de lado para meus companheiros de jornada, todos pareciam estar bem,
acostumados. O surto era minha exclusividade e decidi engoli-lo. E a máscara contra a
Covid-19 serviria agora para encobrir possíveis gritos afônicos. Estava tudo tranquilo até
pararmos no meio da ladeira: tinha um carro querendo descer, e não caberíamos lado a lado
na pista. Em uma diplomacia silenciosa entre os dois motoristas, foi decidido que nós é quem
daríamos a ré para o outro passar.


Morrer de ré era última coisa que esperava na minha vida de progressista. Só fechei os olhos
e esperei. Obviamente, sobrevivemos, pois este não se trata de um texto póstumo. A partir
daquele momento fiquei mais alerta; a perna que antes trepidava passou a fazer vezes de freio, pisando, tensa e com força, como se ali, embaixo dos meus pés de passageira, houvesse
um pedal de emergência. Foi assim, confiando nas minhas habilidades imaginárias de
motorista, que prosseguimos a subida.


Depois foi só ladeira a baixo; felizmente, num bom sentido. Foi na descida que me deparei
com a vista, dava para ver boa parte da comunidade. A curva do morro, com um mosaico de
casas empilhadas, a variação entre as fachadas pintadas e as sem reboco, cores diversas
salpicadas pelos tons de azul das caixas d’água. Comércios locais borbulham em cada
esquina, crianças brincam nas ruas como alternativa de quintais ausentes, pipas no ar, música
escapando pelos portões das casas. A rotina pode às vezes funcionar como borracha nesses
detalhes. Para vê-los, e apreciá-los, é necessário atenção. Aproveitei e contemplei.


A pressão no ouvido me despertou desse meu escape romântico da realidade. O trajeto pra
baixo foi tão rápido que escutei aquele “piiii”. Traduzindo para uma linguagem mais erudita:
foi como descer a Serra. Dalí para frente não demorou muito para chegar no meu destino
final. Desembarquei, aliviada que tinha acabado, mas sem esquecer que teria o percurso de
volta.


Horas depois, finalizado o atendimento no Posto de Saúde, me pus a esperar na parada,
torcendo para chegar uma van diferente, sem as gambiarras no freio. Um veículo em
melhores condições parou para embarcarmos e, em questões de segundos, lotou. Me sobrou
sentar ao lado do motorista, sendo separada dele pelo motor fumegante, e sedimentar
pobremente meus glúteos numa velha caixa de ferramentas, me encostando na janelinha do
lado. Sentar no chão talvez fosse mais confortável, se essa opção estivesse disponível. Além
de mal instalada no “assento”, não podia me reclinar para frente porque senão cobria a visão
do retrovisor.


Seguimos a viagem de volta. O distanciamento social não foi com a gente, foi deixado do
lado de fora. Sob as máscaras, suávamos, o vento que entrava pela janela era insuficiente.
Cadê um “novo normal” quando a gente precisa?

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