Cientistas da USP querem aproximar Arqueologia e Evolução Humana de um público mais amplo, com especial foco em mulheres e na população negra

Criado por pós-graduandas do Laboratório de Arqueologia e Antropologia Ambiental e Evolutiva (LAAAE-USP), o projeto “Evolução para Todes” aposta em produções audiovisuais e engajamento nas redes sociais para expandir o alcance do conhecimento científico

Apenas 1 entre 4 alunos de programas de mestrado e doutorado no Brasil é negro de acordo com o jornal Folha de S. Paulo. Em relação à bolsistas 1A<, nível mais elevado do CNPq, apenas 5% eram mulheres conforme levantamento feito pela ONG Gênero e Número.

Os dados apontam para a sub-representação de ambos os grupos na ciência brasileira. Atentar para este cenário de exclusão é o foco do projeto Evolução para Todes: compartilhando a ciência do LAAAE-USP, criado pelas  pós-graduandas Mariana Inglez, Lisiane Müller e Eliane Chim.

Por meio da divulgação científica, o projeto busca aproximar o conhecimento científico – bem como o conteúdo das pesquisas realizadas pela equipe do laboratório – de um público mais amplo. “Queremos estimular a desconstrução do caráter histórico-colonizador e majoritariamente branco das ciências acadêmicas, com foco na Arqueologia e na Antropologia, uma vez que esses fatores culminam na pouca representatividade da população negra dentro da nossa área de conhecimento, assim como em espaços como o das universidades e na figura de quem pode ser cientista”, afirma Inglez, coordenadora do projeto e doutoranda no LAAAE, onde pesquisa o processo de transição nutricional em comunidades ribeirinhas da Amazônia.

O Evolução para Todes investe em uma equipe multidisciplinar formada, além de cientistas, por profissionais de comunicação, marketing digital, design, programação, produção audiovisual, animação e educadoras em afro-alfabetização. O grupo desenvolve ações focadas em divulgar conhecimentos em arqueologia, bioantropologia e evolução humana com uma linguagem acessível e descontraída, a fim de despertar o interesse também do público leigo.

O projeto é vinculado ao Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, tem respaldo dos coordenadores do LAAAE-USP – Prof. Rui Murrieta (IB-USP) e Prof. André Strauss (MAE-USP) – e conta com apoio do Instituto Serrapilheira de fomento à pesquisa e à divulgação científica no Brasil.

Criação multidisciplinar

Um dos pilares do Evolução para Todes é a integração entre cientistas do LAAAE e profissionais negros e mulheres no desenvolvimento das ações de divulgação científica. O projeto firmou parceria com a produtora Mundi, liderada por profissionais negros e com foco na produção de conteúdo com recorte de gênero e raça.

A equipe, integralmente liderada por profissionais negros, inclui ainda a produtora de animação Noiz Anima, formada por um coletivo de animadores baseados na Zona Leste de São Paulo, a designer Laís Oliveira, a webdesenvolvedora Karina Cárdenas e as especialistas em afro-alfabetização Juliana dos Santos, Priscila Fonseca e Teresa Abreu.

Ações

A nova identidade visual do Evolução para Todes foi apresentada ao público em outubro passado, como um spoiler do projeto. Desde janeiro o instagram @laaae_usp recebe os primeiros posts com conteúdos voltados ao público-alvo da iniciativa, como a seção #CientistasParaConhecer, uma seleção de cientistas que fogem do estereótipo predominante no imaginário popular, e o #LabIndica, curadoria de livros, exposições, filmes de ficção e documentários feita pela equipe do laboratório.

Dentre as ações já desenvolvidas pelo projeto estão duas animações criadas para abordar assuntos científicos de maneira lúdica e divertida. A partir do ponto de vista de uma garotinha de sete anos, o curta animado “De Onde Viemos?” (Episódio 1) apresenta conceitos como o método científico e os diferentes campos de estudo criados para investigar a origem humana. O Episódio 2, “Nossa Origem” aborda o tema Evolução Humana, desvendando alguns mitos sobre o passado do Homo sapiens e contando curiosidades sobre a origem e migração da espécie pelos continentes.

 “Muitas vezes quando pensamos em estudos sobre Evolução Humana, pensamos em cientistas europeus ou norte-americanos em sítios arqueológicos na África. Como é possível contribuir para a construção de novos imaginários sobre quem faz ciência e sobre nossas áreas de conhecimento, com protagonistas mais diversos? Ser cientista é ter curiosidade, é formular perguntas o tempo todo, é observar o mundo, atentar para problemas e pensar em como solucioná-los”, defende Lisiane Müller, produtora do projeto Evolução Para Todes cuja pesquisa de mestrado abordou a mobilidade de grupos humanos do passado.

As animações produzidas estão disponíveis nos canais do LAAAE no Instagram, YouTube e Facebook. O público também pode fazer download de uma versão do vídeo para Whatsapp. A estratégia é impulsionar o compartilhamento no aplicativo que tem se tornado uma grande ferramenta de disseminação de notícias falsas, sobretudo ligadas a ciências. “O projeto acredita na importância da representatividade para que crianças e jovens brasileiros, em especial meninas e crianças negras, acreditem que têm o potencial de serem o que quiserem, inclusive cientistas”, diz Mariana Inglez.

Tratando de conceitos mais avançados, o projeto lançou uma série de mini-vídeos que também estão disponíveis nos canais do LAAAE no Instagram, YouTube e Facebook. “Tratam-se de curtas sobre arqueologia e antropologia ambiental e evolutiva, evidenciando nossas pesquisas atuais e demonstrando como são desenvolvidas nossas atividades em campo e em laboratório, comunicando nosso posicionamento político de incentivo à diversidade”, comenta Eliane Chim, produtora do EPT e doutoranda no MAE-USP, desenvolvendo pesquisa no LAAAE-USP sobre o surgimento da agricultura na bacia do rio São Francisco com apoio da FAPESP.

O público pode conferir os lançamentos do Evolução para Todes nas redes do LAAAE:

Site: sites.usp.br/laaae

Instagram: @laaae_usp

Facebook: Página do LAAAE-USP

YouTube: Canal do Evolução para Todes

Twitter: @laaae_usp

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SOBRE O LAAAE

O Laboratório de Arqueologia e Antropologia Ambiental e Evolutiva (LAAAE) da Universidade de São Paulo foi fundado em 2018 pelos professores Dr. Rui Sérgio Murrieta (IB-USP) e Dr. André Strauss (MAE-USP) em um esforço interdisciplinar de unir pesquisadores de diferentes áreas para estudar o fenômeno humano com ênfase em seus aspectos ambientais e históricos. As linhas de pesquisa do laboratório se concentram em torno de três eixos temáticos: Ecologia Histórica, Bioarqueologia e Evolução Humana.

O LAAAE também hospeda um centro de curadoria de remanescentes esqueletais humanos de origem arqueológica e é pioneiro no país na implementação de duas áreas no estudo do passado humano: a Arqueogenética, onde a equipe, em parceria com o Instituto Max Planck (Alemanha), implementará o primeiro laboratório de DNA antigo do país; e a Antropologia Virtual, contando atualmente com um banco de dados com mais de três mil modelos tridimensionais que visam ampliar a salvaguarda dos materiais arqueológicos e garantir o acesso remoto dos mesmos. Pesquisadores do LAAAE também coordenam diversos trabalhos de campo, incluindo escavações arqueológicas (e.g. Lagoa Santa-MG) e etnografias (e.g. Amazônia e Peru).