Curta “Minha Nação” estreia hoje

O filme tem realização da Mangaba Coletiva, com recursos da Lei Aldir Blanc através da Secretaria de Cultura de Pernambuco

 Mestre Nilo Oliveira é fundador, zelador e mestre do maracatu Nação Maracambuco, fundado em 1993 no bairro de Peixinhos, Olinda/PE. Nesses anos, mais de 3.000 jovens do bairro de periferia da cidade pernambucana já passaram pelo projeto, que mantém atualmente cerca de 160 membros ativos. O Maracambuco é um maracatu de baque virado, com tradição nagô, consagrado como um importante projeto social no Estado. Agora, o trabalho de Mestre Nilo, como é conhecido, recebe o merecido registro no curta documental “Minha Nação – Um filme sobre Mestre Nilo”, dirigido e roteirizado pelos estreantes Patrício Júnior e Raquel Medeiros, com realização da Mangaba Coletiva.

O filme, com duração de 5 minutos, foi contemplado no Edital do Prêmio de Salvaguarda e Registro Audiovisual de Saberes Tradicionais e da Cultura Popular, através da Lei Aldir Blanc, e foi gravado na semana do Carnaval 2021, conhecido como “o Carnaval que nunca aconteceu”.

“Nós tínhamos uma imensa curiosidade em saber como alguém que vive em função do Carnaval, que trabalha o ano todo pelo Carnaval, estava lidando com as pressões de ver a festa cancelada pela primeira vez em décadas”, afirma Patrício Júnior, publicitário e escritor que estreia como diretor. Raquel Medeiros, também publicitária e escritora, estreia com o amigo na co-direção. “Marcamos a entrevista principal propositadamente para a semana do Carnaval”, afirma Raquel, “E acabamos captando Mestre Nilo num raro momento em que melancolia, medo e resistência se misturavam”.

 

DESTINO, SÓ PODE SER DESTINO

No filme, Mestre Nilo repassa os principais pontos da sua carreira como mestre de um grupo de maracatu jovem, que defende com talento e determinação uma tradição secular. Fundado em 1993 pelo próprio Mestre Nilo, que há muito sonhava em ser zelador de um maracatu, o Maracambuco espelha muito bem o perfil de seu mestre. Risonho, alegre, mas aguerrido quando se trata de defender o que acredita. “Eu podia ter um afoxé, mas não: eu queria um maracatu”, afirma em dado momento do filme. Coisa do destino?

“Mestre Nilo nos surpreendeu com sua capacidade de encarar sua trajetória como algo que tinha de ser”, conta Patrício, “Em dado momento da entrevista, quando nos contou sobre sua relação com Iemanjá e as religiões de matriz africana, ficou nítido que sua fé é o que lhe traz força para defender sua nação”.

A nação de Mestre Nilo não é apenas o Maracambuco. Peixinhos, bairro periférico de Olinda com um dos IDH mais baixos de Pernambuco, é o que ele defende como seu lugar. Nascido em Jaboatão dos Guararapes, no bairro de Porta Larga, Nilo conta que se mudou para Olinda devido a uma enchente. Morou numa casa de plástico, batalhou, e hoje se esforça para que outros jovens não passem pelas mesmas experiências. “Eu passei fome, eu sei como é”, conta ele durante o filme.

Mas a principal pergunta é: como alguém que vive em função do Carnaval lidou com o cancelamento da festa. “O vírus quebrou nossa presença”, diz Mestre Nilo. E assim, de uma frase poética a outra, ele vai revelando durante o filme que nem a pandemia conseguiu brecar seu destino. A frase que abre o trailer do filme dá uma amostra: “Como é que vai explicar o amor?”, ele pergunta.

 

ESTREANTES NUM PROJETO MUITO MAIOR

Patrício Júnior e Raquel Medeiros dirigiram e roteirizaram o material, mas afirmam que o trabalho foi bem mais coletivo que isso. A Mangaba Coletiva, grupo do qual fazem parte com sede em Recife/PE, tem mais dois integrantes. Leonardo Soares e Raphael Maia, creditados como fotografia no filme, participaram ativamente de todas as etapas junto com os diretores.

“Há ainda a necessidade de creditar o papel de cada um em materiais como esse, principalmente quando envolvem editais”, conta Patrício, “Mas a Mangaba Coletiva não tem coletiva no nome por acaso”. Segundo ele, tudo que envolveu a produção do curta foi tratado de maneira coletiva. “Do pré-roteiro ao corte final, todas as etapas foram acompanhadas de perto pelos quatro integrantes da Mangaba”, afirma.

Raquel Medeiros complementa: “A gente acredita que é na coletividade que mora a excelência, e é isso que a gente quer com a Mangaba: potencializar o talento de cada um de nós pra atingir resultados impossíveis dentro da individualidade”.

OUTROS PROJETOS DA MANGABA

Além de encarar projetos de audiovisual, o coletivo também trabalha com design e conteúdo. “Esse curta é a ponta do iceberg”, afirma Patrício. “Estamos trabalhando no rebranding do canal Caçando Estórias, de Kemla Baptista, pedagoga que conta histórias afrocentradas para crianças no YouTube”. Seguindo a tradição dos griôs, Kemla contou com a Mangaba para reestruturar seu branding e seu planejamento digital. “A gente sabe que nossos talentos, acumulados através de anos de experiência na publicidade e no audiovisual, podem colaborar para que projetos como esse recebam a luz que merecem”, resume Patrício.

O QUE: Lançamento do Curta “Minha Nação”

ONDE: youtube

QUANDO: 30 de junho de 2021 às 19h