Escola Maria Felipa lança Afrotech

Escola Maria Felipa lança Afrotech – Feira de Ciência de Produções Científicas Africanas

Projeto une instituição, alunos e famílias em reconhecimento de saberes africanos e diaspóricos

A Escolinha Maria Felipa, escola  de educação infantil e ensino fundamental, afro-brasileira e trilíngue – português, inglês e libras (@escolinhamariafelipa), realiza a Afrotech – Feira de  Ciência de Produções Científica Africanas, no dia 01 de outubro. O projeto que tem como base o livro História Preta das Coisas, de autoria da professora e doutora Bárbara Carine, que tem 50 invenções de pessoas negras, conecta os alunos(as), seus responsáveis/familiares e a instituição em um engajamento frente aos conhecimentos e construções africanas.

Na Afrotech descortinar coletivamente sobre conhecimentos pautados em saberes ancestrais e afrodiaspóricos, em um momento em que a escola traz as famílias para protagonizar com seus filhos(as) um diálogo importante para a sua afroformação, faz com que as crianças associem a ancestralidade à potência e não ao escravismo. “Elas passam a compreender na prática que pessoas negras são igualmente intelectualizadas, portanto, igualmente humanas e começam a acessar uma história outra que não a história única brancocêntrica e eurocêntrica. Além disso, as crianças brancas passam a reconhecer e valorizar a potencialidade das pessoas para além do seu círculo étnico-cultural”, traz Bárbara Carine, idealizadora e consultora pedagógica da Escola.

Diante da pandemia o Covid-19 e todo o período de reclusão vivido pelas crianças e suas famílias, o projeto foi pensado para integrar também o  acolhimento. Aquilombar. Após retorno às aulas presenciais há um mês, desde 30 de agosto, a instituição desenvolve essa ação para fortalecer  a subjetividade altiva e positivada do povo negro, a empatia, responsabilidade e conscientização racial de não negros, assim como trazer a tona a leveza da convivência de forma coletiva.

Para Maju Passos, sócia e gestora da Maria Felipa, em um momento que mundialmente todas as pessoas re-aprendem a conviver, em meio a tantas medidas de proteção, é importante que esse tipo de ação aconteça para promover e estimular todas/os/es que enfrentam atravessamentos em muitos níveis de relações. “Ver nossa comunidade encantada com as invenções africanas, se apropriando dessas produções intelectuais, que buscam multiplicar esses saberes e se estimular criativamente e coletivamente para produzir juntas/os/es, é um resultado que me faz acreditar na construção de uma educação afroafetiva, que acontece porque estamos todas/os/es envolvidos nesse projeto que queremos e merecemos enquanto povo”, afirma Maju.

Neste alinhamento entre ciência e conhecimento, os responsáveis/familiares se tornam protagonistas da feira junto com seus filhos, em uma investigação dessas invenções. “É muito bom me ver aprendendo junto com meu filho um conteúdo que não me foi ensinado. Para além de importante para o meu desenvolvimento intelectual, é também importante para o meu desenvolvimento enquanto mulher negra, uma forma de fortalecer minha identidade e de exemplificar para meu filho e para a minha rede que todas as pessoas são capazes e não só algumas como foi evidenciado em toda a minha vida escolar”, disse Maju, também mãe de Ayo (03 anos), aluno da turma G3 da Escola.

De acordo com a diretora da Escolinha, a pedagoga Cristiane Coelho, a instituição compreende que os responsáveis continuam a executar suas atividades profissionais em home office e que nesta fase de retorno às aulas presenciais era preciso engajar os familiares nas atividades escolares para que se sentissem seguros quanto aos cuidados sanitários tomados. Coelho explica que durante a pandemia, a Escola também adotou outras ações de interação com as famílias, como leituras coletivas em que pais e mães participavam de aulas e liam histórias e livros com as crianças.

Na AfroTech, além de oferecer literatura base para o desenvolvimento das criações e replicações das invenções africanas e do povo preto, a Escola deu apoio e incentivo, além de liberdade criativa e subjetiva. “Pensando nesse cuidado, nesse contato, estímulo à leveza, incentivamos através de sugestões, apoio e do pedido para que esse momento fosse lúdico, no encontro da noite, no programa do final de semana, nessa busca por elementos, artefatos, produções, pois entendemos que a família precisa estar bem e pensamos nesse lugar de companheirismo, coletividade e unificação das famílias – escola, através também da diversão no conhecer”, afirma Cristiane.

História Preta das Coisas

Referência e base para a Afrotech, o livro A História Preta das Coisas, que é de autoria de Bárbara Carine e foi lançado em maio deste ano, pela Editora Livraria Física, apresenta produções científico-tecnológicas ancestrais e contemporâneas em afroperspectiva, buscando ressignificar as bases intelectuais ocidentais. Ao problematizar “o milagre grego” – narrativa mitológica que assenta a origem de grande parte dos saberes ocidentais à civilização grega – e pautar a primazia kemética nas bases dos conhecimentos científicos, traz  a partir de uma escrita escrevivente, conceitos fundamentais para o entendimento deste apagamento histórico, como: pilhagem epistêmica e genocídio epistêmico, além de destacar 50 produções científicas pretas que foram fundamentais para o desenvolvimento humano impulsionado pela ciência e tecnologia africana e afrodiaspórica. O livro ainda traz o fundamento da filosofia Ubuntu para compreensão de outras possibilidades de ser e estar no mundo, produzindo ciência a partir de outros marcadores existenciais e metodológicos.

Escola Maria Felipa

A Escola Maria Felipa, que funciona até o segundo ano do ensino fundamental, é a  primeira escola Afrobrasileira do Brasil e retornou com as aulas presenciais dia 30 de agosto, num sistema híbrido  – on-line e presencial, respeitando todos os protocolos de prevenção à Covid-19, com equipe de profissionais totalmente vacinada e a partir da escolha de cada família. A instituição de ensino infantil é afroreferenciada,  decolonial, valoriza a diversidade e carrega o nome de uma mulher, uma referência histórica de força, luta e liderança, como compromisso à ancestralidade africana.

Localizada em Salvador, cidade mais negra do mundo fora do continente africano, a EMF foi criada em 2017 por Bárbara Carine, idealizadora e consultora pedagógica da instituição, no processo de adoção de sua filha, uma criança negra. A instituição surge para todas as crianças a partir da  grande preocupação da família em promover uma educação escolar que estivesse fora dos marcadores historiográficos eurocêntricos e subalternizados de existências não-brancas, ao perceber que esse lugar não existia.

Além das ações regulares, a escola desenvolve uma série de outras atividades vinculadas a prática antirracista, como a  Afroeducativa, que são formações pedagógicas para as relações étnicas-raciais destinadas a formação de pessoas interessadas na temática, consultorias para entidades de setores públicos e privados preocupados com a superação do racismo nos diferentes complexos sociais; e a ação ‘Adote um educande’, que possibilita bolsas de estudos para crianças negras e /ou indígenas em situação de vulnerabilidade social.

A instituição ainda desenvolve materiais didático-pedagógicos antirracistas, disponíveis na lojinha virtual da escola, bem como a ‘Decolonia de Férias’ com o intuito de formar crianças que não participam da comunidade escolar, mas que as famílias acreditam no nosso projeto de mundo emancipador. Em sua organização didático-pedagógica, cada turma é nomeada por um reino/império africano que norteará os estudos dos grupos, sendo eles, Império Inca (G2 – 02 anos), Reino Daomé (G3 – 03 anos ), Império Maia (G4 – 04 anos), Império Ashanti (G5 – 05 anos) e Reino de Mali (1° ano fundamental). A partir de 2022, a Maria Felipa passa ofertar a turma do 2° ano fundamental.

O QUE: Feira de Produções Científicas Africanas – Afrotech

QUANDO: 01 de outubro de 2021 – manhã e tarde 

ONDE: Escola Maria Felipa