Rotas de Fuga pro Aquilombamento é tema de “FUGIO”, segundo álbum de Tamara Franklin

Consciência de sua ancestralidade e influências de tradições atravessam todo o disco que conta com participação de Iza Sabino e produção de Chico Neves.

“Fugio” (fugiu) era a primeira palavra de muitos dos anúncios de jornal que comunicavam a fuga de um escravo negro no Brasil do século XIX. Anúncios pagos pelos senhores, que ali ofereciam recompensas a quem recuperasse o “negro fugido” — descrito em “pernas grossas” e “pés esparramados”, como máquina, corpo desumanizado, mera força de trabalho. Por trás da crueldade banalizada naquelas poucas palavras, se escondiam histórias de homens e mulheres que se recusavam a aceitar o papel que era reservado a eles naquele mundo. A quem exigia deles a obediência, respondiam com a fuga — ato de resistência, de heroísmo, de coragem. O princípio do aquilombamento.

“Fugio” (Estúdio304) é o nome do disco que a rapper Tamara Franklin lançou neste 25 de agosto de 2020 — num Brasil no qual, 132 anos depois do abolição da escravatura, homens e mulheres negras seguem na mira das “balas perdidas” saídas dos fuzis policiais, da negligência das “patroas” e “patrões”, da pandemia que os vitima com especial força. Em suas dez faixas, o álbum se afirma — tal qual aquelas fugas — como ato de resistência. O princípio do aquilombamento.

A consciência da ancestralidade que se revela no título atravessa todo o disco. Tamara sabe que o chão que pisa hoje — “Fugio” é em tudo, sonoridade e texto, um fruto deste tempo, que aponta para o futuro — foi construído ao longo de séculos. É nessa história que a rapper se insere. 

TRAJETÓRIA FAIXA A FAIXA

As vozes negras da Guarda de Congo feminina de Nossa Senhora do Rosário abrem o álbum, em “Procissão” — faixa que tem ainda a participação do Coral Vozes de Campanha, de Ribeirão das Neves (cidade natal de Tamara, da região metropolitana de Belo Horizonte), costurando conexões sob os versos que exorcizam “navios brancos trazendo pretos” e invocam “na marcha grave, procissão de espíritos”. No fim da gravação, ao fundo, um cachorro late — som que carrega em si toda uma espacialidade de periferia, de terreiro, de quilombo. 

A história de Tamara se insere nessa história negra que remonta à grandeza das civilizações africanas, à opressão sobre seu povo, à desobediência e à busca de reconstrução da identidade estilhaçada pelo trauma da escravidão.

— O meu primeiro disco, “Anônima”, fala sobre anonimato, identidade — conta Tamara. — Sempre tive muitos problemas para conseguir me reconhecer. Entendi que tudo isso passa pelo racismo, que sempre atravessou e vai atravessar pessoas pretas no Brasil. A luta começa pela existência, antes da resistência. A gente entender que existe e em que condições. Porque, após  o horror da escravidão, a pessoa preta tem hoje no Brasil uma sensação de não-lugar. Tô aqui, mas não era pra estar, me trouxeram, e agora nem me querem tanto aqui. Mas se eu quiser voltar pra África vou encontrar o que lá? Por isso, quando penso no congado, no Reinado de Nossa Senhora do Rosário, em todas essas tradições que estão no “Fugio”, é como se fosse uma metáfora. Como se o rap fosse eu e todos os pretos da diáspora e a gente precisasse desse autoconhecimento que tem que partir da nossa ancestralidade. É como se o Reinado, o congado, o candombe abraçassem a cultura hip hop e dissessem: “Você não tá sozinho”. 

O caminho de Tamara até “Fugio” começou ainda criança, aos sete anos, quando ela  ouviu pela primeira vez no rádio de sua tia e madrinha “Mágico de Oz”, dos Racionais MC’s.

Às vezes eu fico pensando

Se deus existe mesmo, morô?

Porque meu povo já sofreu demais

E continua sofrendo até hoje

Os versos de Mano Brown marcaram a menina que já gostava de escrever e brincar de fazer rimas. Começou a buscar grupos de rap gospel como Apocalipse 16 e Juízo Final — sua formação é evangélica. Passou a compor seus próprios raps, formou a dupla H2S2 com a irmã Winy (hoje sua empresária, ela assina a produção executiva de “Fugio”), estreou solo com “Anônima”, conheceu a cultura do Reinado (“Foi arrebatador, teve o mesmo impacto de quando ouvi o primeiro rap”). Estavam plantadas as bases para que ela chegasse a “Fugio”.

A sonoridade do álbum, um tecido de tradição e urbanidade, foi construída no diálogo de Tamara com o produtor Chico Neves e os diretores musicais Rafael Dejero e Camilo Gan. Arregimentada por Dejero (baixo e teclados), a banda — formada ainda por Gan (percussão), Dgar Siqueira (bateria), Giuliano Coura (violão, violão 7 cordas, guitarra, guitarra portuguesa e cavaquinho) e DJ Pooh (scratches) — desenhou com a rapper a essência dos arranjos. 

Neves — produtor de álbuns de Lenine, Skank e Lucas Santtana e, nos últimos anos, de artistas entre os mais celebrados da nova geração, como Julia Branco, Luiza Brina e Vovô Bebê  — entrou no processo num segundo momento.

— Tamara e banda já estavam há mais de um ano ensaiando as músicas, e a estética do “Fugio” já estava bem delineada — lembra o produtor. — Na primeira reunião que fizemos ela me falou muito a respeito dos tambores de Reinado. Decidi que seriam os primeiros instrumentos a serem gravados, quis começar pelo que seria inicialmente uma novidade no rap. Isso foi determinante no conceito que encontrei para o disco. 

O álbum também é marcado pelos timbres de violões que o cortam.

— Os primeiros tambores que gravamos foram de “A rosa e o cravo”, e desde o início ouvia um 7 cordas tocando ali — explica Neves. — Um dia falei isso com o Giuliano, e ele me disse que tinha um arranjo de 7 cordas para a música. Fiquei surpreso, pois nem sabia que ele tocava o instrumento. Propus que seguíssemos esse caminho no disco, deixando guitarras e distorções de lado para abrir espaço para o 7 cordas. Em cima de tudo isso, fiquei inspirado em colocar um pouco da eletrônica, pois sentia que a mistura daria um resultado inesperado, consolidando o conceito do álbum.

Em arranjos e discursos, “Fugio” soa coeso do início ao fim — elos de uma cadeia que amarra riquezas e perversidades (e a reação a elas) decorrentes da diáspora. Depois do batuque de “Procissão” abrindo o caminho (em versos de pergunta e resposta do congado, como “Viemos de paz ou viemos de guerra?/ Viemos de paz”), “A rosa e o cravo” sintetiza muito da potência do álbum. Estão ali o diálogo do batuque com o 7 cordas, ecoando os princípios do samba (no Rio, na Bahia, na África); a territorialidade urbana de BH (“O cravo era mestre-sala na Iperavi de Ouros/ Rosa era passista na Cidade Jardim/ Rosa era galão da massa/ O cravo, raposa criada”); a mulher preta como fortaleza (“Um rabo de arraia e a rosa caiu no chão/ Foi a gota d’água, ia se vingar/ Nunca foi de desaforo, machista não passará/ Pôs o cravo de joelhos, fez ele implorar/ Teve que pedir arrego, quase morreu de chorar/ Lembrou o nome da mãe, inventou santo pra orar/ Cabulosa, a rosa era faixa vermelha em krav-magá”). Quilombo.

As fronteiras se estendem para a latinamérica negra na sonoridade (pontuada por sintetizadores) de “Saúde pras irmãs”, que tem as participações de Colombiana MC, Neghaum e Iza Sabino (“Eu quero mais saúde pras irmãs que formam bando/ Um pouco mais de brilho pras minas chegar tombando/ Pretas e pretos no comando”). A variação de flows e gramáticas dos MCs reafirma a saúde da cena rap da capital mineira.

“Da cor de Deus” abre outra janela de “Fugio”, guitarra dedilhada e canto suave pra ambientação da canção de amor. Mas canção de amor preta, afetada pelo racismo, pela revolta e ódio que ele provoca, pela ancestralidade (“Existe algo de paz/ Algo de África/ No amor que a gente faz/ Memórias ancestrais”). Canção de amor que rima “TPM” com “PM”. A relação amorosa entre duas pessoas cuja pele “tem a cor de Deus” lança uma afronta de natureza similar à da fuga do negro escravizado. 

A percepção sobre o corpo da mulher negra é tratada em versos declamados em “E a Cris Vianna?” (“A Gisele Bündchen  é bonita/ E a Cris Vianna é boa?”). A rapper estabelece relações entre os ataques racistas sofridos pela atriz em 2015 com o drama de Sara Baartman (africana que foi levada para a Europa no século XIX para ser exibida como aberração exatamente por seu corpo ter características diferentes da mulher branca “normal” de então). No último verso, direciona para racistas e machistas a ordem que dá título à faixa seguinte: “Encosta na parede”. A faixa é autorretrato no qual Tamara atropela com flow veloz qualquer um que atue pelo silenciamento de negros e negras. 

Em “Fugio”, a canção-título, o bpm diminui, mas não a contundência. Sobre a cama climática de sabor pop (sem abrir mão dos tambores e ganzás), Tamara avança na ampliação dos limites da representatividade negra, exigindo espaços com a autoridade de quem está certo (“Se um de nós cair, vai cair um de lá/ Se um dos meus quer subir, ajudo a levantar/ E põe nós nos bailes/ Põe nós nas fotos/ Que que aqueles boy tão bebendo ali?/ Enche meu copo, enche meu copo”). 

“Estupro” segue exigindo reparação, sob um groove originalíssimo construído em camadas de violão 7 cordas, guitarra acústica, tambores e programação eletrônica. A violência como constitutiva da fundação do país, e por isso replicada até hoje sobre as mesmas bases, contra as mesmas pessoas: “Índias e pretas te contariam com muita precisão/ Que de um estupro nasceu o Brasil/ Nossa nação”. 

A morte, o luto, a serenização da relação com o fim — é essa a matéria de ”Pikena”, a faixa mais evidentemente pessoal de “Fugio” (um disco tão profundamente particular e universal). Sobre o dedilhado tranquilo do violão, Tamara canta para a irmã, que assinava Pikena (seu apelido em casa) — ela morreu aos 15 anos, de uma infecção surgida a partir da garganta. Sua mãe, Dona Beth, participa, pela primeira vez registrando sua voz em disco.

“Dona do ilê” encerra o disco ecoando umbigadas ancestrais com pés batendo com força no solo do Brasil de 2020. Celebração da potência, da beleza, da capacidade de luta e de vitória — porque como o historiador Luiz Antonio Simas costuma lembrar, citando o aforismo do compositor Beto Sem Braço, “o que  espanta miséria é festa”. É exatamente uma festa — antiga e  nova como o álbum — que se ouve no fim de “Fugio”, nos versos do Candombe do açude da Serra do Cipó: “Oi, já comeu, já bebeu/ Ora, vamo agradecer meus irmão/ O pão que Deus deu”.

Ouça FUGIO e acompanhe o trabalho de Tamara Franklin:

INSTAGRAM – https://www.instagram.com/tamara_franklinn/

SPOTIFY – https://open.spotify.com/artist/5Y9dtVLdhTkabuDGfFgerX?si=yQIoRPYPRYuixSvGh34ZqA

YOUTUBE – https://www.youtube.com/c/TAMARAFRANKLINOFICIAL