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	Comentários sobre: O desenvolvimento do racismo na infância	</title>
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	<description>Informação para fazer a cabeça</description>
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		Por: julianaferrari		</title>
		<link>https://blogueirasnegras.org/o-desenvolvimento-do-racismo-na-infancia/#comment-4100</link>

		<dc:creator><![CDATA[julianaferrari]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 16 May 2014 18:38:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Peço licença para adentrar este espaço.
Sou uma mulher branca, cisgênero, candomblecista, mãe de um menino negro, de 4 anos de idade. Sou mãe adotiva e, muito embora eu seu pai sejamos brancos, acreditamos que temos o dever de construir sua identidade racial de forma adequada e positiva, e lutar, não só por ele, mas por todas as crianças negras, contra o racismo.  Assim me posiciono sabendo que entre as brechas do texto a seguir pode haver falhas no discurso, me desculpo por elas de antemão, mas peço por favor atenção ao relato que segue, pois embora pareça absurdo, por eu ser uma mulher branca, este espaço das blogueiras negras é um dos poucos espaços onde eu tenho encontrado fontes irmãs de consolo, em minhas leituras, para a criação de meu filho negro, e o texto de Gabriela hoje veio a calhar – até porque todo mundo acha, como vocês bem sabem, que a gente vê racismo em tudo...
É o que segue:
Saí, dia 14 de maio de 2014, perto das 16 horas, para pegar meu filho de 4 anos na Escola e leva-lo ao Teatro. Havia comprado antecipadamente ingressos para assistir aos Espetáculos do Palco Giratório do SESC, em Porto Alegre. Comprei diversos ingressos. Alguns para os Infantis. Raras são as oportunidades de ver espetáculos teatrais Infantis de boa qualidade, não pertencentes ao Main Stream dos grandes musicais, e com excelência para estarem em circulação nacional através do Projeto do SESC. 
Tratava-se de “O mistério da bomba H” do Grupo Oriundo de Teatro, de Minas Gerais. O ticket do ingresso dizia que o espetáculo era para a faixa etária de 4 anos. Além disto o Teatro é minha casa, e senti um prazer particular em pegar meu filho na Escola antes do horário para leva-lo ao meu trabalho, de uma certa forma, meu refúgio, o Teatro, aquilo que povoa suas fantasias sobre o que o Pai faz quando não está com ele, quando ele pergunta onde está e dizemos de um ou do outro, está no Teatro, está ensaiando, está dando aulas de Teatro...
Num primeiro momento um elenco de galinhas, nada demais, espetáculo mineiro, coisa e tal, observei o sotaque, os figurinos, a plateia. Fiquei e fico sempre feliz de ver o teatro cheio de crianças da escola pública. Uma média de idade entre 7 e 9 anos. Dentre estas crianças uma série de crianças negras, como meu filho. Até então nada demais, continuo observando, cenário, luz, logo vi que havia um ator negro em cena, e gosto disto, não posso negar que eu gosto de ver atores negros em cena, na tv, no cinema, ou no teatro. É uma representatividade rara e importante, ainda que se veja quais papéis estão a assumir nas narrativas. Eu sei o quanto o interesse de meu filho se aguça quando um programa infantil tem um ator negro, e que ele se sente representado, de alguma forma, ainda muito em formação no consciente dele, ele já percebe que isto faz diferença em cena e que há ali uma representação com a qual se identifica.
Passados alguns minutos, galinhas em cena, e eis que surge a primeira surpresa desagradável, o ator branco que faz o prefeito da tal cidade de Galinólpolis (ou coisa que o valha) chama a Galinha interpretada pelo ator negro de “Galinha de despacho”. Meu sangue gelou por dentro. Algumas risadas na plateia (o efeito esperado era este). Pensei naquelas crianças todas assistindo, nas negras, e nas brancas, neste Rio Grande do Sul horripilantemente racista, e na justificação de um xingamento que, sabemos, as crianças negras ali presentes muito ouvem, ou, se não ouvirão, certamente, na Escola, a partir daquele instante.
Como havia entrado alguns minutos depois do início do espetáculo olhei para a porta, estava difícil de sair. Havia criado expectativas em meu filho para ver o “Teatro”, e agora? O teatro tem mais força do que a TV, o cinema, é ao vivo, de carne, de ossos, e cabelos, cores e cheiros. A cabeça começou a ferver mais e mais. E as crianças? O que as professoras que os acompanhavam, a maioria brancas, iam fazer com aquilo? 
Passam mais alguns minutos e a filha do prefeito resolve consultar uma cartomante para saber onde está a Bomba H (título do espetáculo). Entra em cena uma galinha vidente espanhola estereotipada. Depois de mais alguns minutos ela chama um “assistente”. Entra a galinha feita pelo ator negro. Desta vez ele está travestido de alguma coisa que eu identifico como o estereótipo da galinha de despacho, ou um urubu. Com um figurino muito feio, de penas pretas escuras plastificadas, ele faz trejeitos que remetem aos cultos afro brasileiros. Usa uma gravata vermelha.  Se sacode. É o assistente da cartomante enganadora. Os dois malandros fazem par. A espanhola bate nele muitas vezes, muitas vezes. Um dos outros personagens diz que ele fede. Não entendo porque ele apanha tanto no enredo. Quer dizer, entendo, e sei o porquê. A polícia é chamada. Ao perceber a chegada dos “ômi” os dois saem de cena correndo. 
Meu filho pede leite, pede chá, diz que quer ir embora, eu quero também. Começo a ver um jeito de sair dali. Em alguns minutos mais começa uma cena em que é apresentado um anti-herói. Quem o faz é o ator negro. Ele faz todo o repertório da gestualidade heroica de forma ridícula. Sim, talvez um anti-herói possa ser negro, eu particularmente não colocaria um em cena. Neste contexto, no entanto, trata-se de mais um tiro sem misericórdia na autoestima da criança negra. O ator se aproxima de um garotinho da plateia (de cerca de 8 anos), meu filho de 4 me pergunta: “Mamãe, ele é marrom, como eu?” Minha cabeça já doía muito nesta hora. Quem meu filho? (“Não Deus, ele não está perguntando isto”) “O menino, aquele menino” “Sim meu filho, ele é negro, como você” (Ufa, e me iludo, com um “Pelo menos ele não estava perguntando sobre o ator, mas sobre o menino”.) Pelo menos isto, pra me salvar, o ator estava com a cara cheia de pancake claro – nunca pensei que fosse achar isto bom...
“Mamãe, quero ir brincar no parque”
E saímos, pela frente mesmo do palco. Minha cabeça latejando.
Não sei como terminou o espetáculo, não fiquei para ver, ficaria se não estivesse acompanhada de meu filho. Iria conversar com eles, com as professoras, tomar alguma atitude na hora. Esse é meu relato. 
Agradeço a quem o leu até o final.
Juliana Ferrari
Diretora de Teatro]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Peço licença para adentrar este espaço.<br />
Sou uma mulher branca, cisgênero, candomblecista, mãe de um menino negro, de 4 anos de idade. Sou mãe adotiva e, muito embora eu seu pai sejamos brancos, acreditamos que temos o dever de construir sua identidade racial de forma adequada e positiva, e lutar, não só por ele, mas por todas as crianças negras, contra o racismo.  Assim me posiciono sabendo que entre as brechas do texto a seguir pode haver falhas no discurso, me desculpo por elas de antemão, mas peço por favor atenção ao relato que segue, pois embora pareça absurdo, por eu ser uma mulher branca, este espaço das blogueiras negras é um dos poucos espaços onde eu tenho encontrado fontes irmãs de consolo, em minhas leituras, para a criação de meu filho negro, e o texto de Gabriela hoje veio a calhar – até porque todo mundo acha, como vocês bem sabem, que a gente vê racismo em tudo&#8230;<br />
É o que segue:<br />
Saí, dia 14 de maio de 2014, perto das 16 horas, para pegar meu filho de 4 anos na Escola e leva-lo ao Teatro. Havia comprado antecipadamente ingressos para assistir aos Espetáculos do Palco Giratório do SESC, em Porto Alegre. Comprei diversos ingressos. Alguns para os Infantis. Raras são as oportunidades de ver espetáculos teatrais Infantis de boa qualidade, não pertencentes ao Main Stream dos grandes musicais, e com excelência para estarem em circulação nacional através do Projeto do SESC.<br />
Tratava-se de “O mistério da bomba H” do Grupo Oriundo de Teatro, de Minas Gerais. O ticket do ingresso dizia que o espetáculo era para a faixa etária de 4 anos. Além disto o Teatro é minha casa, e senti um prazer particular em pegar meu filho na Escola antes do horário para leva-lo ao meu trabalho, de uma certa forma, meu refúgio, o Teatro, aquilo que povoa suas fantasias sobre o que o Pai faz quando não está com ele, quando ele pergunta onde está e dizemos de um ou do outro, está no Teatro, está ensaiando, está dando aulas de Teatro&#8230;<br />
Num primeiro momento um elenco de galinhas, nada demais, espetáculo mineiro, coisa e tal, observei o sotaque, os figurinos, a plateia. Fiquei e fico sempre feliz de ver o teatro cheio de crianças da escola pública. Uma média de idade entre 7 e 9 anos. Dentre estas crianças uma série de crianças negras, como meu filho. Até então nada demais, continuo observando, cenário, luz, logo vi que havia um ator negro em cena, e gosto disto, não posso negar que eu gosto de ver atores negros em cena, na tv, no cinema, ou no teatro. É uma representatividade rara e importante, ainda que se veja quais papéis estão a assumir nas narrativas. Eu sei o quanto o interesse de meu filho se aguça quando um programa infantil tem um ator negro, e que ele se sente representado, de alguma forma, ainda muito em formação no consciente dele, ele já percebe que isto faz diferença em cena e que há ali uma representação com a qual se identifica.<br />
Passados alguns minutos, galinhas em cena, e eis que surge a primeira surpresa desagradável, o ator branco que faz o prefeito da tal cidade de Galinólpolis (ou coisa que o valha) chama a Galinha interpretada pelo ator negro de “Galinha de despacho”. Meu sangue gelou por dentro. Algumas risadas na plateia (o efeito esperado era este). Pensei naquelas crianças todas assistindo, nas negras, e nas brancas, neste Rio Grande do Sul horripilantemente racista, e na justificação de um xingamento que, sabemos, as crianças negras ali presentes muito ouvem, ou, se não ouvirão, certamente, na Escola, a partir daquele instante.<br />
Como havia entrado alguns minutos depois do início do espetáculo olhei para a porta, estava difícil de sair. Havia criado expectativas em meu filho para ver o “Teatro”, e agora? O teatro tem mais força do que a TV, o cinema, é ao vivo, de carne, de ossos, e cabelos, cores e cheiros. A cabeça começou a ferver mais e mais. E as crianças? O que as professoras que os acompanhavam, a maioria brancas, iam fazer com aquilo?<br />
Passam mais alguns minutos e a filha do prefeito resolve consultar uma cartomante para saber onde está a Bomba H (título do espetáculo). Entra em cena uma galinha vidente espanhola estereotipada. Depois de mais alguns minutos ela chama um “assistente”. Entra a galinha feita pelo ator negro. Desta vez ele está travestido de alguma coisa que eu identifico como o estereótipo da galinha de despacho, ou um urubu. Com um figurino muito feio, de penas pretas escuras plastificadas, ele faz trejeitos que remetem aos cultos afro brasileiros. Usa uma gravata vermelha.  Se sacode. É o assistente da cartomante enganadora. Os dois malandros fazem par. A espanhola bate nele muitas vezes, muitas vezes. Um dos outros personagens diz que ele fede. Não entendo porque ele apanha tanto no enredo. Quer dizer, entendo, e sei o porquê. A polícia é chamada. Ao perceber a chegada dos “ômi” os dois saem de cena correndo.<br />
Meu filho pede leite, pede chá, diz que quer ir embora, eu quero também. Começo a ver um jeito de sair dali. Em alguns minutos mais começa uma cena em que é apresentado um anti-herói. Quem o faz é o ator negro. Ele faz todo o repertório da gestualidade heroica de forma ridícula. Sim, talvez um anti-herói possa ser negro, eu particularmente não colocaria um em cena. Neste contexto, no entanto, trata-se de mais um tiro sem misericórdia na autoestima da criança negra. O ator se aproxima de um garotinho da plateia (de cerca de 8 anos), meu filho de 4 me pergunta: “Mamãe, ele é marrom, como eu?” Minha cabeça já doía muito nesta hora. Quem meu filho? (“Não Deus, ele não está perguntando isto”) “O menino, aquele menino” “Sim meu filho, ele é negro, como você” (Ufa, e me iludo, com um “Pelo menos ele não estava perguntando sobre o ator, mas sobre o menino”.) Pelo menos isto, pra me salvar, o ator estava com a cara cheia de pancake claro – nunca pensei que fosse achar isto bom&#8230;<br />
“Mamãe, quero ir brincar no parque”<br />
E saímos, pela frente mesmo do palco. Minha cabeça latejando.<br />
Não sei como terminou o espetáculo, não fiquei para ver, ficaria se não estivesse acompanhada de meu filho. Iria conversar com eles, com as professoras, tomar alguma atitude na hora. Esse é meu relato.<br />
Agradeço a quem o leu até o final.<br />
Juliana Ferrari<br />
Diretora de Teatro</p>
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