No dia 25 de Julho, uma voz da Guiana: a poesia de Grace Nichols

No dia da Mulher Afro-Latino Americana e Caribenha, é de suma importância refletir sobre a invisibilização desse grupo de mulheres em diversos setores da sociedade, destacando-se dentre eles o setor acadêmico e literário. Quantas escritoras pertencentes a esse grupo conhecemos? Quantas podemos nomear? Quantos livros delas já lemos? As respostas a essas perguntas podem nos levar a concluir que talvez existam poucas, porém basta fazer uma pesquisa para descobrir que há muitas, mas que o sistema machista e racista insiste em invizibilizá-las, não fazendo divulgação de seus trabalhos nem os traduzindo.

Dentre diversas escritoras, destacamos Grace Nichols, uma poeta e romancista guianense que atuou como professora e jornalista antes de se tornar escritora e que é um dos principais nomes da poesia feminina em seu país, embora resida atualmente na Inglaterra. Sua obra é influenciada pela tradição oral, pelo folclore caribenho, africano e ameríndio e pela história da escravidão. Ela escreve tanto em inglês quanto em crioulo. Após a mudança de país, Grace começou a escrever também sobre questões femininas e de imigração num momento em que havia muita discussão sobre esse assunto e um clima instável para imigrantes.

Embora a Guiana faça fronteira com o Brasil, devido a questões econômicas e relações de poder, esse país não é considerado como pertencente à América Latina, mas ao Caribe. Ex-colônia britânica, os guianenses ainda são muito dependentes da cultura do Reino Unido e muitos se mudam para lá para estudar e para se estabelecer definitivamente.

Voltando a Nichols, podemos dizer que uma de suas obras mais importantes é a publicação “The Fat Black Woman”, que aborda questões referentes à imigração de mulheres guianenses no Reino Unido e mostra os embates culturais entre África e Europa.

O poema a seguir reflete uma das dificuldades encontradas pelas imigrantes na Inglaterra. Não há nada que fique bem em seus corpos, há roupas apenas para mulheres magras, esguias. Não há espaço para sua estética, e a poeta faz essa crítica de uma forma sagaz e irônica.

A negra gorda indo às compras

Comprar no inverno londrino

é um porre para uma mulher negra

indo de loja em loja

em busca de roupas confortáveis

e tão frio lá fora

Observa os manequins gelados e magricelos

olhado para ela sorrindo

e os lindos rostos das vendedoras

trocando rápidos olhares

achando que ela não percebe

O senhor está injuriado

Nada macio, reluzente e volumoso

para fluir a luz do sol ventosa

quando ela passa

A negra gorda xinga em Suahili/Iorubá

e línguas nacionais sob sua arfada

toda essa pernada

A negra gorda chega à conclusão

que quando se trata de moda

a escolha é esguia

Nada além do 42

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