A pergunta é: de que Maid estamos falando?

Porque ficamos tão tocadas e invocamos nossa sororidade, nos sentindo tão atravessadas quando deparamos com uma mulher branca de olhos claros, com uma menina tão linda e tão clara quanto ela, enfrentando um dia duro de faxina para sobreviver?

Maid fala do que acontece todos os dias nas periferias, morros, comunidades e favela do Brasil inteiro, o seu diferencial é que coloca diante dos nossos olhos uma situação/cena/circunstância que não encaixa em nossas retinas, Alex é uma mulher branca ajoelhada esfregando o chão e passando pelas humilhações tão comuns a vida das empregadas domesticas.

Histórias Cruzadas, produção cinematográfica de 2011 que tem uma das personagens protagonizada pela a maravilhosa Viola Davis e se passa no Mississipi nos anos 60, fala do trabalho doméstico através da trajetória de uma série de mulheres negras que deixam suas casas para trabalhar e criar os filhos das mulheres brancas da elite da cidade de Jackson.

Um filme brasileiro que fala do mesmo assunto, mas por outro viés é “Que horas ela volta” com a Regina Casé. Ele vai contar a história de Val, uma mulher negra nordestina, que vem trabalhar como doméstica em São Paulo para sustentar a filha que fica pra ser criada pela avó, no interior de Pernambuco.

O trabalho doméstico, nos moldes que a série mostra e é notabilizado pelos dois filmes citados, é inaugurado na casa grande, em última análise Maid se “apropria” de um legado de trabalho e dor vivido por mulheres negras aqui e nos Estados Unidos, nos últimos 500 anos.

O atlas da violência mostra que enquanto os números da violência contra mulheres brancas caíram, os percentuais numéricos sobre as mulheres negras dobraram, inclusive durante a pandemia. Essa é a realidade de grande das mulheres negras que vivem no Brasil. A violência transpassa e mata os corpos femininos, a construção patriarcal da sociedade nos coloca, enquanto mulher em desvantagem, mas considerando um contexto histórico, podemos perceber que as violências estruturais atingem quem tem acesso a políticas públicas insuficientes de segurança, assistência social, saúde e educação, ou seja, atingem quem está na base da pirâmide social, as mulheres negras.

A violência de gênero e dependência financeira, como assinala a série, atingem todas as mulheres em maior ou menor grau. O fato é que as violências têm sua raiz na organização da estrutura social e esse sistema da maneira como está disposto atinge com mais intensidade física, psicológica e emocionalmente as pessoas em situações de mais vulnerabilidade.

Hierarquizar as dores, não é a intenção, menos ainda a resposta, em uma sociedade patriarcal e capitalista, todas sofremos, sem exceção, entretanto, fatores como escravidão e trabalho se não forem levados em consideração nas análises sobre violência e emancipação das mulheres, seja aqui ou nos Estados Unidos, incorremos no erro de permitir humanidade e valorização dos corpos das mulheres brancas que hoje exercem esse trabalho e a desumanização e desvalorização dos corpos das mulheres negras que desde que aqui chegaram exercem essa mesma função.

Vale lembrar que PEC das domésticas, que regulamenta a profissão entrou em vigor somente 2015 e com grandes dificuldades, porque garante direitos como registro em carteira e cumprimento de todas as obrigações trabalhistas, e ainda hoje encontramos mulheres trabalhando em condições análogas e escravidão, mulheres essas na sua maioria negra.

Nossa afetação se concentra naquilo que pouco ou nada imaginamos, mas principalmente no que naturalizamos e nesse caso a condição das mulheres negras, ninguém sofre mais ou menos e sim a violência atinge com mais intensidade a quem o estado não enxerga.

A noção de violência contra mulher precisa ser ampliada e ter olhos de ver e sentir todas elas na mesma intensidade e com a mesma comoção é o que pode romper o silêncio da sociedade e principalmente é o que pode salvar vidas!

Referência

TEIXEIRA, Juliana. Trabalho doméstico. Feminismos plurais. Coordenação: Djamila Ribeiro. Editora Jandaíra. 2021.

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