As novas cores da escravidão

Andar pelo centro de São Paulo sempre foi uma experiência multicultural interessantíssima, a megalópole híbrida e miscigenada se descortina diante de nossos olhos fascinados com a imensa diversidade do “País de Todos”. Obviamente é preciso ter olhos muito incautos ou ser extremamente indiferente à injustiça para manter esse deslumbramento por muito tempo. Na verdade temos a cada esquina, como é característico das grandes cidades no nosso mundo capitalista, a desigualdade e a verdade sobre o que significa ser um país miscigenado e diverso, ou seja, um antro de injustiça social e preconceitos. As esquinas, viadutos e barracos improvisados da cidade carregam a cor da noite e nos faz lembrar a História que ainda está sendo escrita e reescrita com sangue africano.

Quem anda pelas ruas do centro já deve ter notado uma presença estranha e constante, negros ainda mais negros estão lotando as ruas, não por acaso, continuam nas esquinas, becos e vielas junto a seus irmãos e irmãs da Diáspora. Há tempos ouvimos o argumento de que a escravidão negra foi igual ao processo de imigração europeia, que os pobres brancos europeus sofreram as mesmas agruras que os escravizados africanos e superaram porque quiseram e conseguiram, enfim toda aquela conversa eugenista, modernamente chamada de meritocracia, que já conhecemos.

O fato é que nos dias atuais estamos vendo essa lenda sendo revivida. O Brasil se tornou uma grande potência econômica e consequentemente um destino interessante para imigrantes africanos e haitianos. Fugindo da miséria e violência de seus países eles chegam em busca de abrigo e oportunidades no berço da democracia racial. Os defensores da meritocracia e das maravilhas do mundo de oprtunidades e mobilidade social do capitalismo vão dizer que eles fizeram uma escolha e devem arcar com as consequências de sua falta de formação, suas dificuldades com idioma, pouca ou nenhuma experiência profissional, que seriam os subempregos ou a criminalidade para os fracos que não querem e por isso não conseguem.

Esses cidadão de bem, quando muito, serão capazes de entender que os imigrantes europeus puderam escolher vir para o Brasil e fugir da miséria em que se encontrava a Europa pós Primeria Guerra e vão se vangloriar de sua capacidade intelectual ao perceber que a imigração africana e haitiana atual tem as mesmas características.

Não serão capazes de avançar na compreensão do processo histórico e entender que o caos do continente africano é consequência dos constantes processos de colonização e expropriação financiados pela dominação branca. Não serão capazes de problematizar o simbolismo de levar à miséria total o único país que se tornou independente e livre por meio da luta e organização negra, matando a importância histórica e política da Revolução Haitiana. Não serão capazes de enxergar o que há de estrategicamente cruel em mostrar, contemporaneamente, a incapacidade negra de se governar e aproveitar a suposta liberdade e igualdade de direitos que a falsa abolição ofereceu.

Para essas pessoas, africanos e haitianos devem ser gratos por receberem nossas migalhas, afinal já se convenceram de que não têm qualquer responsabilidade pelo massacre da população e da cultura negra. Já superaram as dores da escravidão e deixaram para sentí-la somente nas telas de cinema e depois fruir aquelas sensações em seus cafés e bares cercados de intelectuais dedicados a lutar contra o racismo de dentro do aconchego de suas bibliotecas e a partir de seus copos de cerveja.

A essas pessoas precisamos dizer que a escravidão não é uma lembrança distante para o povo preto ou um simples tema de pesquisa, ela é uma realidade que vem se atualizando e adequando às características e necessidades do momento histórico. Hoje a chibata que os senhores entregavam nas mãos de outros pretos para nos torturar são as armas que a elite entrega para policiais, muitos deles negros e negras, treinadxs como cães para caçar e matar seus irmãos e irmãs, tal qual os capitães do mato de seus livrinhos de história. Os navios negreiros são as classes econômicas de aviões carregados de homens e mulheres que buscam o “Sonho Americano” e recebem senzalas embaixo de viadutos, em quartinhos de empregada, em celas super lotadas ou em valas comuns enterrados como indigentes ou desovados como criminosos.

Ver as ruas do centro de São Paulo cheias de africanos, ouvir o som do crioulo, aquelas vozes que nos remete a uma nostalgia difícil de explicar é bonito e reforça meus laços com a África ancestral que nasceu em mim. Mas a realidade que o racismo continua oferecendo para meus irmãos e irmãs não permite que eu me mantenha contemplativa e deslumbrada com cores e sons. É preciso levantar e lutar por uma verdadeira abolição e pelo reconhecimento e reparação do crime que cometem contra nós diariamente.

Imagem destacada: Imigrantes haitianos no Acre. Blog Outras palavras.

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