As trajetórias das mulheres negras como instrumento de luta antiracista

O reconhecimento das trajetórias de mulheres negras como instrumento de luta antiracista.

Mulheres negras não pensam na própria trajetória, me dei conta disso depois de ouvir a apresentação feita sobre mim, pela mediadora de uma roda de conversa que participei. “Mãe do Davi, feminista negra, educadora social, idealizadora do Projeto Enegrecendo que promove a ocupação dos espaços de empoderamento com a população negra, sobretudo das mulheres negras. Gestora pública com atuação em diversos espaços públicos nos estados de SP, Bahia e Rio de Janeiro.”

Esse fato diz muito sobre nós, mulheres negras. Nós fazemos muitas coisas e no caos do cotidiano, não nos damos conta do quanto isso é importante. Colocamos tudo que diz respeito ao nosso dia a dia, na conta “do que é preciso fazer” para que possamos garantir a nossa sobrevivência e a sobrevivência dos nossos.

Um dos primeiros aprendizados nessa pandemia é que eu sou feita de histórias. Nós mulheres negras temos trajetória. Somos mais do que um currículo a ser apresentado. Temos um trajeto construído desde que aportamos de África aqui. Ter consciência desse caminho faz toda diferença na vida das mulheres negras, essa tomada de consciência é que nos fortalece. A maturidade me traz para esse lugar e meu desejo é que ele se torne chão para tantas quantas queiram trilhá-lo.

Ter a oportunidade de olhar para meu itinerário através da trajetória de outras mulheres negras, é a chance de compreender a necessidade de olhar para mim e para elas e entender como é urgente estarmos em redes. Porque as trajetórias das mulheres negras são muito parecidas. Morar no Japão, no Amazonas ou no Chile diferencia muito pouco quando olhamos as violências que nos atravessam. Coincidências?

Absolutamente, o racismo existe em maior ou menor grau, mais refinado e diluído ou não, nas formas como ele atinge as nossas vidas, em qualquer lugar que estejamos e em qualquer cargo que ocupemos. Tem sempre alguém para nos lembrar que somos mulheres negras. Mesmo hoje em dia e talvez de maneira mais contundente e violenta, sempre vai existir um dedo a nos indicar a porta do elevador, independente do nosso currículo, como se aquele lugar, não nos pertencesse.

A melhor forma de enfrentamento a essa postura da sociedade em relação aos nossos corpos é a nossa trajetória. Saber de onde viemos, mas principalmente, pode parecer clichê, saber que juntas vamos mais longe. Nós não precisamos ir rápido, mesmo porque a trajetória do povo negro não é de rapidez, muito pelo contrário, são passos lentos, exatamente por ser devagar, ela vai sendo sedimentada a cada dia.

O enfrentamento do racismo não é uma batalha da população negra. Precisamos ampliar esse debate e tirar essa responsabilidade das nossas costas, sobretudo da conta das mulheres negras. Esse enfrentamento é de todos, parte significativa dessa responsabilidade é da branquitude.

Entender as formas como o racismo se instala em nossas vidas e como ele se organiza sócio, político e culturalmente, não é uma tarefa exclusiva do povo negro. É uma tarefa de toda sociedade e nesse momento começa pela branquitude.

Porque nós sabemos como o racismo opera, porque passamos por ele todos os dias. Nós temos filhos, parentes, vivenciamos toda uma família negra que passa por episódios de racismo cotidianamente, ou seja, o povo negro já entendeu como o racismo funciona e como ele vem desenvolvendo praticas cada dia mais refinadas de nos dizer onde é nosso lugar.

Então essa não é uma lição a ser aprendida pelo povo preto, não é um aprendizado para nós, muito pelo contrário, essa é a lição de casa que a branquitude precisa entregar a história para transformar a sociedade.

Nós podemos continuar fazendo o que estamos fazendo, nos organizando em redes, em movimentos de mulheres negras, reivindicando nossos lugares de fala e de atuação, bom isso nós fazemos desde que chegamos sequestrados de África.

Esse é um momento da branquitude vestir sua responsabilidade nesse quesito e abrir seus sentidos, para os caminhos que nós homens e mulheres, negros e negras, estamos indicando para erradicação do racismo.

É urgente dizer que a branquitude tome consciência da sua responsabilidade e do seu papel nesse combate ao racismo. Existe uma necessidade urgente da branquitude ler a história do Brasil, agora contada a partir das nossas perspectivas de trabalho, sociedade e convivência.

Esse é um momento de mudar as estruturas, de nossas vozes exigirem nosso lugar nas estruturas de poder e nossos saberes remodelarem os saberes que matem o status quo. Dizer que estamos aqui para decidir. Porque é sobre as nossas vidas que recaem o desgoverno, o desmonte dos serviços públicos e o abismo que nos separa do acesso ao bem viver.

Passou da hora da sociedade que vivemos entender que deixamos de ser figurantes da realidade brasileira, porque somos seus construtores. A mão de obra escrava ergueu a economia e a ancestralidade moldou e organizou a cultura. Foram o sangue e o suor do povo negro que nutriram essa terra e a tornaram férteis, apesar dos pesares.

Quem sangra o solo brasileiro é a branquitude e seus desmandos, na medida que essa mesma branquitude entender que é sobre isso que falamos as possibilidades de avançarmos ganha outra dimensão.

Nós, povo negro por uma questão de sobrevivência chamamos essa responsabilidade para nós, a responsabilidade do combate ao racismo e temos exercitado incansável e cotidianamente trabalho para alcançar a transformação.

Um simples desenho da linha histórica do povo negro é capaz de mostrar que estamos em constante movimento. As revoltas e rebeliões, o MNU, os diversos movimentos de mulheres negras, culminando nas eleições de uma centena de mulheres negras nas câmaras legislativas.

Essa linha histórica atesta que estamos desde sempre mostrando à sociedade brasileira a necessidade da sua conscientização sobre nosso papel, como base constituinte da nossa sociedade.

Esse é o momento de jogar no colo da branquitude sua responsabilidade em transformar esse país num lugar justo e igualitário e para isso é preciso que ela saia dos lugares institucionalizados em que ela insiste em permanecer reverberando a opressão.

O fato de termos um mundo mais moderno, que nos liga com rapidez uns aos outros, quer dizer que temos um mundo que nos protege, nos acolhe ou que nos permite ter liberdade?

Pra ser livre as liberdades básicas de acesso precisam fazer parte do cotidiano do povo negro e para isso o reconhecimento da força e beleza da nossa trajetória se faz necessário por nós, o melhor lugar para morar é nos olhos daqueles que podem nos fortalecer a caminhada.

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