Carta pra Inaê

Outubro de 2021, lua cheia

Não coincidentemente fui encontrar os Rios Negro, Solimões e Amazonas. Um encontro das águas.

Você, signo de ar, nasceu Inaê. A calmaria que faltava para um ano tão turbulento, sofrido, de perdas e recuperações. Seu avô está bem agora, e seu tio recuperado. Seu pai também tinha adoecido, mas a nossa fé transformou tudo.

Você nasceu no ano que o Brasil completou 600mil mortos por covid, e tem uma gente dizendo que isso não é genocídio. Infelizmente, você vai saber disso muito cedo, afinal, sua mãe e seu pai são negros da Bahia. 

A sua família é linda, feliz e unida, apesar de muito sofrimento por nós sentido, perpetrado nessa sociedade. Ela não está pronta nem pra você nem pra Helena, sua prima que também acabou de nascer – essa lá no rio de janeiro.

Vocês nasceram numa época em que as pessoas discutem raça, mas ainda fazem pouco para que a gente não sofra. Não queria te dizer isso, mas parece que como não vai ter fim, você precisa saber que um dia já foi ruim, mas que lutamos para que hoje você possa ler isso de algum lugar que é com certeza melhor do que já foi pra suas avós.

Te pegar no colo depois de mais de 20 anos de ter pegado seu pai no meu colo foi a sensação mais louca, emocionante e feliz que eu já senti. Enquanto sua vó conversava coisas engraçadas, eu ria com você bem encostadinha na minha barriga e você sorriu de volta. De olhos fechados!

Queria mantê-la assim para que você não pudesse ver a maldade, a mentira, as violências. Tudo o que quero agora é continuar as coisas pra que você possa ter orgulho depois: saber de onde você vem, quem foram suas bisas, suas avós. Nossa perpetuação em você aquece meu coração num nível que só pode ser amor.

Inaê, você veio calma e dengosa e tudo o que a gente quer é que tenhas as melhores experiências nessa vida tão complicada e doida. Seu povo é numeroso, alegre, inteligente, ousado e tem tudo o que você precisa para ser feliz. Como a felicidade que exala de você.

Só tenho pedido para que as deusas e deuses te abençoem abundantemente. Que você cresça sem conhecer a fome – essa que tem assolado nosso país desde que alguns homens nefastos assumiram o poder. Que você e Helena conheçam a solidariedade, o respeito aos mais velhos e mais novos, a justiça e a felicidade!

Você é nosso sonho mais lindo. Nossa alegria em meio a tanta desesperança! E por você queremos nós, as suas tias, mulheres negras, fazer o nosso melhor.

Seja bem-vinda.

You May Also Like
Leia mais

Ubuntu para quem é de ubuntu

Sobre o argumento de que a série é o espaço onde as atrizes e atores negrxs teriam a ocupar e que a não renovação de contrato para produção da mesma diminuiria o espaço da comunidade negra na teledramaturgia brasileira, a pergunta principal é: o espaço dx negrx na teledramaturgia brasileira já não é limitado a realizar papéis segundo alguns esteriótipos?