Emicida: fazer música é brincadeira?

Por Larissa Santiago e Zaíra Pires para as Blogueiras Negras

Escrevemos a quatro mãos porque a porrada foi forte. Escrevemos porque não conseguimos parar de pensar em feminismo, violência, opressão. Sim, Senhor Emicida, diferente do que você afirmou nessa entrevista, a gente (as duas blogueiras que assinam, toda a comunidade Blogueiras Negras e todo um coletivo de mulheres, negras ou não, que se sentiram violentadas com sua música e que combate machismo e racismo TODOS OS DIAS ostensivamente) nunca parou de “falar no tema”. Violência, assédio, morte e misoginia são nossas pautas de todos os dias – e quem sabe do que estamos falando vai vir aqui comentar e dizer o quanto esse assunto mina as nossas conversas e bate papos informais. E isso só acontece, meu irmão, porque esse assunto nos incomoda, assim como a ‘Trepadeira’ incomoda Luana, assim como nos incomodou sua entrevista e cada palavra em sua resposta no vídeo.

Em que momento dizer que ‘Trepadeira’ sugere violência contra a mulher é distorção? Se dizer que uma mulher que tem comportamento sexual livre e autônomo deve apanhar não é violência contra a mulher, então me diga o que é.

É só observar a letra:

Minha tulipa, a fama dela na favela enquanto eu dava uma ripa
Tru, azeda o caruru
E os mano me falava que essa mina dava mais do que chuchu
(Eita nóis, aí é problema, hein, cê é louco)
[…] Merece era uma surra de espada de São Jorge
Um chá de Comigo Ninguém Pode

Difícil é entender qual parte da letra não perpetua o machismo. Difícil é conseguir destacar uma frase para ilustrar esse post. Dava para colar toda a letra, um festival de juízos de valor moralistas e equivocados contra uma mulher de sexualidade livre, que não se sentiu na obrigação de pagar uma dívida de fidelidade a um homem que estava “dando sol e água” a ela. Conhecemos de longe essa relação de que, se o cara paga a conta, temos que transar com ele, ou seremos tachadas de piranha interesseira. Se bem que, mesmo que transemos, seremos chamadas de piranha, porque “cedemos no primeiro encontro”. Se o cara é legal, temos que ficar com eles, só com eles, obrigatoriamente? Que século é hoje?

Dizer que Dicró e Moreira da Silva compunham letras machistas não o isentam, Emicida, pela sua composição. Felizmente, estamos, como seres humanos, em um processo contínuo de aprendizado, e uma das nossas principais ferramentas para isso é observar o passado e NÃO COMETER OS MESMOS ERROS que nossos antecessores. Se outros artistas foram opressores nas suas obras, isso não é premissa para que o sejamos, mas, pelo contrário, tendo a oportunidade de analisar criticamente suas produções, devemos buscar não repeti-las.

Você sabe, meu caro, a música – tal como as artes todas, a publicidade e o humor – não está acima do bem e do mal. Não há canção “descompromissada”, afinal ninguém compõe em Marte para avatares, não é? A música é feita em um momento histórico, sobre um contexto, e valida determinado juízo de valor. É formadora e validadora de opinião e seu discurso pode ser mais danoso conforme está na boca de pessoas que tem apelo coletivo, como você tem com relação aos nossos jovens negros e pobres que não encontram voz e identidade em outros espaços.

Lembra de quando você utilizou esse mesmo argumento pra criticar os quadros de humor da Rede Globo e dos humoristas? A arte tem seu papel social e é exatamente assim com o Rap, que é compromisso (como já dizia nosso querido Sabotage). Não se faça de bobo e meta os pés pelas mãos ao querer tornar isenta sua poesia só porque ela é sua e tem como chanceler Wilson das Neves.

E quanta má-fé existe na oposição entre machismo e feminismo como se fossem duas forças iguais e opostas? Machismo é opressão do gênero feminino pelo masculino e toda uma sistemática que colabora para isso. Feminismo é um movimento de igualdade e libertação desses padrões de gênero. Um oprime e o outro liberta. Em que momento eles são equivalentes? Usar esse argumento, se não é ignorância, só pode ser má-fé. E no seu caso, ficamos com a segunda opção.

E claro, apesar de serem as mulheres as vítimas da violência machista, quem somos nós para apontar o machismo onde quer que seja? É isso que você diz quando afirma que Luana – e todo o contingente de mulheres negras que ela representa e que estão indignadas com sua produção – só te fez essa pergunta porque ela não entendeu a música. Nós nunca entendemos nada mesmo, não é? Mulher não foi feita para entender, afinal, foi feita para enfeitar e apanhar. Aliás esse é o argumento do opressor quando a gente identifica racismo, lembra? Será que você pode identificar relação entre essas falas ou ainda vai dizer que estamos loucas?

É incrível como cada uma das suas palavras nessa entrevista, cada uma das suas frases, resulta em mil argumentos diferentes para tentar explicar o quanto sua música é machista e o quanto sua resposta é arrogante, cruel e opressora. O Rap é machista como toda a sociedade é machista? Foi mesmo da sua boca que ouvimos isso? Quer dizer, “fodam-se as mulheres, nossas companheiras de luta, metade da população do país, boa parte das consumidoras do meu trabalho. Isso não importa, porque a gente é machista mesmo. Aliás, nosso machismo veio do leitinho da mamãe, somos inocentes nesse assunto”.

Porque precisamos ouvir isso de você? O quanto entristece, fere e magoa ver um dos nossos perpetuando esse discurso violento, displicente e desonesto a respeito da nossa luta. Nossa voz serve para engrossar seu coro mas não serve para gritar nossas próprias demandas?

Outra coisa que é bom escurecer: falar que as mulheres “permitem que o machismo exista” é a mesmíssima coisa de dizer que “os próprios negros são os maiores racistas”. Essa é a estratégia do machismo como sistema: fazer a gente acreditar que as mulheres são os maiores vetores da opressão (e por isso os piores). A gente não acredita nisso e nem vai permitir que essa ideia se propague. Nós somos vítimas, somos parte do jogo, mas não queremos mais ser essa peça manipulável e é justamente por isso que estamos aqui criticando ‘Trepadeira’, desnaturalizando a violência, analisando e desconstruindo seu discurso. Se sua mãe, assim como as nossas, te ensinou algo que está de acordo com o machismo é porque ela não teve escolha – nem mesmo sabia porque estava fazendo. E isso não te dá direito nem imunidade de ter atitude machista (não queira jogar nela a culpa e responsabilidade da sua poesia).

Nosso discurso não tem seriedade? Sério é você, que grava essa música danosa e vem dizer que é brincadeira? É você que está combatendo o machismo por nós? Pois então CALE A BOCA! Cale-se, porque, além de sermos as protagonistas da nossa luta, não precisamos do seu discurso distorcido e desonesto para dizer o que devemos ou não pensar, pelo que devemos ou não lutar.

O machismo tem sido combatido com seriedade e questionar o que nos é imposto não é brincadeira – a não ser que você esteja de brinks no rap, fazendo poesia só por diversão! O que a gente combate é o machismo, ninguém quer destruir, crucificar ou apedrejar Emicida, não mesmo, o objetivo não é você, nosso foco sempre foi e sempre será o sistema. O que gostaríamos de ver mesmo é um sincero pedido de desculpa e admissão do erro cometido (coisa que não aconteceu até hoje).

Você não precisa escrever um rap contra homofobia e por nele versos que exaltam a diversidade sexual, basta não fazer uma música homofóbica! Basta não “agredir” o duelista na rinha chamando ele de viadinho. Não precisa fazer um rap exaltando a mulher ou a luta feminista, basta riscar da sua carreira a música ‘Trepadeira’ e NUNCA MAIS cometer esse descabido ato de acreditar que o eu lírico te dá licença poética para ser feminicida. Lembre-se de onde veio, do seu compromisso. Ou será que você já está achando confortável ceder ao sistema?

Foto: falacultura.com.br Feministas protestam contra a música 'Trepadeira' em frente à casa de show onde ocorria apresentação de Emicida
Foto: falacultura.com.br
Feministas protestam contra a música ‘Trepadeira’ em frente ao SESC Pinheiros, em São Paulo, onde ocorria show de Emicida, em setembro de 2013.
You May Also Like

Editorial – O racismo (des)velado ou Quantas bananas vc quer pra deixar essa estória pra lá?

Nesse caso se aplica uma famosa máxima, só que de um jeito bom – eles não sabem com quem estão mexendo. Sozinho, Thiago Ribeiro conseguiu que tantos racistas deixassem o anonimato que dá até gosto de se ver num país que não reconhece seus privilégios e desigualdades. Ele fez o convite – “Este espaço é destinado a Racistas. Entre, fique à vontade e tire sua máscara! Você não está sozinho!” e muitos atenderam prontamente. É o espetáculo do racismo desvelado, avatar por avatar. Pensaram que iriam calar a vítima com seu rugido. Ledo engano. Apenas demonstraram sua fragilidade diante Oxaguian, esse que habita os corpos daqueles acostumados desde sempre a matar um leão por dia.
Leia mais

Ah, sim, dentro da caixa? Uma banana!

Mas eu nasci machista? Não. Ninguém nasce machista. Antes eu era até bem crítica. Eu posso ir até onde minha memória consegue se lembrar de quando eu era criança, e dizer que nem sempre minha visão foi assim esquisita. Ela foi moldada por uma concepção machista não só de mulher, mas de ser humano mesmo. Eu sentia calafrios quando alguém, mecânica e originalmente, completava com um infame “cravo e canela?” quando eu respondia que meu nome era Gabriela. A parte de mim que se encantava momentaneamente por ser comparada a uma personagem de novela sorria e dizia, meio sem graça, “sim!”.

Sociedade capitalista, racismo e sexismo: a importância da autocrítica feminista

Nas décadas de 1970 e 1980 feministas negras como Angela Davis, bell hooks e Lélia Gonzalez já apontavam que a luta antirracista é indissolúvel da luta de classes. A recusa de feministas em reconhecer outras experiências de mulheres (que não as brancas, universitárias e de classe média) suprimiu a conexão entre raça e classe, escamoteando a situação de privilégio de um seleto grupo de mulheres forjado pelo discurso da “opressão comum”.