Equilibrando amor e raiva: destruindo a máquina colonial

Minha intenção inicial era escrever sobre asfixia como metáfora para o peso do silenciamento diante dos instrumentos de tortura coloniais que ferem nossa boca e impedem o som de nossas vozes de ecoar. E aí a circulação de ar foi interrompida no corpo George. E Miguel também. E João Pedro, Rodrigo, João Vitor, Iago… E aí esta figura de linguagem, a metáfora da asfixia, se tornou literal. A brutalidade do real foi sentida como veneno preenchendo os pulmões. Tentei desviar o rumo da caneta das palavras fundamentada em terror colonial, porém toda vez que tento terminar frases de cura sinto a caneta explodir em minha mão e jorrar sangue no papel. Um jorrar de raiva. As palavras têm se escritos sozinhas nos últimos tempos, pois estão sendo movidas pela raiva. Quando olho os rabiscos no papel, o “mover da dor para o poder” falado por bell hooks parece distante agora. Tais escritos de quarentena estão próximos mesmo é de crônicas de ódio, crônicas de raiva. 

Eu pensei não haver mais nada a escrever sobre raiva. Não queria mais escrever sobre raiva, mas ela me transborda. A raiva é uma constante. A raiva permeia a minha escrita, minha fala, meus sonhos. Você pode senti-la, é quase palpável.  Pelo menos foi o que meus pais disseram ao lerem algo que eu estava escrevendo há uns anos atrás. A primeira observação que meu pai fez ao ler tudo aquilo foi que escrevia bem, mas eu havia escrito com raiva. A minha escrita estava imersa em raiva. Mesmo ao falar de amor ali havia raiva. Nós somos impulsionados pela raiva.

Recentemente eu redescobri um livro da  bell hooks chamado Killing Rage Ending Violence (Raiva que mata, terminando a violência, em tradução livre) na minha estante. Só naquele momento eu parei para perceber que aquele livro era dedicado a discutir a raiva. A raiva intitula sua obra. Nele, ela fala dos desdobramentos da raiva do mundo branco e a “raiva negra”. Este último emerge do asfixiamento contínuo sofrido pela população negra e indígena por estar enclausurada nesse mundo branco. Ela percebe como essa “raiva negra” é patologizada pela mídia branca. E por que? Porque eles temem a raiva negra. Um medo de se confrontar como sujeito agente da violência. Um medo de que a raiva negra se torna o que a autora chama de “raiva militante”, que impulsione uma investida negra contra os mecanismos de exploração e dominação que operam a favor do grupo racial branco. 

Depois de encontrar este livro eu percebi a quantidade de intelectuais negros que se dedicaram a debater a raiva. Malcolm X, Nina Simone, James Baldwin, Tupac, Audre, bell hooks… nós dedicamos tanto a raiva porque estamos imersos nela. Crescemos com ela. Aliás, crescemos com o ódio. A Audre diferencia ódio de raiva. Para ela, o ódio é o desejo do Ocidente de nossa morte desde que nascemos pessoas negras. O ódio não abre possibilidade  construção. Ele só aniquila. Assassina. Esse ódio gera a nossa raiva. A raiva por sermos os sujeitos cujas vidas são ceifadas pelo ódio de um sistema supremacista branco cisheteropatriarcal. Essa raiva é uma constante para nós porque “tivemos que metabolizar tanto ódio que nossas células aprenderam a viver dele – do contrário morreríamos dele”. O que é singular na nossa raiva? Ele tem potencial de construção  de outras possibilidades de organização social, onde a nossa humanidade nos pertença. Onde sejamos centro e não margem. Dessa forma, quando não nos deixamos ser consumidos pela nossa raiva ela se torna combustível. A nossa raiva se torna uma arma política. Torna-se tecnologia de destruição da máquina colonial destituidora de nossas humanidades. 

Mas para que essa raiva não nos consuma é preciso amor. Bem, em um primeiro momento eu achei a centralidade do livro de hooks era a raiva. Mas na verdade, mesmo se dedicando a decifrar a raiva naquele livro, ela não permite que esta seja início e fim de sua narrativa. Ela escolhe se dedicar ao que podemos construir a partir dela. Posso dizer que a centralidade está nas estratégias de movimentação para além dessa raiva. Uma delas é que não podemos transmitir apenas raiva, ódio e trauma como herança para as gerações que ainda estão por vir, é preciso deixar a cura como herança também. Assim, é preciso pensar na cura das feridas causadas pelo ódio do mundo branco como essencial para uma movimentação verdadeiramente radical. 

Está cada vez mais difícil pensar em cura quando parecemos estar cada vez mais imersos em sangue e ódio. Por isso não há fórmula de como equilibrar amor e raiva. É um processo árduo e sempre coletivo, já que, como diria Abdias do Nascimento, àa ascensão individual para a população negra é ilusória. A emancipação vem de passos coletivos. Assim, sobrevivemos pelo direcionamento lúcido de nossa raiva coletivamente. Um direcionamento rumo à construção de “santuários políticos” (hooks, 2019) capazes de operar esse tal “mover da dor para o poder”. Tornando a raiva negra uma ferramenta de construção de uma “subjetividade negra radical” (hooks, 2019) com sensibilidade e habilidade e tecnologia capazes de projetar novo marco civilizatório pluriversal.

Ainda estou tentando descobrir como operar esse equilíbrio amor e raiva. Por enquanto me ancoro a um dos ensinamentos de Malcolm, registrado em uma passagem de Audre: “Como Malcolm ressaltou, não somos responsáveis pela nossa opressão, mas devemos ser os responsáveis pela nossa libertação. Não vai ser fácil, mas temos o que aprendemos e aquilo de útil que nos foi dado. Temos o poder que nos foi transmitido por aqueles que nos precederam, para irmos além de onde eles foram. Temos as árvores, a água, o sol e nossas crianças. Malcolm X não vive nas palavras impressas que lemos dele; ele vive na energia que geramos e usamos para caminhar em direção aos ideais que compartilhamos. Estamos construindo o futuro enquanto criamos vínculos para sobrevivermos às enormes pressões do presente, e é isso que significa fazer parte da história”.

referências:

hooks, bell. Killing rage: Ending racism. New York, NY: Henry Holt & Company. 1995.

hooks, bell. Amando a negritude como resistência política. In: Olhares negros raça e representação. Tradução Stephanie Borges. São Paulo: Elefante, 2019.

LORDE, Audre. Irmã Outsider. Tradução Stephanie Borges.1.ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019.

NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. Editora Perspectiva SA, 2016.

Imagem destacada – The walrus

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