Lélia Gonzalez e o português afro-brasileiro como ato político e de resistência

Lélia Gonzalez e o português afro-brasileiro como ato político e de resistência

“Vou aprender a ler

Pra ensinar meus camaradas…”

(Roberto Mendes)

 

Lélia González foi professora universitária, feminista negra, antropóloga e intelectual brasileira que deixou um enorme legado ao movimento negro feminista e à esquerda que se constituía a partir de uma perspectiva de gênero e raça.

A professora Lélia Gonzalez nasceu em Belo Horizonte (MG) no dia 1 de fevereiro do ano de 1935; contudo, foi no Rio de Janeiro que se formou e construiu sua trajetória intelectual e política. Dentre as suas principais obras estão: Lugar de Negro (1982); Festas Populares no Brasil (1987); também podem ser encontrados artigos, entrevistas e transcrições de palestras e conferências ministradas por Lélia Gonzalez.

No mês de fevereiro, em especial, lembramos Lélia Gonzalez com o intuito que manter a sua memória e história vivas: pois só a memória e a história podem garantir que consigamos construir horizontes de luta e resistência e reconhecer os passos de mulheres negras que vieram antes de nós abrindo caminhos e resistindo diante de uma sociedade racista e sexista.

Lélia: no meio dos livros, se dividindo entre os estudos, o magistério e as publicações. Bairro da Tijuca, Rio de Janeiro, 1968 Acervo Lélia Gonzalez.

 

Este texto se propõe a traçar a trajetória política e de (re)construção da consciência racial da intelectual, manifestada por meio da linguagem – ou como chamava Gonzalez, o “pretoguês”. A antropóloga alçou altos voos na academia e até hoje é uma das principais referências nos estudos de gênero, raça e classe; assim, utilizou o seu espaço no âmbito acadêmico não para manter-se inerte ou cativa como a sociedade racista e machista espera de mulheres negras, mas para mexer nas estruturas e questionar o etnocentrismo e diversas opressões que atingiam (e atingem) a população negra do Brasil, em especial às mulheres negras e pobres.

Dentre suas escolhas políticas (feitas sabiamente), a principal consiste em reivindicar a contribuição de negras e negros que vieram vítimas de escravização para o Brasil, construindo comunidades culturais e, sobretudo, contribuindo para a fixação de um português brasileiro, ou melhor, português afro-brasileiro. Sobre o que a antropóloga chamava de “pretoguês”, podemos definir como:

“[…] aquilo que chamo de ‘pretoguês’ e que nada mais é do que marca de africanização do português falado no Brasil […], é facilmente constatável sobretudo no espanhol da região caribenha. O caráter tonal e rítmico das línguas africanas trazidas para o Novo Mundo, além da ausência de certas consoantes (como o l ou o r, por exemplo), apontam para um aspecto pouco explorado da influência negra na formação histórico-cultural do continente como um todo (e isto sem falar nos dialetos ‘crioulos’ do Caribe).” (GONZALEZ, 1988)

É preciso destacar que povos negros e indígenas tiveram contribuição efetiva para a identidade linguística brasileira e a professora/antropóloga estudava assiduamente o tema. Contudo, sobre essas contribuições das comunidades autóctones e negros da diáspora, podemos verificar que são ignoradas e até mesmo discriminadas ao longo da história. Além de derivações de palavras, temos também a utilização de termos e as chamadas gírias que compõem a pluralidade linguística em território brasileiro. O fato é que, tudo aquilo que faça parte do vocabulário colonizador segue tendo prestígio, já o que faz parte do dicionário mental e cultural dos povos colonizados segue tendo tentativas de apagamento – constituindo assim um plano racista e etnocêntrico de “superioridade”. Assim, podemos retomar a própria Lélia para compreender como se dá essa relação linguística de contribuição X preconceito linguístico/discriminação:

“É engraçado como eles [sociedade branca elitista] gozam a gente quando a gente diz que é Framengo. Chamam a gente de ignorante dizendo que a gente fala errado. E de repente ignoram que a presença desse r no lugar do l nada mais é do que a marca lingüística de um idioma africano, no qual o l inexiste. Afinal quem é o ignorante? Ao mesmo tempo acham o maior barato a fala dita brasileira que corta os erres dos infinitivos verbais, que condensa você em , oestá em e por aí afora. Não sacam que tão falando pretuguês.” (GONZALEZ, 1988)

A antropóloga Lélia Gonzalez na década de 80 já apontava tal questão e, a partir daí vai produzir textos, ministrar palestras, realizar falas e afins que dissertam sobre – e o mais importante: adotar padrões de fala e escrita que rompam com o vocabulário exaltado e aceito pela academia. Além da questão linguística, temos também a literatura enquanto expressão cultural e de resistência da diáspora sendo ignoradas ao longo da história.

Uma escolha política de Lélia foi romper com o vocabulário formal, pois queria dialogar com diferentes extratos sociais e, principalmente com movimentos populares que estavam nas ruas e periferias – haja vista que realizava trabalho de base e não estava só no âmbito acadêmico, mas também nas ruas. Um bom exemplo disso está que a professora participou ativamente da militância em prol de creches nas periferias cariocas, pois compreendia que o diálogo com os seus se dava, sobretudo nas ruas.

O ápice de sua produção intelectual se deu entre as décadas de 70 e 80, na qual a teórica escreveu livros, artigos e ministrou diversas palestras: em todos esses suportes de comunicação o que chamava muito a atenção de quem ouvia ou lia Lélia Gonzalez se tratava do seu tom informal, utilizava gírias e tentava dialogar como se estivesse em uma conversa com companheiras/os de luta. Nesse ápice da militância e produção intelectual, a professora também quebrou as correntes racistas, classistas e coloniais que a atrelavam aos padrões de comportamento (postura, fala, estética) que, no caso de nós enquanto mulheres negras, são exigidos que os cumpramos à risca para sermos “minimamente” aceitas; considero essa resistência e liberdade de expressão como um ato político e de coragem em meio a uma sociedade marcadamente racista e machista – além de teoria, Lélia Gonzalez ergueu um campo discursivo de resistência enquanto mulher negra: unindo dialeto e gírias. Como exemplo dessa construção política, ideológica, intelectual e de resistência por meio da fala e da escrita, rememoramos uma fala da antropóloga:

“Eu gostaria de colocar uma coisa: minoria a gente não é, tá? A cultura brasileira é uma cultura negra por excelência, até o português que falamos aqui é diferente do português de Portugal. Nosso português não é português é “pretuguês” (Depoimento da década de 80)

Na década seguinte já não eram mais registrados textos e falar de Lélia Gonzalez com o presente de termos e expressões características do português afro-brasileiro, isso aponta também para o momento vivido pela professora Lélia após intensa atuação enquanto militante; visto que nós, mulheres negras, somos sobrecarregadas por existir e resistir: Assim, é dito que Lélia tenha sido tomada por um momento de reflexão, mais reclusa, até que chegou o dia em que sua escrita não seria mais registrada, sua voz jamais seria ouvida – com sua morte no ano de 1994.

Eu vejo meu próprio caso, eu fui muito assim, é uma autocrítica o que eu estou fazendo também. Eu achava que tinha que estar em todas, me jogando loucamente, e meu projeto pessoal se perdeu muito, agora que eu estou catando os pedaços para poder seguir minha existência enquanto pessoinha que sou. […]” (Entevista ao MNU)

É importante manter a memória de Lélia Gonzalez viva e aprender com seus passos, pois estamos diante de um momento que que cada vez mais as correntes tentam manter o povo negro à margem e silenciado de todo e qualquer legado e história que tenham construído, isso tudo por meio da linguagem, haja vista que presenciamos em todo o momento o dialeto, termos, expressões e palavras serem diminuídas ou vítimas de preconceito linguístico – que em si carrega as opressões que lutamos todos os dias para combater. A linguagem carrega poder, ideologia e é um dos principais instrumentos de dominação dos povos, mas se utilizarmos como ferramenta de luta e resistência, conseguimos por meio dela manter histórias vivas.

Salve, Lélia Gonzalez! Salve a sua trajetória de resistência que se realizou nas ruas, na academia e também por meio do que falava e escrevia.

 

Lélia Gonzalez, presente!

( Acervo Lélia Gonzalez. Julho, 1979)

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Eu sou ela, ela sou eu

Eu escrevo aqui do alto dos meus 27 anos, jornalista com uma graduação concluída com louvor, endereço fixo, telefone conhecido e público, registro profissional regular e algumas dúzias de seguidores pelas redes sociais. Só que o que me faz escrever não são meus quatro anos de estudo em comunicação social, mas os meus 27 anos de vida na minha pele de mulher preta e periférica, moradora de uma grande, cruel e desigual metrópole brasileira, país racista e machista por seus anos de história desigual.