Meu queloide dói, mas não sangra mais: memórias de violação sexual

Aviso de gatilho – Violência psicológica e sexual

.

.

.

Lesão traumática é a definição aurélia de queloide. Trago comigo marcas de violações sexuais que acompanharam as minhas três fases de desenvolvimento humano. Das memórias conscientes que trago da infância, foram três abusos sexuais cometidos por figuras masculinas que assumiram – na ausência dos meus pais – o papel do “cuidador”. A inocência da minha criança me fez ceder às invasões de carícias abusivas de meu avô, meu padrinho e do vizinho “amigo”. Lembro-me das várias vezes em que minha mãe passava o cotonete, com pomada para assadura, na minha vulva. Eu sentia arder as lesões deixadas por barbas e unhas sebosas. Mas não tinha consciência do que se passava. Acreditava que, aquelas violações, eram maneiras de cuidar de mim. Recebia, então, como uma manifestação de cuidado. E segui a transição da infância para a adolescência, convivendo – e inconscientemente naturalizando – aqueles abusos sexuais.

Com os primeiros sinais de um corpo-mulher em transição, sofri meu primeiro estupro. Aconteceu num sábado à tarde, chovia muito nesse dia; eu tinha apenas 11 anos de idade. O amigo leal do meu pai me arrastou até o banheiro da minha casa. Só consigo lembrar do líquido gosmento que caia ao chão. Da falta de ar. Da dor. E de seus sussurros me pedindo para calar a boca, pois ele contaria a meu pai – como se eu fosse a culpada. Obediente e amedrontada, silenciei-me. Deixei regrar o sangue venoso que me escorria. Naquele dia, minha mãe achou que eu tinha menstruado pela primeira vez. Meu primeiro estupro teve comemoração familiar. Mal sabiam eles, que era mais um queloide do meu corpo violado.

O primeiro amor a gente nunca esquece. É verdade. Me apaixonei pelo segundo caso de estupro. Eu adolescente. Ele um homem. Era o segurança do supermercado do bairro. Achava bonito aquele jeito sério, másculo e bruto de se portar na vigilância do estabelecimento. Até que um dia, ele me nota. E vem conversar comigo. Trêmula pela não esperada reação, aceito em poucas palavras o convite de ir com ele almoçar. Eu não sabia que eu seria (a)comida. Devorou-me feito macho em caça. Sobre sua presa, fui mais uma vez vítima da violência. Depois daquela refeição, nunca mais o vi. E nunca fui a mesma. Pelos caminhos da vida, fui crendo no desamor, me achando indigna de amar e ser amada. E carregava comigo um moralismo cristão do pecado da Eva. A culpa é minha!

O tempo foi se passando, as memórias sendo ignoradas, os gatilhos deixados de lado. Já na fase da juventude, acreditava que o feminismo branco teria me blindado. Que estava imune por andar com a vanguarda revolucionária e cirandeira. Contraditória ilusão. Em uma curta marcha de convivência, foram mais dois estupros: um “companheiro” de luta e um “camarada”. Todos justificados pelo uso do álcool. O último caso até chegou a ir para as instâncias deliberativas do partido. Mas, a supremacia masculina revolucionária se lembrou que o afastamento do camarada, seria o afastamento de quem mais contribuía financeiramente para a organização. Entre o capital e a subjetividade – o velho embate dicotômico, presente nos prolegômenos – rifou-se a particularidade. Fui mais uma vez rifada, violada.

Escrevo esse texto como quem pega o “Abebé” (espelho) da Oxum e vai olhar sua vulva enquanto está submergida em um banho morno de assento, feito com alecrim e camomila. Não foi aleatório o uso dessas ervas. Ambas têm funções curativas, antissépticas, e principalmente relaxante. Foi preciso colocar os queloides em infusão. Buscar o adstringente dos processos para, assim, escutar e respeitar as minhas cicatrizes. Me fiz a Toni Morrison, ao buscar o “olho mais azul”, e perceber no cru o espelhamento de uma sociedade violenta com uma mulher negra. Nesse banho de luar, me perdoei. Me acariciei com carinho. Senti o meu toque. A delicadeza do meu tato em mim. Fiz as pazes com meu corpo, com os meus traços negros. Hoje, meu queloide dói, mas não sangra mais. Sou “apenas uma mulher negra que se ama” (Upile Chisala).

Referências

CHISALA, Upile. “Can’t I just be a black woman that loves herself in peace?”. In___. Nectar. s/l,. p. 18, 2017.

MORRISON, T. O olho mais azul. Trad. Manuel Paulo F. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.


Imagem de destaque Snapshire no Pexels

You May Also Like

O medo da raça humana

Quem eles são? O que eles pensam? Sim, há boas e valorosas exceções. Há brancos que sabem que são brancos, sabem dos privilégios inerentes a essa condição e lutam para que os não-brancos também os tenham. Mas os que, por cegueira ou inocência, por ignorância ou má fé, insistem em ser vistos e tratados como “apenas pessoas”, pregando o “somos todos iguais” “somos todos de uma só raça: a raça humana”, sem a preocupação de por quem e para quem o conceito de “raça humana” foi construído, têm uma característica em comum: eles têm medo e tentam, a todo custo, disseminar esse medo.

Sound of da Police – O som da polícia

After 400 years, I’ve got no choices! 400 anos mais tarde eu não tenho escolha! My grandfather had to deal with the cops Meu avô tinha ade lidar com policiais My great-grandfather dealt with the cops Meu bisavô tinha de lidar com policiais And then my great, great, great, great… when it’s gonna stop?! O meu tataravô … quando isso vai acabar?