Por que as mulheres negras estão sendo deixadas para trás no movimento Body Positive?

Originalmente publicado no blog Marinando.

A cada dia, mais e mais mulheres negras e gordas são invisibilizadas na onda Body Positive. O movimento que surgiu da luta anti-gordofobia, vem ganhando destaque na mídia e nos comerciais. Porém, junto a isso, as verdadeiras discussões que propõem a transformação social para a quebra de preconceitos, estão sendo afogadas em um mar de corpos que seguem o padrão e contraditoriamente, são exaltados como subversivos.

O movimento de libertação nasceu através da união de corpos marginalizados que, a despeito das opressões que sofriam, se colocaram como agentes capazes de praticar o amor-próprio. Juntas, mulheres negras e gordas, trans, queers e pessoas com deficiência se organizaram em um movimento que reivindicava seus direitos e questionava os preconceitos estruturais que as impediam de viver plenamente. Como bem sabemos, as estruturas não mudaram e para muitos corpos o amor ainda é negado, então, é pelo caminho da aceitação que tantas pessoas encontram no Body Positive, o acolhimento que não encontrariam em outro lugar.

Entretanto, há algo muito sério acontecendo nos dias atuais e precisamos falar sobre isso porque a cada dia mais e mais corpos privilegiados vem ganhando respeito, destaque e autoridade no assunto [em grande parte eliminando as discussões fundamentais] e enquanto isso os corpos marginalizados vão sendo empurrados para fora da rede, sem créditos e sem consideração.

A jornalista Sydney Greene em seu artigo “There is no liberation for all bodies without liberation of fat black women and femmes” [Em tradução livre: Não existe libertação para todos os corpos sem a libertação das mulheres negras e queers”] explica muito bem o cenário atual:

“O movimento body positive originalmente abriu espaço para aceitação e amor-próprio — que geralmente são reservados apenas para pessoas brancas, magras, com corpos sarados — e que tem todo o direito de ser reservado a corpos marginalizados (corpos gordos, trans, queer, com deficiência e negros) também. Muitos influenciadores e ativistas body-positives — especialmente aqueles com corpos privilegiados — tem protagonizado o movimento enquanto falham em reconhecer a presença de pessoas gorda e mais importante, o trabalho de mulheres negras que possibilitou a libertação para que estes mesmos influenciadores brancos possam viver os seus privilégios.”

Eu fico me perguntando se todas as influenciadoras Body Positives tem desejo genuíno na libertação de todos os corpos ou estariam apenas interessadas em suas liberdades individuais, absorvendo um ideal sustentado por corpos oprimidos para uso unicamente em benefício próprio. Se existe um desejo de libertação coletivo, que é a proposta original do movimento, por que poucos escolhem falar sobre racismo? Não é o genocídio da população negra um problema body positive? Não é desproporção entre pessoas negras e brancas desempregadas um problema body positive? A quantidade extremamente maior de mulheres negras que sofrem violência com relação as mulheres brancas não é um problema body positive?

Lendo um artigo da escritora e palestrante Erin Monaham chamado “How the White Body-Positive and Self-Love Movement Hinges on Anti-Blackness and How We Can Stop It” [Em tradução livre: Como o movimento Body Positive Branco e a onda do amor-próprio depende do racismo e como podemos pará-lo]. Erin que é uma mulher branca, me surpreende com as suas reflexões quando abre os seguintes questionamentos:

“Então, a sua influenciadora branca e Body Positive está falando sobre o fato de que nós (mulheres brancas) historicamente desumanizamos mulheres negras e gordas? Estão falando do fato de que nós éramos donas de escravos por sermos mulheres brancas e de que nós lutávamos para proteger o nosso dinheiro que investíamos na escravidão?”

Monahan acrescenta, se referindo aos influenciadores que pregam o amor próprio, mas preferem cegar as discussões necessárias sobre racismo:

“Que tipo de amor próprio é esse que nos permite sentir superioridade?”

“Que tipo de amor próprio é esse que nos deixa com medo de falar a verdade sobre o mundo atual, sobre racismo e de como ele se manifesta em todos os aspectos da nossa sociedade?”

“Que tipo de amor próprio é esse que está enraizado na construção da branquitude e não no centro do nosso trabalho que é curar o nosso relacionamento com os nossos corpos e também o nosso relacionamento uns com os outros?”

Isso me lembra de toda a luta do movimento feminista negro que sofreu o apagamento de suas contribuições ao sufrágio e que enfrentou incontáveis problemas com feministas brancas que se recusavam a apoiar totalmente a emancipação das mulheres negras, manipulavam informações para prejudicar as organizações lideradas por mulheres negras e se articulavam politicamente para impedir o progresso do povo preto como um todo, como vemos em Gênero, Raça e Classe, livro escrito por Angela Davis e que apresenta uma análise histórica do feminismo negro norte-americano.

Eu particularmente acredito que o movimento poderia sim ser para todas e todos mas precisaríamos estar juntas e comprometidas com a luta pela quebra das causas principais das opressões e preconceitos.  Tribble (@ashleighchubbybunny) que é ativista e feminista, levanta um ponto importante quando ao embranquecimento das pautas:

“É importante ser crítica quanto a presença e os erros de mulheres brancas dentro do movimento porque elas mantêm o status quo. Por conta de suas posições enquanto padrão de beleza em nossa sociedade ocidental e racista, não faz muito sentido continuarmos nos centralizando nelas e em seus problemas internos aos invés de focarmos em pessoas que estão lidando com problemas exteriores, sendo marginalizados por sistemas de opressão por não serem uma mulher branca não-gorda.”

Esse assunto está longe de ser esgotado e deixo essa conversa em aberto para que possamos, em conjunto, encontrar maneiras de não perdermos esse movimento para uma grande disputa de hashtags no Instagram. Encerro por aqui, deixando a sugestão de Erin para um caminho possível de se praticar a libertação corporal antirracista.

“ Para que eu posso ter uma relacionamento realmente saudável e não tóxico comigo mesma e com os outros ao meu redor, eu tenho que examinar e procurar os meus preconceitos. Eu também tenho que perceber como e onde eu abuso do meu poder. Porque racismo não é apenas preconceito. É preconceito mais poder. Eu acredito que seja importante para todas as pessoas que se consideram body positive ou advogam pelo auto-amor, fazerem isso. É importante refletir sobre os sentimentos feios que temos, que geralmente reprimimos. Nós não queremos olhar nossas partes feias porque nós queremos manter essa fachada de “pessoas brancas politicamente corretas”. Mas essa dualidade entre “bem” e “mal” é um mito criado pela supremacia branca para nos impedir de examinar nosso profundo ódio racial. Se pararmos para examiná-lo, então, estaremos mais próximas da libertação”

Imagem destacada – Adobe Stock

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