Psicologia antirracista: a escuta e compreensão no combate à discriminação racial

Originalmente publicado em Lugar Afro.

Reunião com integrantes da ANPSINEP-PE, articulação que desenvolve trabalho voltado para o fortalecimento da psicologia antirracista em Pernambuco (foto: arquivo/ANPSINEP-PE)
Reunião com integrantes da ANPSINEP-PE, articulação que desenvolve trabalho voltado para o fortalecimento da psicologia antirracista em Pernambuco (foto: arquivo/ANPSINEP-PE)

Estamos no mês da campanha brasileira Setembro Amarelo, que traz uma demanda muito urgente: o combate ao suicídio. Atrelado a isso são gerados debates acerca da saúde mental da população, buscando sensibilizar a sociedade sobre um assunto que dialoga diretamente com o bem-estar da pessoa humana. Levando isso em consideração, quanto tem se falado a respeito da saúde mental da população negra e suas demandas específicas? É importante fazer essa pergunta, principalmente após a divulgação da cartilha “Óbitos por suicídio entre adolescentes e jovens negros 2012 a 2016”, elaborada pelo Ministério da Saúde, cujos dados confirmam que, em 2016, a cada dez suicídios entre adolescentes e jovens, seis aconteceram com pessoas negras. Ainda de acordo com a cartilha, o quesito raça/cor é um determinante de como tensões são vivenciadas. A psicologia brasileira está preparada para receber as demandas da população negra? Como ela tem acolhido essas pessoas?

Esses questionamentos são necessários para fortalecer uma discussão acerca do acesso que pessoas negras têm ao atendimento psicológico e se quando existe esse acesso, o profissional de psicologia leva em consideração que o racismo, por meio de seus formatos contemporâneos de violência, subalternidade e exclusão, continua pondo em risco a saúde mental dessa população. A partir dessas percepções, grupos de psicólogos/as espalhados pelo Brasil passaram a detectar e estudar essas demandas buscando fortalecer a construção de uma psicologia antirracista, que através da escuta e compreensão torna-se ferramenta no combate à discriminação racial.

São frequentes os casos de angústia, estresse, insegurança, depressão, esgotamento entre as pessoas negras, sujeitos que normalmente não são associados a uma ideia de cuidado, devido a uma falsa suposição, criada ainda no período escravocrata, de que o/a negro/a é capaz de suportar as mais diversas situações de dor e sofrimento. Psicóloga e coordenadora da Articulação Nacional de Psicólogas(os) Negras(os) e Pesquisadoras(es) seção Pernambuco (ANPSINEP-PE), Conceição Costa desenvolve uma das pesquisas pioneiras no Brasil a respeito da Clínica Psicológica Antirracista. Sobre isso, ela afirma convicta: “é preciso trazer para a psicologia que não basta ser contra o racismo, é preciso ser antirracista para poder destruí-lo”.

O papel das universidades

Formada em Psicologia pela Universidade Católica de Pernambuco, Conceição Costa conta que um dos fatores que intensificam o desprezo pela psicologia das relações raciais é a falta da abordagem nas universidades. “Durante a minha graduação nunca foi problematizado as especificações da população negra”, diz. Por causa da sua formação política e das experiências com a militância social e o movimento estudantil, as desigualdades sociais e raciais nunca passaram desapercebidas por ela, mas a compreensão disso dentro da sua profissão só começou a se fortalecer com a experiência clínica, onde atendeu crianças vítimas de violência. “Eu sabia que tinha alguma coisa ali que era da condição da desigualdade racial no Brasil”, conta.

Os estudos sobre as questões raciais se aprofundaram após Conceição Costa conhecer a psicóloga Maria Jesus Moura, uma das fundadoras da Articulação Nacional de Psicólogas(os) Negras(os) e Pesquisadoras(es). Com as experiências no mestrado e dentro da sala de aula como professora, Conceição percebeu que era necessário abraçar a causa. “A partir daí, assumi que a psicologia antirracista é a minha trajetória de vida, meu lugar de pesquisa, meu lugar de estudo e atuação. É importante o fortalecimento de uma psicologia que sabe que o racismo existe porque a grande maioria dos psicólogos são brancos, classe média, não entendem ou não querem entender que o racismo humilha e adoece”, declara.

Assim como Conceição Costa, Maria Jesus Moura, psicóloga e integrante da ANPSINEP-PE, diz não ter tido a abordagem da questão racial durante a graduação. O divisor de águas para ela foi quando, ao fim do curso, teve acesso ao livro “Tornar-se Negro”, da psiquiatra e psicanalista brasileira Neusa Santos Souza, obra que lhe permitiu compreender que psicologia e questões raciais precisam dialogar entre si. Para ela a não abordagem de uma psicologia que envolva as mais diversas particularidades do ser humano compromete a qualidade do trabalho do profissional. “Falta à instituição de ensino compreender que quando se prepara um profissional, prepara-se ele para tudo e para todos. Sendo assim, não tem como pensar uma psicologia que não seja antirracista, porque o racismo provoca sofrimento e a psicologia não pode se aliar a nenhum tipo de ação que provoque isso”, alega Moura.

É importante destacar que para ser um/a psicólogo/a antirracista não é necessário ser uma pessoa negra, essa é uma causa que precisa ser levada em consideração por todos os profissionais da área, independente da cor. “Existem os profissionais que estudam, se aproximam, que compreendem essa especificidade da vida negra em um país que é racista e as diversas formas que esse racismo se apresenta, então fica mais fácil para essas pessoas se autodenominarem antirracistas, porque elas estão com a escuta preparada.”, completa Jesus Moura.

Psicólogo e colaborador na Comissão de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia, Mamede Silva tornou-se sensível às questões acerca da psicologia antirracista depois que se formou na área. No doutorado, estudando migração haitiana no Brasil, na área de estudos socioculturais, Mamede passou a ter um olhar diferente sobre questões raciais enquanto psicólogo. “Por mais que eu tentasse fugir da questão do racismo, porque queria dar luz a outras situações, isso acabou sendo bem presente no trabalho de campo e me levando a aprofundar os estudos sobre isso, o que me faz retornar para a psicologia com outro olhar”, explica.

Por uma psicologia brasileira/decolonial

Segundo Mamede Silva, a gênese das desigualdades sociais no Brasil encontra explicação no período da expansão colonial europeia, que, para ele, é a grande responsável pela verticalização das relações sociais no país. Se antes desse episódio as relações de poder eram inseridas em um contexto horizontal, com a chegada dos europeus essa relação é invertida, incorporando uma lógica que descarta pluralidades, hierarquizando os grupos humanos por meio da categoria social/raça. Essa mesma lógica de dominação acontece com as diversas áreas do saber, sendo os estudos europeus difundidos como soberanos e universais. A partir disso, é importante pensar como os estudos da psicologia brasileira se estruturaram ao longo dos tempos e até que ponto essa ciência sofre influências dos conhecimentos considerados universais, ou seja, construída a partir da representação da subjetividade do sujeito branco.

“A psicologia foi construída dentro de uma lógica que vai falar da construção da subjetividade a partir da experiência de um sujeito que é europeu. Quando a gente pensa em uma psicologia preta estamos nos referindo a uma especificidade porque existe um modelo universal que é a experiência dos sujeitos brancos.”, explica Mamede. “O problema desse geral e específico, é que esse específico sempre se refere ao geral para poder dizer o que existe. Então para eu construir uma psicologia preta eu vou atrás de autores que me dão uma base do que seria a psicologia universal pra entender a psicologia do negro. É preciso buscar e construir uma psicologia que seja pensando a subjetividade de pessoas que nascem em uma sociedade que é ordenada utilizando o racismo como importante instrumento”, complementa.

Para a psicóloga Conceição Costa a construção e fortalecimento de um estudo da psicologia brasileira é uma dívida que deve ser quitada. “Esse estudo nós nos devemos, profissionais de psicologia negros e não negros, devemos na academia, aos estudantes. Isso será possível desconstruindo o pensamento colonialista porque nossa psicologia ainda é branca, eurocêntrica, estadunidense. Consumimos muito pouco a produção da América Latina, da América do Sul e do Brasil. Precisamos ter a construção de uma psicologia nossa, e eu entendo hoje que se não for por meio de uma psicologia antirracista a gente não consegue construir um conjunto de orientações, fundamentações, de estudos que dê conta do racismo brasileiro”, relata.

O valor da vida negra

A população negra brasileira está constantemente suscetível aos mais diversos tipos de violência e opressões vindas de uma sociedade que a considera ameaça e um grupo constituído por pessoas inferiores. Anualmente, números confirmam o contexto de disparidade social em que essas pessoas estão inseridas. Conforme o Atlas da Violência 2019, 75,5% das vítimas de homicídio no Brasil, em 2017, eram negras. Já de acordo com o 13º Anuário de Violência Pública, em 2018 foram registrados 66.041 casos de violência sexual contra a mulher, desse total 50,9% foram contra negras. Além desses problemas, outros como acesso ao mercado de trabalho, educação, solidão impactam e destroem vidas de crianças, adultos e idosos negr@s Brasil afora.

A partir desse contexto, o número de suicídios tem crescido dentro da população negra, realidade que reflete o descaso com o bem-estar dessas pessoas, que vivenciam situações de desconforto desde a infância. De acordo com a cartilha “Óbitos por suicídio entre adolescentes e jovens negros 2012 a 2016”, o suicídio é um problema de saúde pública, foi a quarta causa de morte no país em 2016, e esses números são alarmantes quando direcionados a pessoas negras. “Por causa do preconceito racial existe um conjunto de aprisionamento das identidades negras por não poderem ser expressas e muitas pessoas não conseguem se libertar e não conseguem compreender o tanto que elas aprenderam distorcidamente sobre elas mesmas. E muitas vezes esse aprisionamento, como muitos outros, é também motivo de suicídio. Elas perdem a motivação, perdem o interesse, não conseguem se ver como pessoas produtivas porque a elas foi destinado um lugar social imaginário consequente do racismo que as prendem em um determinado lugar”, afirma Jesus Moura.

Para a psicóloga Conceição Costa, esses processos de sofrimento e aprisionamento se iniciam na infância. “Crianças negras crescem entendendo que elas são não sujeitos, são crianças que não são vistas. O olhar do adulto é muito importante para ela, é estruturador. O olhar do afeto, o olhar da bronca, mas, muitas vezes, essa criança negra é vista como uma ‘pessoa problema’, e ela cresce acreditando nisso e não sabe nominar esse sofrimento, então muitas vezes, no consultório psicológico, quando elas narram suas vivências isso não é associado ao racismo.”, informa.

Nesse sentido, a escola deveria ser um espaço em que crianças negras se sentissem seguras para viver em harmonia com outras crianças, mas não é isso que acontece. A escola termina sendo um local hostil onde o racismo se revela fortemente. “Muitos dos relatos de crianças são sobre a escola. Quando acontece, por exemplo, de um coleguinha de classe chamar uma criança negra de macaco e ela ao relatar o ocorrido à professora, muitas vezes a situação é amenizada, o docente diz que foi apenas uma brincadeira e coloca aquela criança negra como problemática porque reclamou. E aquele/a menino/a cresce acreditando que é problemático/a mesmo e isso é muito perverso porque quando uma criança sofre racismo quem precisa se cuidar é quem cometeu aquele ato preconceituoso e toda a escola deve se mobilizar para que aquela criança racista mude o seu comportamento”, complementa Costa.

Relacionado a isso, a Psicologia desenvolve um trabalho muito importante: o de fazer com que as pessoas saibam nominar casos de racismo. “Na demanda que as pessoas negras trazem nem sempre elas nomeiam o que é o racismo, mas o profissional que está ali lhe atendendo para ser considerado antirracista precisa nomear, não podemos permitir que uma pessoa sofra anos a fio por algo que ela não consegue entender. Nós, psicólogos/as, precisamos ajudar essas pessoas a compreenderem o que é e quando foram vítimas de uma ação racista, mesmo que a pessoa não fale que é negra, que aquilo não é racismo, que não nomeie, mas a forma como ela traz os elementos e o lugar dela no mundo se ressalta para o profissional que tem essa sensibilidade”, alega Jesus Moura.

Em meio ao contexto racista em que está inserido/a, o/a negro/a já nasce com o desafio de ascender socialmente, gerando fortes pressões para que ele/a alcance o sucesso pessoal e profissional. “Toda essa pressão se soma a falta de espaços de escuta e de acolhimento, isso se agrava pelo fato de a psicologia ser extremamente elitista. No período em que atendia em uma policlínica de Olinda, eu era o único psicólogo de ambulatório para atender adolescentes de 13 a 18 anos para todo o município. Se essa pessoa não tem dinheiro para pagar particular, será que ela vai conseguir entrar na fila de um único psicólogo e que além disso também atende adultos em uma carga horária de 30 horas? Temos uma incidência maior de suicídio na população negra, e então você pergunta: “e esses negros estavam fazendo terapia?” Será que o negro quando está em sofrimento por uma série de coisas, muitas delas estruturais, ele tem acesso a um cuidado como a população branca?”, questiona Mamede Silva.

Aquilombamento

Refletindo todas essas realidades de exclusão e sofrimento direcionadas à população negra, grupos de psicólogos/as espalhados pelo Brasil se uniram para criar e fortalecer um ambiente propício de acolhimento a essas pessoas. Dessa forma surge a Articulação Nacional de Psicólogas(os) Negras(os) e Pesquisadoras(es) (ANPSINEP), que nasce a partir de uma conversa da psicóloga Jesus Moura com a fundadora do Instituto AMMA Psique e Negritude, Maria Lucia. Elas sentiam a necessidade em reunir profissionais que pesquisassem assuntos relacionados à demanda racial. A partir da detecção e reunião desses/as psicólogos/as, deu-se início ao 1º Encontro Nacional de psicólogas (os) negras (os) e pesquisadores, realizado na Universidade de São Paulo (USP), em 2010.

Depois do primeiro encontro, manifesta-se a necessidade de também criar uma articulação em Pernambuco, é quando surge a Articulação Nacional de Psicólogas(os) Negras(os) e Pesquisadoras(es) seção Pernambuco (ANPSINEP-PE), grupo composto por estudantes e profissionais de Psicologia que se responsabilizam por desenvolver eventos, preparatórios, encontros e também identificar outros estudantes e profissionais inseridos na luta por uma psicologia antirracista. “Viemos para afirmar que não somos objetos de pesquisa de antropólogo, de sociólogo, de ninguém. Eu sou pesquisadora, eu pesquiso o meu povo, o meu tema e a minha ciência, que é a Psicologia. Então agora somos sujeitos da nossa própria produção científica, e militantes sociais porque não somos intelectuais de discurso cínico, somos intelectuais que estamos na academia, mas não esquecemos nossa origem. Estamos preocupados com uma produção que dialogue com a realidade brasileira”, assegura Conceição Costa, coordenadora da ANPSINEP-PE.

Esses tipos de estratégias de aquilombamento são necessárias para o fortalecimento de uma estrutura que combata de maneira satisfatória o sistema racista e suas facetas. Seguindo essa lógica, em 2016, surge o espaço de cuidado e apoio psicológico IlÊ Psi, localizado no Recife, tendo como uma de suas coordenadoras a psicóloga Jesus Moura. “O Ilê Psi é um espaço de psicólogos/as priorizando um público específico. Atendemos todas demandas possíveis e imagináveis, mas nossa prioridade são pessoas negras e LGBTs. No espaço fazemos capacitações internas e seguimos uma regra: só entra nesse espaço psicólogos/as que tenham uma convergência com o que é defendido pelo Ilê. Esse é o elemento que nos move nesse espaço”, conta Moura.

Muito chão ainda precisa ser percorrido para que, cada vez mais, a população negra tenha acesso de qualidade ao atendimento psicológico. Um dos caminhos certos para isso acontecer é através da união de profissionais negros/as e não negros/as, porque a psicologia antirracista “é a psicologia dos profissionais que tem compromisso com a sua profissão. Negros e negras são responsáveis por acabar o racismo, mas brancos têm obrigação moral, porque o racismo não é uma invenção dos pretos, sim dos brancos”, finaliza Conceição Costa.

Assista a entrevista no canal do Lugar Afro: https://www.youtube.com/watch?v=oPA0sdpWNVo

Para mais informações:

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