SAPATONA TAMBÉM APANHA EM CASA: violência doméstica contra lésbicas

 

por Agnes Aguiar, para as Blogueiras Negras.

Violência doméstica é umas das pautas mais debatidas dentro do feminismo. Sejam em espaços físicos ou virtuais, estratégias diversas contra esse tipo de violência são pensadas, desde abrigos para mulheres em situação de violência doméstica até formas diversas de denúncia – inclusive temos, mais recentemente, a vitória do feminicídio reconhecido como crime hediondo, além da Lei Maria da Penha e a implementação do disque 180.

Mas e as lésbicas? Sapatona não apanha em casa?

Violência doméstica é o nome dado a toda e qualquer violência – física, psicológica, simbólica, etc – sofrida dentro do ambiente doméstico, ou também chamado familiar. A vózinha que apanha porque já não tem forças está sofrendo violência doméstica, a criança que apanha porque não obedeceu está sofrendo violência doméstica, assim como a lésbica que apanha, é expulsa de casa, sofre punições de diversas formas por ser lésbica também está sofrendo violência doméstica. E isso é silenciado diariamente não só pelo poder público, mas o que é pior: pelas feministas.

Quantos abrigos destinados às lésbicas em situação de violência doméstica existem? Quantos centros de apoio à lésbicas existem? Quantos programas de combate à violência contra lésbicas fomentados pelo poder público existem? Quem souber que me avise, nunca conheci nenhum.

Não existe respaldo para o que sofremos, para as nossas dores. Todos os dias, morremos mais e mais. Todos os dias, nossas energias nos são sugadas. Sofremos por sermos visíveis, sofremos por sermos invisíveis também. Quando pesquisei no Google por abrigos para lésbicas em situações de violência, o que surgiu foram publicações sobre os “ataques” de lésbicas contra mulheres heterossexuais em abrigos para mulheres em situação de violência. Enquanto grupo organizado e um movimento, foram as lesbianas quem lutaram por abrigos exclusivos para mulheres – e, agora, nos vemos sendo acusadas de violências contra mulheres.

Somos minoria nas estatísticas de violência, que já são poucas e normalmente feitas por grupos independentes, o que torna a veracidade ainda mais questionável. De maneira geral, lésbicas compõem menos de 10% dos mortos por “homofobia”¹, sendo os negros menos de 6% também do número total. Como isso pode ser verdade? Quando uma lésbica é morta, quem tem consciência de que ela era lésbica e que isso possa ser a razão de sua morte? Existe alguma preocupação por parte das autoridades estatais de que a sexualidade das vítimas seja evidenciado em situações de denúncia de violência ou morte? Quando uma lésbica faz uma denúncia de agressão física, é contabilizado como agressão lesbofóbica ou como agressão física? Das lésbicas com as quais eu convivo ou já conversei, todas já sofreram agressões lesbofóbicas dentro do ambiente doméstico e grande parte delas sofreram agressões físicas. Todas. Todas.

Os relatórios sobre violência contra a população LGBT também nos invisibiliza, somos minorias dentre as vítimas, e isso nada tem a ver com a ausência de violência. Por vivência própria e troca com outras lésbicas, nós sofremos muito mais dentro de casa, para além do que sofremos nas ruas. A opressão que carregamos é tripla: somos mulheres, negras e lésbicas – e o que sofremos enquanto tal é constante. Quando uma lésbica negra apanha (em casa ou na rua) ela está sofrendo uma violência tripla; ela apanha porque é mulher, apanha porque é negra e apanha porque é lésbica, e uma violência não está desprendida da outra, é constante, interligado e nos mata todos os dias. O mundo já nos quer mortas por sermos mulheres e negras, a nossa lesbianidade é um acréscimo ao racismo e à misoginia que suportamos diariamente. Enquanto a violência contra os homens gays, por exemplo, é pontual (um ataque direto à sexualidade, entre outras coisas sobre as quais não quero me aprofundar), a violência lesbofóbica é ligada à misoginia – e, por sermos negras, também ligada ao racismo.

Se a população negra é maioria de mortos, em todos os tipos de violência, por que somos minoria quando o assunto é violência lesbofóbica? Será que não existem lésbicas negras ou as que existem não sofrem violência? Somos expulsas de casa todos os dias, apanhamos todos os dias, nossas mães não falam com a gente, nossas famílias esquecem a nossa existência, não concluímos os estudos, não seguimos carreiras de sucesso, não temos acesso a empregos com remuneração decente (não é à toa que os espaços de lojas de shopping e telemarketing – conhecidos pela precariedade – sejam conhecidos como tendo muitas lésbicas trabalhando) e todas essas são consequências diretas da violência doméstica que sofremos diariamente, e que mina nossas energias e capacidades.

Quando foi a última vez que você ouviu qualquer debate sobre esse assunto em um espaço feminista? Ou fora dele? Quando foi a última vez que você conversou com suas amigas lésbicas sobre as violências que elas sofrem em casa? Quando foi a última vez que você pensou, ao organizar um espaço ou evento feminista, em incluir lésbicas e suas vivências na pauta? Quando foi a última vez que você viu um espaço feminista validar a denúncia de violência doméstica de uma lésbica? Quando foi a última vez que alguém lembrou que sapatonas também apanham?

[1] Não sofremos homofobia, sofremos LESBOFOBIA.

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Imagem - Agência Apublica.
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