Quem somos
“Escreva, escreva sempre, como souber ou quiser, em verso e prosa, mostre ao mundo quem você é e quem são vocês, quem somos nós.”
Inaldete Pinheiro de Andrade
Somos mulheres negras e afrodescendentes. Ativistas com estórias de vida e campos de interesse diversos; reunidas em torno das questões da negritude, do feminismo e da produção de conteúdo. Sujeitas de nossa própria estória e de nossa própria escrita, ferramenta de luta e resistência. Viemos contar nossas estórias, exercício que nos é continuamente negado numa sociedade estruturalmente discriminatória e desigual.
O racismo institucional e o mito da meritocracia garantem a distribuição nada democrática dos serviços de saúde e educação promovendo o adoecimento físico e emocional da população negra e afrodescendente; impedindo o acesso à tecnologia, aos recursos naturais e financeiros, aos espaços de poder como universidades e cargos de chefia. Desde a assinatura da lei áurea, fomos condenados à subcidadania e marginalização. Nosso povo continua, em pleno século 21, tratado como cidadãos de segunda categoria.
A invisibilidade naturaliza o racismo em suas diversas modalidades. Apesar de hoje já estarmos nas capas de revista, nas banca dos jornais, nos laboratórios, nos cargos políticos – realidades possíveis apenas depois de muita luta nossa e das que nos antecederam – permanecemos sendo tolhidas nas nossas opiniões, traídas pela falsa representatividade. Ainda sofremos tentativas de manipulação e recoisificação nos diferentes meios de comunicação, estereotipadas nos discursos de beleza e moda. Prevalece o desinteresse em mostrar nossos rostos, nossos corpos, as questões que nos afetam, as tradições e manifestações culturais que nos representam.
Por isso, somos Blogueiras Negras. Fazemos de nossa escrita ferramenta de combate ao racismo, sexismo, lesbofobia, LGBTQIAP+fobia, gordofobia e elitismo. Somos uma comunidade com mais de 500 autoras e 2.000 textos, alcançando mais de 40 mil pessoas; um espaço de acolhimento, empoderamento e visibilidade voltados para meninas e mulheres negras e afrodescendente cis e trans. Acreditamos que a troca de vivências e opiniões em função da negritude partilhada não é apenas desejável, mas um objetivo comum. Queremos celebrar quem somos, quem fomos e quem seremos.
Hoje somos uma Organização não formalizada de Comunicação de Mulheres Negras, pertencentes a RMAAD (Rede Afrolatinoamericana, Caribenha e da Diáspora), a Articulação Nacional de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) e a Rede Mulheres Negras do Nordeste, além de estarmos organizadas em outros diferentes espaços, como o Comitê de Tecnologia da Marcha, construindo o movimento de mulheres negras e movimentos feministas negros no Brasil, na América Latina e no mundo.
As Blogueiras Negras são uma plataforma de publicação feita por, para e sobre mulheres negras, em caráter afirmativo. Mas somos muito mais do que isso. Produzimos conteúdo para fazer a cabeça de todos aquelas que que fazem parte da rede que foi formada para que nossa voz ganhasse expressão numa internet que, há dez anos atrás, não dava minimamente conta dos recortes de gênero e raça.
Nós buscamos mudar isso e olhando para trás, nos sentimos orgulhosas de todo tempo, conhecimento, afeto, dinheiro e esperança investidos por todas as mulheres que são e foram coordenadoras, facilitadoras, autoras e colaboradoras do projeto. Sem toda essa vontade e ação, jamais teríamos chegado até aqui.
Somos um espaço de acolhimento, empoderamento e visibilidade voltados para meninas e mulheres negras e afrodescendentes. Como espaço de discussão, festejamos nossa afroascendência e ressignificamos o universo feminino afrocentrado através do registro das nossas histórias, nossas teorias e sentimentos. Escrevendo, gravando, produzindo e construindo nossa própria identidade como mulheres negras e afrodescendentes. Mulheres de pena e teclado, reinventando a tela e construindo informação para fazer a cabeça.
Um pouco mais de conversa
O que é o Blogueiras Negras? Somos um instrumento de publicação que tem como principal objetivo aumentar visibilidade da produção de blogueiras negras. Somos também uma comunidade bastante diversa em suas opiniões e demandas, organizada através de:
- uma plataforma de conteúdo
- um time dinâmico de autoras
- e uma equipe de facilitadoras
Qual a missão das Blogueiras Negras?
A missão primeira do Blogueiras Negras é o fomento à escrita através da publicação e promoção de conteúdo feito por e para mulheres negras, sujeitas de suas próprias existências e narrativas, com o objetivo de interferir nas esferas públicas e privadas por meio a denúncia do racismo, machismo, classismo e opressões afins, de modo que o combate ao epistemicídio seja nada menos que ferramenta política.
Pensando concretamente, estamos produzindo conteúdo para fazer a cabeça, contribuindo para o debate dentro da comunidade feminista negra e também fora dela. Até aqui, caminhamos por 14 anos com a conquista da visibilidade de nossas autoras e a contribuição para que o feminismo negro fosse cada vez mais longe; tudo isso fez com que tenhamos por necessidade essencial também a preservação e difusão de nosso acervo, visando sobretudo a formação de meninas, mulheres e jovens negras.
Hoje, nossa missão é:
Inspirar e fortalecer as histórias e os legados das mulheres negras
Quais são os valores das Blogueiras Negras?
Nossos valores são alinhados com aqueles do feminismo negro interseccional, com destaque para as seguintes autoras – Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Angela Davis, Audre Lorde, entre outras.
Nos interessam as questões de raça, gênero, classe e suas relações obviamente. Nos colocamos como aliadas ao debates que são próprios ou afins ao feminismo negro como cisnormatividade, capacitismo, gordofobia, ageísmo, defesa do estado laico e afins. Essa é a espinha dorsal que estrutura a nossa linha editorial, sempre atrelada à ideia de que o texto produzido por uma mulher negra constitui seu corpo afetivo, político, identitário, comunitário a ser valorizados.
Entendemos que estórias e visões de mundo precisam ser múltiplas, materializando por meio da escrita a representação de nossos corpos políticos, afetivos e intelectuais, de modo que o epistemicídio, tal como denunciado por Sueli Carneiro, se torna instrumento de incidência intelectual, afetiva, emocional e sobretudo política. Esse entendimento nos fez inclusive perceber que o próprio Blogueiras Negras tem muitas estórias sobre sua constituição e sobre todos esses anos que temos passado juntas. E todas são nossas estórias também.
Acreditamos na liberdade de expressão, desde que não seja confundida com aquilo que se convencionou chamar de liberdade de ofensa, seja por produção ou reprodução de opressões, o que consideramos inadmissível no Blogueiras Negras. A máxima sobre a responsabilidade que o oprimido deve ter em não oprimir é um norte que procuramos seguir com rigor. Ademais, sempre estamos dispostas ao diálogo nesses casos, seja com nossas autoras ou comunidade de leitoras, desde que haja interesse da contraparte nessa conversa.
Onde queremos chegar?
Desejamos fortemente difundir a compreensão de que as mulheres negras que publicam no Blogueiras Negras produzem literatura e portanto somos também um acervo e patrimônio cultural que precisa ser utilizado como ferramenta de empoderamento e referência, mas também valorizado e preservado como registro de um momento histórico que tem sido estratégico para a luta contra o racismo, contra o machismo e opressões afins.
Como visão, nós queremos:
Ser uma instituição referência na construção de narrativas sobre comunicação, tecnologia e memória através do protagonismo das mulheres negras.
É tarefa constante projetar ações voltadas para o combate do racismo, machismo, elitismo e outras opressões responsáveis pelo feminicídio negro, denunciando a correlação entre discurso e prática que nos matam inclusive pela ação institucional.
Para nós, a comunicação como um direito e como parte da estratégia de vocalização dos sonhos e desejos é a ferramenta crucial nesse processo, refundando um mundo a partir das novas ideias sobre o compartilhamento do comum. A articulação política sendo a tática mais bem sucedida e orquestrada entre nós e nos espaços em que parecemos não pertencer, incidindo politicamente por mudanças mais estruturais.
Pensando a tecnologia como território e ferramenta, pretendemos transformá-la num espaço de criação do possível, de maneira coletiva e com uma outra ética: a do Bem Viver, utilizando ferramentas e tecnologias da informação e comunicação para organizar outras lógicas de mundo. Para as Blogueiras Negras, nessas três áreas estão contidos os desafios e as boas práticas a partir do nosso olhar – inventivo, radical e coletivo.