Em 11 de março de 2026, Erika Hilton (PSOL) foi eleita presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher. Uma conquista que, mais do que simbólica, desloca o peso de um futuro incerto historicamente imposto às mulheres, especialmente às mulheres negras.
Desde o início de sua trajetória política, Erika se posiciona, sem hesitação, pela garantia dos direitos das mulheres. Foram 11 votos favoráveis, 10 votos em branco e um ambiente marcado por falas transfóbicas esbravejadas naquele auditório. Ainda assim, a deputada não recuou: reafirmou seu compromisso com todas as mulheres e deixou evidente que aquela comissão não irá tipificar quem merece ou não proteção.
Aquele lugar, ocupado por ela, ressignifica sua história, mas também traz consigo todas as mulheres que foram violentadas, desacreditadas, impossibilitadas e descredibilizadas.
Quem é Erika Hilton?

Nascida em Franco da Rocha, Érika Santos Silva construiu uma trajetória política consistente e comprometida com a transformação social. Em 2018, integrou o mandato coletivo da Bancada Ativista na Assembleia Legislativa de São Paulo. Em 2020, tornou-se a primeira vereadora trans da cidade de São Paulo e a parlamentar municipal mais votada do país, alcançando projeção nacional e internacional.
Durante seu mandato, pautou o debate público sobre gênero e desigualdade, sendo responsável, entre outras iniciativas, pela criação da CPI da Transfobia. Em 2022, foi eleita deputada federal por São Paulo com 256.903 votos. Em 2023, ficou em segundo lugar entre os melhores parlamentares no Prêmio Congresso em Foco. Já em 2024, tornou-se a primeira pessoa trans a assumir a liderança de seu partido (Federação PSOL-REDE) na Câmara, sendo também eleita, por voto popular, a melhor deputada do Brasil.
Direitos das mulheres
A eleição de Erika Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher ocorreu em chapa única. Não havia outras candidaturas. Esse dado, por si só, revela muito. Mesmo sendo a única naquele espaço de disputa pela vida das mulheres, foi perseguida pela oposição, vulgo parlamentares da extrema direita.
Ainda assim, após o resultado, aqueles que não se candidataram, mas discordaram, sentiram-se autorizados a desrespeitar a deputada eleita. O episódio escancara o que está em jogo: não é apenas uma disputa institucional, mas uma tentativa organizada de desestabilizar, em âmbito nacional, os direitos e conquistas das mulheres, justamente em um contexto em que o enfrentamento ao feminicídio e às múltiplas violências de gênero se torna cada vez mais urgente.
A presença de Erika Hilton no intervalo do Jornal Nacional, no último domingo (22/03), reforça a dimensão pública de sua atuação. Trata-se de uma mulher que não se curva ao silenciamento, cuja trajetória política consistente expõe, por contraste, a ausência de compromisso de parte significativa do legislativo brasileiro.
Erika sucede Célia Xakriabá na presidência da Comissão, que, nos últimos quatro anos, realizou 201 audiências públicas e apresentou 317 Projetos de Lei. Sob a liderança de Xakriabá, a Comissão avançou na formulação de propostas voltadas à proteção das mulheres, especialmente no ambiente digital, além de tensionar debates sobre justiça climática e ampliar o acesso da população ao parlamento. É nesse cenário que os ataques ganham contornos ainda mais graves.
O que está em disputa?
O que vemos é parte de um movimento mais amplo de desmantelamento das políticas de raça e gênero, sustentado por um projeto que busca manter um status quo racista, patriarcal e misógino, não apenas no Brasil, mas em escala global.
Na CSW70 [Comissão sobre Situação da Mulher na ONU, 70ª Sessão], por exemplo, os Estados Unidos tentaram aprovar uma resolução que restringia o conceito de gênero a uma definição binária, contrariando consensos internacionais historicamente construídos. A tentativa foi barrada graças à articulação de organizações da sociedade civil, como a Rede de Mulheres Afrolatinoamericanas, Caribenhas e da Diáspora [RMAAD], que atuaram para impedir retrocessos e defender acordos multilaterais já estabelecidos.
Mas nós não tememos. Nós, mulheres negras, cis ou travestis, periféricas, seguimos.
Erika Hilton não apenas tem capacidade para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher. Ela reúne condições reais de projetar novos horizontes para o país, mesmo diante de uma democracia que, tal como a conhecemos, parece se esvair diante dos nossos olhos. E, como ecoa da Marcha das Mulheres Negras 2025, existe um projeto político construído pelas mulheres negras que atravessa passado, presente e futuro.
Por isso, não permitiremos que a velha manobra de levantar bandeiras ideológicas da extrema direita, em busca de reconhecimento entre seus pares, utilizando uma parlamentar como Erika, desvie nossa atenção do que realmente importa. Estaremos atentas às demandas e mobilizaremos esforços para que a nossa dignidade, enquanto mulheres negras, não seja reduzida à centralidade de uma disputa moral alheia, especialmente em um contexto em que seguimos sendo cobradas a ser duas, três vezes melhores do que qualquer pessoa não-negra, não-trans.
Um projeto que se materializa na coerência entre discurso e ação. Erika Hilton será presidenta. A primeira do seu nome.
Este texto expressa o posicionamento institucional e coletivo do Blogueiras Negras, construído a partir de nossas experiências, princípios políticos e compromisso histórico com a defesa da vida, da dignidade e dos direitos das mulheres negras. Este também é o primeiro exercício de escrita coletiva das mulheres que compõem o Programa de Voluntariado BN 2026: Larissa Novaes, Larissa Milhorance, Maria Vitoria e Maysa Santos.
