Enquanto aguardava a sua chegada, aproveitei para ir ver a exposição, no primeiro andar, do grande e notável artista plástico, sambista, boêmio e ogã, Heitor dos Prazeres.
Fui até a recepção do centro cultural e solicitei ao atendente um ingresso. Peguei o elevador para o primeiro piso e na entrada da exposição recebi as orientações das atendentes sobre não
poder fotografar as obras com flash e comer no recinto.
Ao entrar na primeira sala da exposição me deparei com um público majoritariamente branco e estrangeiro.
Não posso dizer que estranhei, na realidade, sinto e digo que me assustei e fiquei reflexiva sobre questões ligadas aos debates de acesso à informação, desigualdades e segregação socioespacial e racial.
O CCBB-Rio é uma instituição cultural que abarca gratuitamente diversas atividades culturais, artísticas e educativas. Quando as atividades exigem algum tipo de custo, posso dizer que para o contexto do Rio de Janeiro não seja caro, na realidade, muitas das vezes são preços simbólicos. Basta lembrar que o custo de vida da cidade do Rio de Janeiro é considerado pelos centros de pesquisas uma das cidades mais caras do país.
Contudo, apesar da facilidade de acesso ao espaço e as suas atividades culturais, artísticas e educativas, o espaço segue ocupado por corpos que historicamente são
privilegiados (pessoas brancas brasileiras e pessoas europeias brancas). Privilégios que
destacam-se no campo da política, do acesso à educação e saúde, na legitimação da fala
e, sobretudo, no respeito ao direito fundamental da vida.
Alguns/as leitores/as poderão questionar a minha crítica, principalmente as/os
trabalhadoras/es culturais da instituição mencionada, e rebater alegando que o espaço
oferece visitas mediadas para as escolas municipais, estaduais, federais, ou seja,
instituições de educação pública onde o corpo estudantil é formado por um contingente
negro expressivo. Entretanto, devo enfatizar que o meu ponto não é sobre como a
instituição acolhe e tem acolhido os/as estudantes da educação básica, assim como da
educação superior. Quero me ater a ausência de corpos negros e periféricos como
frequentadores desse espaço (questão que pode ser colocada para outros centros culturais
também).

Quando era docente de Sociologia da rede pública estadual, observava que muitas
das vezes meus/minhas discentes acessavam pela primeira vez centros culturais, museus,
teatros dentre outras instituições através dos passeios escolares. Ao longo dos seis anos
que ministrei aulas de sociologia e filosofia no bairro de Alcântara, município de São
Gonçalo, ouvi dos alunos e das alunas comentários de que eles e elas não tinham o hábito
de frequentar centros culturais e bibliotecas devido a distância e inexistência em seus
bairros e cidade. Um bom exemplo foi a exposição das pinturas do intelectual, político e
militante negro, Abdias do Nascimento que ocorreu no ano de 2019 no Museu de Arte
Contemporânea/MAC de Niterói. Um município vizinho ao de São Gonçalo. Para as
estudantes das turmas do curso normal que lecionava aquela foi a primeira vez que foram
ao MAC, assim como viram uma exposição e puderam se surpreender com o estilo e
proposta política de Abdias do Nascimento nas artes visuais. Importa dizer que esse tipo de
passeio educativo que ocorre no ambiente escolar é devido a persistência, força de
vontade e desejo de levar a aula para fora da sala de aula é a ação de muitas/os
docentes que resistem nas margens da desvalorização e precarização de sua profissão na
sociedade brasileira.
Os onze anos e quatro meses de trabalho docente na rede estadual de ensino, me
ensinou que a prática de visitar locais como as exposições e outras atividades artísticas se
traduz como um modo de capital cultural e social (BOURDIEU, 1993) e no qual os grupos
pertencentes às classes médias e classes altas ensinam aos seus herdeiros e herdeiras.
Grupos sociais predominantemente brancos e que não estranham nossa ausência dos
espaços de representação física, política e simbólica. Na verdade, compreendo que nós
negros e negras fomos ensinadas/os a não adentrar tais espaços e aprendemos a subtrair
no consciente a nossa não presença. Pois as elites dominantes do país insistem em nos
dizer, por diversos meios ideológicos, que nem todos os ambientes nos pertencem e
nem todos os espaços devem ter nossos corpos em circulação. E isso se estabelece
até em locais que têm como proposta trazer os nossos referenciais, as nossas obras de
artes, a história de vida daquelas pessoas que contribuíram para outro imaginário social,
cultural e político das culturas e populações africanas-diaspóricas. É irônico e atormentador
pensar que somos a cota, a minoria, numa exposição artística que trata de um homem
negro como Heitor dos Prazeres. Ora, falamos de um Ogã, de um homem negro do samba,
da cultura e que dedicou parte de sua trajetória para nos retratar em momentos de
afetividade, de alegria, de sexualidade, de nudez não pornográfica e em nossas infâncias
pretas (nossas brincadeiras, travesuras e doçuras). Heitor dos Prazeres que participou de
eventos importantes das artes negras, que teve sua obra reconhecida em jornais, revistas e
premiações. Neste sentido, pergunto: o que a ausência de pessoas negras na exposição
deste emérito artista nos revela sobre as relações raciais brasileiras, o que nos oferece para
pensar em torno do debate de apropriação cultural e relações de poder de brancos/as sob
negros/as?
Algumas outras perguntas podem responder a questão.
Será que ao sermos reconhecidos socialmente pela importância do nosso trabalho
somos automaticamente posicionados como a cota dos espaços de poder? Ou seja,
ficamos isolados com nossa obra e nossos corpos?
Será que estamos valorizados erroneamente tais espaços ao querer adentrar e
insistir em visitá-los? Ou devemos focar nossos esforços cada vez mais para que os
museus afro-brasileiros tenham com frequência a população negra e esteja no imaginário
dela?
Por fim, quais medidas podemos tomar para que sejamos, de fato, uma parte
interessante do público que desfruta das artes negras de (re)existências e persistências nos
espaços culturais formais?
Referências
BORDIEU, Pierre. A reprodução. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992.
BOURDIEU, Pierre. Les Héritiers. Paris: Les Éditions de Minuit, 1964.
