Desculpe-me, mas eu serei franca, eu sou uma ameaça real a estrutura social perpassada por colonialidade, ser assim nem é um propósito intelectual e de vida, mas uma exigência existencial devido às violências que meu corpo escuro, feminino e gordo é alvo constantemente. Agora, eu estou na fase mais importante da minha formação acadêmica, não por me proporcionar conhecimentos emancipatórios para lutar com a desigualdades, isso os movimentos sociais já me proporcionam há muito tempo. Como diz a Nilma Lino Gomes, o movimento negro tem um papel formador, sempre teve, até mesmo em épocas que a liberdade não era um horizonte coletivo para pessoas negras escravizadas.
Eu não vivo do passado, porém, na atualidade, cada situação cotidiana possibilita insights a partir de uma memória coletiva, não hegemônica, e que contribuem para uma interpretação de ideologias que sobreviveram e se modificaram ao longo do tempo, apesar dos avanços da sociedade brasileira para uma civilidade para além da barbárie escravocrata e imperialista. Ainda, somos uma sociedade cujos discursos e relações podem, ou não, sustentarem naturalizações do racismo estrutural, principalmente nas interações interpessoais ou micro-contextos.
Nunca tive paciência com o racismo cordial ou qualquer discurso opressor, sempre imperativo, ou melhor, imperialista. Meu corpo é insubmisso e isso não me impede de ser extremamente carinhosa com qualquer sujeito que queira se aproximar, para me ensinar ou dialogar. Talvez, por ingenuidade, ou por esperança, eu acredite que todas as pessoas sejam dispostas a terem diálogos sinceros e a praticar da escuta, principalmente em um espaço formativo onde circulam tantas ideias e diversas corporeidades. A ingenuidade tem se perdido a cada segundo que estou aqui, frequentando o espaço acadêmico. Com ela, a esperança também se esvai.
Então, quando eu penso em orientação acadêmica, eu penso primeiro em um servidor público que fica responsável por essa função, se é bem pago ou não, eu não sei, mas é um servidor, um funcionário de uma instituição pública. Eu, como orientanda, com bolsa de pesquisa, também acabo me tornando uma “funcionária” e devo satisfação a instituição e, principalmente, a sociedade pelo trabalho intelectual que me propus realizar. No entanto, além dessas funções dentro de uma hierarquia, um modo de organização e não de opressão, eu também sou um ser humano e a figura de orientação também. Cada um com uma posição social especifica, com um lugar de fala, de vivência e preparo, e detentor de subjetividades. Nesse sentido, muitos conflitos podem surgir, por variados motivos, por isso, o diálogo com escuta deve sobressair aos monólogos egocêntricos, para assim fazer jus a uma ciência que se chama humanas.
Ser pretativista, escritora e pesquisadora, no espaço acadêmico, tem os seus desafios, ora desconfiam da sua competência enquanto cientista, ora lhe reduz a uma concepção rasa de ativismo. Há também momentos em que o medo ilude quem convive comigo, pois os textos ficcionais que eu escrevo são viscerais para um leitor ou leitora acrítico(a) em relação às dinâmicas horrendas das relações raciais. Tanto nos meus textos, acadêmicos ou não, como na minha fala, eu estou pensando e questionando, nada para mim é absoluto, eu evidencio o epistemicídio, o silenciamento e a subordinação imputados cada vez de forma mais sutis nos discursos.
Isso para alguns é um dos meus maiores defeitos, para outros é motivo de orgulho e admiração. Meu corpo e minha voz não podem ser domesticados, mesmo assim há quem pensa que é possível. Eu sou pesquisadora, porque gosto de refletir e interpretar a luz de distintos pontos de vista as produções artísticas de mulheres como eu, que dividem uma experiência coletiva comigo. Dependendo das ideias que eu questione, nem se eu banhar a minha com mel, elas poderão ser vistas como doce, porque falar de branquitude, racismo, racialidade e suas relações com as produções literárias e as teorias causa certas mágoas em algumas pessoas. Tudo bem, não é fácil para ninguém.
Não tem como me orientar academicamente me exigindo subordinação e silêncio, posso seguir as regras todas da hierarquia, podem esperar de mim cumprir prazos e metas até quando o contexto não está favorável ao meu existir epistemologicamente. Todavia, não tem como me pedi ou fazer encaixar em expectativas e comportamentos que visem o controle discursivo, dentro e fora da academia, de minha voz e escrita. Em termos de escrita até se tem certa flexibilidade para isso acontecer, desde que me ensine como é escrever sem ser quem é.
Da minha próxima orientação, eu não espero amizade, contudo, espero sinceridade na relação orientanda-orientadora/orientador. Quando penso em sinceridade é dizer o que se pensa e também escutar o que eu tenho que dizer, mas se isso não for possível que haja um afastamento respeitoso com diálogos burocráticos, talvez, frios, que deem conta de cumprir o meu principal objetivo: CONCLUIR ESTA ETAPA ESCOLAR.
